O desinteresse dos jovens pelos cursos de informática pode provocar, em curto prazo, um apagão no setor de Tecnologia de Informação em Sergipe. A advertência foi feita durante a 5ª edição do e-CIO (Chief Information Officer) realizada em Aracaju e que reuniu durante dois dias profissionais da área, fornecedores, universidades e faculdades. Nesta entrevista, o presidente da Associação dos Gestores de Tecnologia da Informação do Estado de Sergipe, Domingos Sávio Alcântara Machado, diz que a baixa qualidade do ensino médio é a principal causa do desinteresse dos jovens pela área de TI.
JORNAL DO DIA – A 5ª edição do e-CIO (Chief Information Officer) atendeu as expectativas da Associação dos Gestores de Tecnologia da Informação do Estado de Sergipe?
DOMINGOS SÁVIO – Atendeu sim. Esta edição do e-CIO, que teve por tema Gestão, Tendências e Mercado de Trabalho, permitiu que durante dois dias discutíssemos as melhores práticas na gestão da Tecnologia da Informação, das tendências sobre virtualização, redes sociais, além de permitir que realizássemos uma pesquisa inédita sobre o uso da tecnologia em Sergipe e o nosso mercado de trabalho.
JD – Existe o risco de faltar mão de obra especializada em Tecnologia da Informação em Sergipe?
DS – A geste discutiu durante o evento sobre o risco que existe de um ‘apagão’ no setor de TI, ou seja, da falta de profissionais no mercado de trabalho. Hoje temos um problema muito grande neste sentido por conta da falta de interesse dos jovens em estudar as áreas de informática. Outra questão preocupante é que muitos estudantes abandonam os cursos. A idéia é que os gestores de TI continuem discutindo essa questão na tentativa de encontrar uma solução, evitar este temido ‘apagão’.
JD – O distanciamento entre as faculdades e o mercado de trabalho pode ser a causa principal desse temido ‘apagão’?
DS – A princípio a gente coloca que as faculdades são poucas e as empresas de TI são muitas. Entendo ser preciso que haja iniciativa de ambas as partes. As indústrias precisam se aproximar mais das universidades para discutir seus projetos. A questão é que no Brasil as pesquisas são desenvolvidas pelas universidades, sem que haja investimentos do setor industrial visando estimular o trabalho acadêmico. Portanto, é preciso reduzir esse distanciamento. Ora, se a pesquisa acontece na universidade, a indústria precisa apoiá-la para que o trabalho acadêmico não fique muito distante das necessidades do mercado local. Um exemplo de que existe interesse da universidade nesse sentido é a participação dela em eventos como o que realizamos.
JD – Qual a média salarial de um profissional de Tecnologia da Informação em Sergipe?
DS – Essa é uma informação que vamos divulgar nos próximos dias. Durante a 5ª edição do e-CIO realizamos uma pesquisa neste sentido com todos os participantes e logo após os dados serem tabulados vamos divulgar o resultado no site da Associação dos Gestores de Tecnologia da Informação do Estado de Sergipe. O nosso propósito é atualizar essa tabela salarial anualmente para que possa servir de referência ao mercado de TI, já que atualmente não existem dados concretos nesse sentido em Sergipe.
JD – O mercado de trabalho em Sergipe para o profissional de TI é bom?
DS – Existe sim um bom mercado para o profissional de TI em nosso estado. O que precisa é qualificá-los melhor e que as empresas paguem salários melhores para que aqueles bons profissionais não migrem para outros estados onde se remunera melhor.
JD – Por que Sergipe ainda remunera os profissionais bem menos do que outros estados?
DS – Existem vários fatores, mas eu destaco que ainda existe uma falta de visão de parte dos nossos empresários em relação ao uso da tecnologia. Muitos acham que isso é um gasto, e não investimento. Há empresas que ainda classifica a informática como uma atividade meio. Eu não gosto dessa classificação, pois existem algumas áreas nas empresas consideradas estratégicas, e TI é uma delas porque permite criar um diferencial competitivo no mercado empresarial.
JD – Muitos empresários têm dificuldade para discutir sobre Tecnologia da Informação. O que fazer para melhorar isso?
DS – Nós defendemos que o gestor de informática se aproxime mais dos empresários, que não utilizem uma linguagem tão rebuscada, pois se o empresário não entende termina não se interessando em comprar os projetos. Portanto, precisamos ter uma linguagem mais próxima da realidade do mercado para diminuir o distanciamento que existe hoje.
JD – A chegada de novas empresas em Sergipe tem contribuído para reduzir esse distanciamento entre o profissional de TI e o mercado empresarial?
DS – Naturalmente que sim. O que achamos é que ainda é muito tímido o número de empresas que aportaram em Sergipe nos últimos anos. Torcemos que o governo continue com a política pública de atração de novos empreendimentos e que invista na qualificação de mão-de-obra, pois as empresas precisam encontrar aqui um ambiente preparado para que elas não apenas produzam, mas também vendam seus produtos aqui. Em outras palavras, precisamos ter mão-de-obra especializada e comprar tecnologia.
JD – O desinteresse dos jovens pelo mercado de TI tem a ver com a baixa qualidade do ensino médio?
DS – Essa é uma questão muito importante. Para se ter uma idéia, as universidade precisam fazer um curso de nivelamento porque os estudantes chegam no ensino superior com dificuldade em matemática, de entender um texto. Realmente, o ensino fundamental e médio, principalmente o público, deixa muito a desejar. O resultado é que o aluno chega à universidade nivelado por baixo e não consegue alcançar êxito em cursos como os de informática. O resultado disso é que, sem condições de continuar o curso, muitos abandonam a faculdade e tentam ingressar no mercado de trabalho mesmo sem a desejada qualificação.

