Rian Santos
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O homem mais bonito do mundo escolheu morrer. Aos 86 anos, Alain Delon já incumbiu o filho de todas as providências relacionadas à burocracia e cerimônias do adeus.
“Envelhecer é uma merda!”, Alain Delon argumenta. Refere-se, naturalmente, à própria ruína. Sem força nos músculos, o ator pretende entregar os pontos em hora marcada, um voluntário no cadafalso, quer sair de cena com a cabeça erguida, reivindica direitos sobre o seu último gesto, recusa-se a fechar os olhos tomado de pavor.
Que assim seja, portanto, sem o escândalo de um tiro na testa, como o disparado por Hemingway. A Suíça, onde o ator reside, não se interessa por controvérsias de foro íntimo. Os dólares, miolos, as tripas e intestinos de cada cidadão dizem respeito apenas a eles próprios. Assim é em parte do mundo, onde a conveniência dos endinheirados faz jus ao status de verdadeiro Paraíso – e não somente reles paraíso fiscal.
O sol por testemunha, lúcido, Alain Delon jura de pés juntos: Está pronto para partir. Eu o vejo em seus melhores anos, na pele do talentoso Ripley, muito antes de Matt Damon, pleno, satisfeito com a alegria breve da juventude. Lembro também do amigo Amaral Cavalcante durante o lançamento de suas crônicas, o poeta já em cadeira de rodas. Não foi a festa merecida, regada aos melhores vinhos, o tributo devido a sua inteligência feroz. Comparo um e outro, concluo que Alain Delon tem as suas razões, todas alheias a eventuais julgamentos sobre renúncia tão radical.
Assim, embarcará sem sustos, o ator Alain Delon. Deixará amigos, entes queridos, amantes, traições, algum rancor, talvez. Vai embora, senhor de sua vontade, como quem abre uma porta ao fim de uma festa e deixa a vida inteira para trás.


