* Marcio Rogers Melo de Almeida
& Manoel Moacir Costa Macêdo
A crise da citricultura em Rio Real, estado da Bahia, que abrange o vizinho estado de Sergipe, não pode ser compreendida apenas por variáveis estruturais, como clima adverso, manejo inadequado, escassez de crédito e ausência de tecnologias apropriadas, fatores comuns nos sistemas de produção agrícolas.
Esses fatores, embora reais, são mediados por um elemento comportamental decisivo, aqui chamado de “inércia da tomada de decisão”. Na economia comportamental, ramo contemporâneo da ciência econômica, corresponde à tendência de repetir escolhas passadas mesmo quando os dados objetivos apontam para a necessidade de mudança. Essa inércia se sustenta ao menos, em três mecanismos interligados. Primeiro, a contabilidade mental, que leva o citricultor a tratar o custo investido na lavoura como um Sunk cost – custos afundados -, que precisa ser recuperado a qualquer preço, a exemplo de prolongar os cultivos antigos, inviáveis e com baixa produtividade. Segundo, a prática ancoragem, onde decisões continuam sendo tomadas com base em preços e produtividades de anos anteriores que não refletem a realidade do mercado volátil das commodities na economia global. E terceiro, o efeito manada, agravado pela pressão das empresas processadoras: ao observar que vizinhos e pares mantêm as mesmas práticas e contratos.
O produtor interpreta a conformidade como segurança, mesmo quando a coletividade caminha para o mesmo prejuízo. A pressão das processadoras, nesse quadro, não atua apenas como força econômica externa, mas como catalisadora da inércia, ao consolidar contratos e padrões que desestimulam a experimentação e a diversificação.
Nessa perspectiva, a análise da economia comportamental revela, que a crise da citricultura, não é apenas um problema de recursos escassos, mas de racionalidade limitada. Decisões que contrariam a lógica econômica não são irracionais no sentido de ausência de razão, mas racionais num contexto de incerteza, informação assimétrica e pressão social. Romper essa inércia exige intervenções além do crédito e tecnologia, demanda a construção de uma arquitetura de escolha por políticas públicas que reduzam o custo psicológico da mudança. Destaque para programas de assistência técnica que demonstrem comparativamente os resultados de práticas alternativas, contratos que ofereçam segurança para a diversificação e estímulo à criação de redes locais de produtores que legitimem a inovação como norma social.
Enquanto o citricultor continuar preso numa inercia tomada de decisão mesmo quando existe uma escolha melhor, a repetição irracional de decisões manterá o ciclo de crise. O momento exige políticas agrícolas adequadas na direção de uma mudança deliberada que torne a transformação psicologicamente menos custosa, do que a permanência no mesmo lugar decisório.
Para tanto, lições foram recomendadas em debates recentes. “Citricultura em Crise!!! Que Caminho Tomar”? A resposta foi dada: “Mais do que nunca, a citricultura necessita de equilíbrio entre agronomia, gestão financeira e tomada de decisão estratégica”. Que seja urgente, tempestiva e sem inércia.
* Marcio Rogers Melo de Almeida e Manoel Moacir Costa Macêdo, são respectivamente, economista e engenheiro agrônomo.


