Carta, atrevida, ao presidente Lula: de virada é mais gostoso

Democracia em risco, ascensão da extrema-direita e o desafio do campo progressista em resgatar a esperança e liderar a verdadeira mudança

* Pedro Benedito Maciel Neto
Há comparações históricas que precisam ser feitas com cuidado. Não porque sejam proibidas, mas justamente porque podem nos ensinar alguma coisa.
Comparar a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha do entreguerras com a onda de vitórias da direita radical que atravessa o mundo desde a segunda década deste século não significa dizer que vivemos uma repetição de 1933. Não vivemos; contudo, há uma semelhança que deveria nos preocupar: o desencanto de parcelas expressivas da sociedade com a democracia liberal e com sua incapacidade de entregar aquilo que promete é inegável.
É aí que começa a história.
A República de Weimar nasceu sobre os escombros da Primeira Guerra Mundial. A Alemanha estava humilhada pelo Tratado de Versalhes, economicamente devastada, politicamente dividida e socialmente traumatizada. A hiperinflação de 1923 destruiu economias familiares. Depois, quando a situação começava a melhorar, veio a Grande Depressão de 1929. O desemprego explodiu, o Estado pareceu impotente e o Parlamento tornou-se sinônimo de conflito, negociação interminável e incapacidade de decidir.
Hitler percebeu antes de muitos outros uma coisa elementar da política: quando as pessoas deixam de acreditar que o sistema pode melhorar suas vidas, passam a acreditar em quem promete destruí-lo. Essa é a narrativa, a arma da extrema-direita desde as marchas de 2013, passando pela Lava Jato, pela prisão de Lula, pelo golpe contra Dilma e pela vitória de Bolsonaro em 2018: a destruição das instituições, pois elas seriam as responsáveis por todo o seu desencanto.
Os nazistas não ofereceram apenas ódio. Ofereceram uma narrativa, assim como os bolsonaristas e o MBL.
Disseram ao alemão desempregado que lhe devolveriam o trabalho. Ao pequeno comerciante arruinado, que recuperariam sua dignidade. À classe média empobrecida, que restaurariam sua segurança. Aos que se sentiam humilhados, que devolveriam à Alemanha o orgulho perdido. Por aqui apelaram para uma narrativa anticomunista, uma hipócrita pauta de costumes e uma falsa luta contra a corrupção. Como pretendem combater a corrupção destruindo as instituições democráticas?
E ofereceram culpados: judeus, comunistas, políticos, intelectuais, estrangeiros. A política deixou de ser a construção de um futuro e passou a ser a identificação de inimigos.
É aqui que a história começa a conversar com o nosso tempo.
Desde a segunda década deste século, assistimos a uma onda de crescimento das direitas radicais, dos nacionalismos, dos populismos autoritários e dos movimentos que apresentam a democracia liberal como responsável por quase todos os males contemporâneos.
Nos Estados Unidos, na Europa, na América Latina e em outras regiões, partidos e líderes de direita descobriram que existe uma enorme reserva política escondida no ressentimento.
Ressentimento ficcional contra a globalização, contra a imigração, contra as elites – que os manipula -, contra os políticos profissionais – mas elegeram um -, contra as universidades, contra a imprensa, contra o Supremo, contra os partidos tradicionais e, principalmente, contra a sensação de que a vida das pessoas não melhora na mesma velocidade em que o mundo lhes promete que deveria melhorar.
Não devemos cometer o erro de imaginar que essas pessoas são todas fascistas, ignorantes ou manipuladas. Seria uma explicação confortável e, portanto, inútil. Muitas estão simplesmente cansadas.
Cansadas de trabalhar muito e continuar inseguras. Cansadas de pagar impostos e receber serviços ruins, ou aquém do prometido. Cansadas de ouvir que a economia está melhor enquanto sua própria vida continua igual. Cansadas de ver os filhos estudarem e não encontrarem emprego compatível com aquilo que aprenderam. Cansadas de uma política que promete transformação a cada eleição e entrega, muitas vezes, apenas pequenas correções administrativas.
E aqui está o problema da democracia liberal contemporânea. Ela prometeu muito: liberdade, igualdade de oportunidades, prosperidade, segurança, mobilidade social, Estado de bem-estar e participação política, mas entregou apenas parte disso.
E, quando entrega pouco durante muito tempo, alguém aparece dizendo que pode entregar tudo. Foi assim que Hitler cresceu e é assim que a extrema-direita contemporânea cresce, inclusive no Brasil, e não adianta despejarmos uma tonelada de planilhas de Excel, dados e estatísticas.
É evidente que há uma diferença monumental entre a Alemanha de 1932 e as democracias atuais. Hitler era um líder explicitamente antissemita, antidemocrático e totalitário. Os nazistas destruíram a democracia alemã depois de chegar ao poder. E é importante lembrar que Hitler não foi diretamente eleito chanceler: em janeiro de 1933, foi nomeado por Hindenburg, depois de uma articulação política de setores conservadores que acreditavam, equivocadamente, que poderiam controlá-lo.
Mas justamente essa circunstância deveria nos fazer pensar: as democracias não são destruídas somente por aqueles que querem destruí-las. Às vezes, elas são entregues a eles por aqueles que acreditam que poderão utilizá-los para seus próprios interesses – no caso do Brasil, pelo povo e pelo voto.
Um pouco de história.
No Brasil, temos uma experiência particularmente interessante. Desde a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder, muita coisa efetivamente mudou para melhor para milhões de brasileiros pobres, trabalhadores, parcelas do lumpemproletariado e setores da classe média.
Houve aumento real da renda de muitos trabalhadores, expansão do emprego, políticas de transferência de renda, valorização do salário mínimo, ampliação do acesso ao ensino superior, programas habitacionais, inclusão social e redução de desigualdades; é intelectualmente desonesto negar isso.
Mas também seria politicamente ingênuo acreditar que a simples repetição dessas políticas será suficiente para ganhar novamente os corações e as imaginações de milhões de brasileiros. Não basta melhorar um pouco a vida; é preciso oferecer um projeto de futuro.
E a direita descobriu uma palavra que durante muito tempo pertenceu à esquerda: mudança.
Essa talvez seja uma das maiores ironias da política contemporânea: a burguesia que, segundo Cazuza, fede e quer ficar rica, apropriou-se da palavra mudança. Chega a ser risível ouvir que é a extrema-direita que vai mudar para melhor a vida das pessoas.
Muda o discurso, mudam os inimigos, mudam os costumes, muda a relação com as instituições, muda a política externa, muda a linguagem. Promete uma ruptura radical.
E nós, democratas – de centro, de direita democrática, de esquerda, progressistas e conservadores responsáveis -, muitas vezes ficamos na defensiva, tentando explicar por que as coisas não podem mudar.
Esse é um erro. Quem tem medo da palavra mudança perde a disputa pelo futuro.
A questão, portanto, não é escolher entre democracia e mudança. A questão é saber que mudança queremos.
A extrema-direita oferece uma mudança regressiva: promete voltar a um passado que nunca existiu exatamente como ela o descreve.
Nós, do centro democrático, da direita democrática e da esquerda democrática, precisamos oferecer uma mudança progressista e verbalizá-la. Uma mudança que interesse ao trabalhador, ao microempreendedor, ao pequeno empresário, à classe média, ao jovem que procura seu primeiro emprego ou deseja empreender, à mulher que sustenta a família, ao aposentado, ao professor, ao profissional liberal; uma mudança que diga ao trabalhador: você não precisa escolher entre emprego e dignidade.
A mudança do nosso campo precisa dizer ao pequeno empreendedor: o Estado não pode ser seu inimigo.
Que diga à classe média: você não precisa ser sacrificada para que os mais pobres sejam protegidos.
Que diga ao empresário: desenvolvimento econômico e justiça social não são conceitos incompatíveis.
E que diga a todos: democracia não é apenas votar a cada quatro anos; é construção diária, é esperança.
Porque talvez seja essa a grande lição de Weimar: quando a democracia deixa de produzir esperança, alguém aparece oferecendo certeza e, como digo sempre, as certezas são perigosas.
Hitler ofereceu a certeza de que havia culpados.
A extrema-direita contemporânea frequentemente faz o mesmo. Aponta um inimigo, simplifica um problema complexo, transforma o adversário político em inimigo moral e promete que, depois da eliminação desse inimigo, tudo será resolvido.
É uma fórmula antiga, mas continua funcionando.
No Brasil, o fenômeno Bolsonaro mostrou isso de maneira extraordinária. E a força eleitoral de seu campo político demonstra que não basta denunciar seus erros, suas contradições ou seus problemas judiciais. É preciso compreender por que milhões de pessoas continuam acreditando que ele ou seus herdeiros políticos representam uma possibilidade de mudança.
O caso envolvendo Flávio Bolsonaro e o financiamento do filme Dark Horse, por exemplo, está sob investigação no STF, a partir de apuração da Polícia Federal com aval da Procuradoria-Geral da República, envolvendo suspeitas que incluem corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Flávio nega irregularidades e defende transparência sobre o caso.
Mas mesmo fatos dessa natureza, por si sós, não explicam a força eleitoral da direita.
Porque política não é apenas racionalidade; é identidade, pertencimento, esperança, ressentimento, medo, desejo de mudança e, sobretudo, é a percepção de que alguém compreende aquilo que estamos vivendo.
É por isso que a resposta democrática não pode ser apenas defender a democracia; precisamos fazê-la funcionar melhor, fazê-la entregar mais.
Mais crescimento, mais produtividade, melhores serviços públicos, mais segurança, mais educação, mais oportunidades, mais renda, mais crédito, menos burocracia, menos privilégios e mais perspectivas.
Precisamos falar com o trabalhador e com o empresário, com o pobre e com a classe média, com quem está na universidade e com quem está na oficina, com quem tem carteira assinada e com quem abriu um MEI porque não encontrou outra alternativa. Precisamos parar de tratar mudança como palavra da direita.
A mudança é nossa.
Talvez esta seja a grande disputa política do nosso tempo.
De um lado está a extrema-direita, aqueles que querem transformar a frustração em ódio.
Do outro estamos nós, que buscamos transformar a frustração em esperança e a esperança em realidade para a vida.
A história não se repete, mas, às vezes, ela sussurra.
E, quando uma sociedade inteira começa a dizer que nada funciona, que ninguém presta, que tudo está errado e que é preciso destruir para reconstruir, talvez seja hora de os democratas pararem de perguntar apenas quem está errado e começarem a trabalhar de verdade e vender, pois de virada é mais gostoso.
* Pedro Benedito Maciel Neto é advogado, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, Ed. Komedi, 2007 (brasil247)
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