Artista igual pedreiro

A diretora regional do SESC: "Venha a nós. Vosso reino, nada".

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Só quem é artista conhece a dor de futucar os próprios nervos para ganhar o pão. Para toda a gente, mesmo o autor de uma poética sólida o bastante para sustentar os sonhos mais ambiciosos com uma dieta magra de ração por anos a fio é igual a um hippie coberto de miçangas – uns vendem balangandãs, outros se exibem com o jeans surrado de algum vocabulário.
Penso no divórcio entre artistas locais e o prezado público, dou de cara com a Galeria de Artes do SESC. Segundo as minhas fontes, há um projeto dedicado à sensibilidade nativa em vias de ganhar cartaz. A intenção é boa, mas resvala na ausência de um trabalho curatorial mais ou menos consequente. Além disso, atribui aos artistas visuais da aldeia o mesmo status de amadores.
Explica-se: Alguns dos principais artistas visuais em atividade aqui e agora foram abordados em nome da senhora Maria Aparecida Gonçalves Farias, diretora regional do SESC em Sergipe. A abordagem, em si, consistiu em um primor de frieza burocrática. Ao invés de uma visita de cortesia aos ateliês mantidos com suor e lágrimas nas beiras do mangue serigy, os responsáveis por lidar com a frágil matéria do espírito hodierno escolheram o contato por e-mail.
Até aí, tudo bem. As questões de etiqueta não merecem considerações mais graves. Ocorre que o convite estendido a uns e outros, sabe-se lá se orientado por algum critério, contém uma armadilha. O artista eventualmente disposto a pendurar uma tela na parede da galeria estará abrindo mão dos direitos sobre a própria obra. O “aceite” implicaria na doação do trabalho exposto para o acervo da galeria, à revelia do prêmio/remuneração de praxe.
Um acinte, a coletiva da Galeria de Artes do Sesc foi tramada sobre a plataforma de um golpe! Desde já, portanto, adverte-se aqui os desavisados: Quem se dispor a participar da coletiva com o sugestivo nome de ‘Olhar-SE’, com data de inauguração prevista para o próximo dia 24, estará prestando um desserviço aos artistas sergipanos. Falo aqui dos próprios artistas e também dos visitantes da galeria, atraídos pelo vinho ralo dos vernissages.
Diante do exposto, resta o trocadilho: Quem atender ao convite/arapuca da senhora Maria Aparecida e botar os pés lá, francamente, não tem olhos de ver os traços e as cores derramadas por estas bandas – ou, por outras palavras, não se enxerga.

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