Rian Santos
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O axé chororô de Netinho nunca me disse nada. À época do colégio, a histeria do fã clube soava fora de tom, desproporcional ao carisma pouco do artista pendurado no trio elétrico, mero comerciante de mamãe sacode e abadá. Hoje, então, no auge do ocaso, quando as abestalhadas que matavam e morriam por ele contam mais 40 primaveras, o seu retorno aos palcos passaria batido, em brancas nuvens, não fosse a alardeada simpatia do cantor pela extrema direita golpista.
Das afinidades eletivas de Netinho, não posso dizer nada. A sua vida e o seu trabalho não me interessam, em absoluto. Estas serviram de justificativa, no entanto, para o Bloquinho do Iate quebrar o contrato firmado com o artista e passar o comando da fuzarca fora de hora para a cantora Márcia Freire. Ele não gostou, claro! E soltou o berreiro nas redes sociais, feito um menino mimado.
O axé chororô de Netinho perdeu o bonde da História. A emergência recente de uma extrema direita coberta de verde e amarelo sugeria uma guinada mais duradoura, rumo a uma sensibilidade política francamente reacionária. Mas a incompetência flagrante do governo Bolsonaro abreviou o surto coletivo. Agora, quem empenhou o próprio prestígio e até dinheiro vivo na longevidade do projeto de poder miliciano terá de arcar com as consequências.
Segundo os organizadores do Bloquinho do Iate, Netinho apostou no cavalo errado. Em fim de carreira, ansioso para cometer falsetes e ser recompensado pelo esforço, ele ostenta a máscara de uma vítima, um injustiçado. Mas perde tempo. O axé chororô de Netinho já não comove, não convence.


