Ainda somos Cristian Góes

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O desembargador Edson Ulisses de Melo vem sendo mencionado em letra de imprensa. Desta vez, sob o pretexto de uma publicação sem a menor importância. Apesar da assinatura na ficha catalográfica, ‘Sabedoria Popular’ (2016) cumprirá o mesmo destino de ‘Reflexões Cidadãs’ (2012), primeiro apanhado em prosa de sua vaidade – A saber, o apetite das traças. Obra mais volumosa e desafiadora, merecedora da inteligência acanhada da aldeia, aflorou no processo movido contra o jornalista Cristian Góes. Há ali mais imaginação e absurdo do que nas academias de letras encarquilhadas.

Jornalismo é também construção e preservação de memória. A crônica ficcional ‘Eu, o coronel em mim’ contextualizava o mandonismo acoitado sob a toga de uns e outros. O tema era oportuno. A redação logrou alguma graça. Por alguma razão misteriosa, no entanto, o desembargador não simpatizou com o pensamento levado à ponta da pena. E obrigou o jornalista Cristian Góes ao constrangimento do cadafalso.
Em terra de cacique, manda quem pode e obedece quem tem juízo. O texto descrevia um coronel fictício, afeito a arbitrariedades. O jornalista não citou nomes, lugares, nem datas. Mas o desembargador vestiu a carapuça. Assim, em julho de 2013, Cristian Góes foi condenado a sete meses e 16 dias de prisão, pena convertida em prestação de serviços comunitários.

No release distribuído agora pelo Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe, o desembargador lamenta as perdas sofridas pela tradição oral. Nisso, está coberto de razão. A memória de um lugar é mesmo artigo valioso. Por isso os arquivos dos jornais. Aqui, por exemplo, a ofensa proferida contra um jornalista no exercício da profissão guardada para sempre.

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