Bets ampliam vulnerabilidade financeira de famílias de baixa renda

(Arte/ Ahead)
 As apostas on-line retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025, segundo o 3º Update do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros. O estudo foi elaborado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (Cicef).
O valor representa recursos que deixaram de circular no orçamento doméstico e poderiam ter sido destinados ao consumo, ao pagamento de dívidas ou a despesas essenciais. O levantamento utiliza dados do Banco Central, das Estatísticas de Pagamentos por Atividade Econômica (Epae) e análises próprias.
O estudo considera como saída líquida a diferença entre o dinheiro depositado pelos apostadores e o valor devolvido pelas plataformas em prêmios. Entre outubro de 2024 e março de 2026, essa perda foi estimada em R$ 4,7 bilhões por mês, em média.
Em 2025, os R$ 62,5 bilhões retirados das famílias corresponderam a cerca de 0,68% da renda disponível no país. Segundo o boletim, esse dinheiro poderia ter sido usado na compra de bens e serviços ou no pagamento de compromissos financeiros.
O impacto tende a ser maior entre famílias com menor margem financeira. Quando grande parte da renda já está comprometida com alimentação, moradia, transporte e outras despesas básicas, perdas sucessivas em apostas reduzem ainda mais o dinheiro disponível.
O governo federal adotou uma medida específica para impedir que recursos de programas sociais fossem utilizados em apostas. O Ministério da Fazenda bloqueou 2,8 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) que mantinham cadastro em bets.
O número corresponde a 10,4% dos 27 milhões de beneficiários dos dois programas e a 11,2% dos 25 milhões de brasileiros que apostaram pelo menos uma vez em 2025.
Todos os beneficiários do Bolsa Família e do BPC passaram a ser impedidos de se cadastrar nas plataformas autorizadas. As empresas também precisam realizar verificações periódicas para identificar usuários que passaram a receber os benefícios.
Após a adoção da restrição, o volume mensal de transferências para as bets caiu de aproximadamente R$ 38,5 bilhões para R$ 29,5 bilhões em maio de 2026. A redução foi de cerca de R$ 9 bilhões, ou 23,4%.
O relatório aponta que a desaceleração das transações coincide com a restrição e indica a participação relevante das famílias de menor renda no mercado de apostas. O estudo, porém, não permite atribuir toda a redução exclusivamente ao bloqueio dos beneficiários.
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