A deputada estadual Ana Lúcia é direta quando o tema é a abertura do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff: "O chamado impeachment não é motivado pelos supostos erros cometidos pela presidenta Dilma, mas pelas mudanças no curso da história do nosso País que tanto incomodam as elites", afirma. Professora, militante histórica do Partido dos Trabalhadores (PT), deputada estadual no quarto mandato, Ana Lúcia tem uma trajetória ligada às lutas populares e à construção de um novo modelo de sociedade. Nessa perspectiva, a Prefeitura de Aracaju pode ser mais um passo para consolidar o projeto de mudanças sociais? "O futuro a Deus pertence", diz Ana Lúcia, sobre uma possível candidatura nas eleições de 2016. "Esse debate é do PT, da sociedade, e eu pretendo acompanhá-lo atentamente", complementa. Esse foi um dos tema da entrevista com a deputada Ana lúcia, que fala ainda sobre PT, avanços e retrocessos na Educação e mandato popular. Confira:
Jornal do Dia – Como a senhora avalia a conjuntura nacional, inclusive, com a abertura do pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, PT, partido ao qual a senhora é filiada?
Ana Lúcia – A presidenta Dilma não cometeu nenhum crime de responsabilidade ou praticou ato de improbidade administrativa. O que motiva o pedido de impeachment é uma ação de uma maioria conservadora no congresso e de líderes partidários que até agora não aceitaram o resultado das eleições de 2014. Impeachment apenas por motivação política não é impeachment, é golpe. Essa nova modalidade de golpes parlamentares recentemente já foi protagonizada em países com Honduras e Paraguai, entre outros. O chamado impeachment não é motivado pelos supostos erros cometidos pela presidenta Dilma, mas pelas mudanças no curso da história do nosso país que tanto incomodam as elites.
JD – O PT passa por um momento de profundos questionamentos externos e, acreditamos, internos também. Onde o PT errou?
Ana Lúcia – Eu sou uma petista que sempre fiz os questionamentos e os debates internamente sobre a adoção de políticas moderadas que deslocaram o PT de sua origem histórica de partido da classe trabalhadora brasileira para um partido com posturas centristas em decorrência de alianças eleitorais com partidos conservadores e setores da direita brasileira. No entanto, o que tenho visto externamente é uma ação midiática, na qual os grandes meios de comunicação, a exemplo da Rede Globo e da revista Veja, abdicaram do papel de órgãos de informação para atuarem como um partido político das elites brasileiras e do capital especulativo internacional. Estes segmentos da mídia e da direita apostam que a única forma de barrar o retorno do presidente Lula em 2018 ao Palácio do Planalto é desconstruir a imagem do Partido dos Trabalhadores e semear o antipetismo.
JD – A senhora tem como base a Educação, e agora o Governo Federal assume a Educação como eixo prioritário de governo. Quais os avanços na área nesses anos de administração petista? O que precisa avançar? E no Estado, como avalia as políticas públicas nesse segmento?
Ana Lúcia – Compreendo que um dos maiores avanços do Governo Federal foi o de promover a inclusão social a partir da educação, através da expansão e interiorização das universidades públicas e dos Institutos Federais de Educação Tecnológica, da adoção da política de cotas para estudantes de escolas públicas e negros, da duplicação do volume da transferência de recursos para que Estados e Municípios possam investir na educação básica, e da aprovação da meta do Plano Nacional de Educação (PNE) que obriga o Brasil a investir 10% do Produto Interno Bruto (PIB) em educação. O Estado de Sergipe, infelizmente, vem há alguns anos na contramão da história, tendo em vista que não consegue implantar nem executar de forma exitosa os programas educacionais do Governo Federal em Sergipe, que oficializou uma política de desvalorização dos professores, além de termos na gestão da Secretaria de Estado da Educação uma política de terra arrasada em relação à manutenção e ao desenvolvimento do ensino nas escolas estaduais.
JD – Já falando em 2016, o nome da senhora foi colocado como pré-candidata à Prefeitura de Aracaju. Mantém-se pré-candidata?
Ana Lúcia – O futuro a Deus pertence. Esse debate de pré-candidatura à prefeitura de Aracaju é do PT, da sociedade, e eu pretendo acompanhá-lo atentamente.
JD – Quais os compromissos prioritários que deve assumir o futuro gestor de Aracaju?
Ana Lúcia – Aracaju necessita urgentemente de uma inversão em todas as áreas da administração pública. A gestão do município de Aracaju não pode ficar restrita apenas à 13 de julho, mas precisa chegar por igual a todos os bairros e comunidades, particularmente àqueles onde reside a população mais pobre. Os milhares de cidadãos e cidadãs que residem em Aracaju são sujeitos de direitos, ou seja, é necessário assegurar a todos e a todas os direitos fundamentais para que efetivamente possamos ter qualidade de vida em Aracaju. O planejamento urbano é pré-requisito para administrar uma cidade: o plano diretor precisa ser aprovado e a licitação do transporte público precisa ser realizada. Por isso, entendo que Aracaju precisa superar essa lógica eleitoreira de iniciativas pontuais, localizadas, desarticuladas e caramelizadas pela publicidade institucional para serem assimiladas pela população como se fossem – e não são – políticas públicas que alterem o perfil social do município.
JD – Num balanço da atuação parlamentar da senhora em 2015, o que podemos destacar?
Ana Lúcia – Uma intensa articulação entre a minha atuação no plenário da Assembleia Legislativa de Sergipe com as demandas e reivindicações dos movimentos sociais e de instituições ou segmentos organizados da sociedade civil sergipana.
JD – No quarto mandato como deputada estadual, qual a maior contribuição para o povo sergipano?
Ana Lúcia – É ter consolidado a experiência do mandato parlamentar como uma ferramenta à disposição da sociedade para debater, ouvir os reclamos, encaminhar as proposituras e mediar junto aos outros poderes soluções que visem superar os problemas em áreas como educação, saúde, segurança pública, moradia, direitos humanos, reforma agrária, moradia, combate ao racismo e à intolerância religiosa, defesa dos direitos da população LGBTT, direitos da criança e do adolescente, comunidades tradicionais, agricultura familiar, segurança alimentar, cultura, juventude, enfrentamento à violência contra a mulher, meio ambiente e os direitos da classe trabalhadora, particularmente, dos servidores públicos estaduais e municipais.
JD – A senhora atua no mandato a partir de eixos prioritários e participação popular. Como é feito esse trabalho?
Ana Lúcia – Por entender que é preciso estar lado a lado com a população para entender do que ela precisa, o meu mandato tem como referência de todas as suas ações o diálogo constante com os movimentos sociais, populares e sindicais e com os cidadãos e as cidadãs de Sergipe. Na nossa experiência de mandato democrático e popular, isso é feito através de visitas a espaços públicos, levantamento de dados e pesquisas sobre a realidade do povo sergipano, ou ainda por meio do acompanhamento constante dos movimentos sociais, das articulações de entidades, das organizações não-governamentais, dos sindicatos, dos movimentos populares e dos diversos segmentos da sociedade. As audiências públicas e as plenárias com movimentos sociais em comunidades urbanas e rurais também têm sido um espaço importante de aproximação com a sociedade. Somente em 2015, realizamos diversas audiências, sobre os mais variados temas, a exemplo da Violência na sociedade e seus reflexos na escola, do Novo Código Florestal e a Crise da Água, Políticas Públicas do Ministério da Cultura e o Plano Estadual de Cultura, além de uma grande audiência pública sobre o enfrentamento à intolerância religiosa e a defesa do estado laico. A necessidade de se priorizar as políticas públicas voltadas para a primeira infância, também foi tema de audiência, que culminou na criação de uma página informativa nas redes sociais chamada ‘Primeira Infância: Um ideário em Construção’. É esse diálogo constante que alimenta a atuação de um mandato democrático e popular, seja pela mediação dessas demandas junto aos outros poderes, articulando e aproximando a população do poder público, seja por meio de instrumentos institucionais, como a elaboração de Projetos de Leis e de resoluções e indicações. Nenhum Projeto de Lei ou indicação é apresentado por mim na Alese sem que antes meu mandato tenha dialogado com os segmentos da sociedade que direta ou indiretamente tenham interesse na temática.
Para 2016 desejo…
"A adoção de políticas públicas que promovam a redução da violência em nossa sociedade, que os direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras sejam respeitados, que se concretize uma política de valorização dos profissionais do magistério, que possamos superar essa lógica perversa de sucateamento dos prédios das escolas públicas para que possamos ter qualidade no ensino público, que sejam mudados os eixos da política econômica para voltarmos a ater estabilidade e geração de empregos e, por fim, que a democracia prevaleça para sepultarmos definitivamente todas as conspirações golpistas".


