Colega, autoridade e amigo

* Raymundo Mello

Quando registro essas minhas memórias, faço questão de situar o período das ocor-rências, objetivando que cada leitor entenda o pensamento vigente à época citada. Os fatos que cito hoje são dos anos 40 a 80 do século passado. Pensava-se um tanto diferente de hoje, sob vários aspectos. Lendo as citações, cada um entenderá melhor o que digo sobre as diferenças de pensamento no ontem e no hoje.
É sabido que o homossexualismo não é coisa de hoje, pelo contrário, é antiga como a história. Raul Seixas já cantava "Eu nasci há 10.000 anos atrás" e botava os ‘pingos nos is’ em cada fase. Explicado? Pois bem – início dos anos 40 e até bem pouco tempo, o indivíduo homossexual era rotulado como ‘veado’ (na linguagem popular da época, ‘viado’ – com "i" mesmo), e, como esse ingênuo animal, nas rodas do "jogo-do-bicho" é marcado pelo número 24, ligou-se uma coisa à outra: 24/veado. Nas bancas de bicho, continua assim; na modernidade atual, 24 ou veado não tem nada a ver com homossexual. São colocações passadas, superadas até.
Entre 1945 e 1948, estudante do ‘Curso Ginasial’ do ‘Colégio Atheneu Sergipense’, entre os meus amigos mais aplicados e inteligentes estava o propriaense Hugo Costa, que, em caderneta de classe, pelo menos na primeira série, turma "B", era identificado, como todos os demais, pelo número da folha – o número dele era "24"; o meu, "17" (macaco) e, até o número "25", cada um carregava "seu bicho" sobre os ombros. A partir do número "26", os felizardos eram isentos desse fardo. Na roda do "jogo-do-bicho" são relacionados apenas os números de 01 a 25 (de avestruz ou águia, não lembro bem, a vaca).
Com este número "24" na caderneta, Hugo cursou o 1.º ano ginasial, o que não foi fácil para o machão que ele era. E o pior era quando o professor ou a professora resolvia fazer a chamada pelo número e o aluno ou aluna, ao invés de dizer "Presente", respondia com seu nome. (Exemplo: 17 – Raymundo … 24 – Hugo … etc.). Já dá para entender como era difícil carregar o número "24", não somente nas várias turmas da primeira série até a quarta. E quem ainda continuava cursando o ‘Clássico’ ou ‘Científico’, enfrentava o mesmo problema – cada turma tinha o seu ou a sua "24".
Pois bem! Determinada tarde de 1945, o Professor Padre Gileno – ainda Sacerdote Católico, batina preta e tudo – chega na sala no horário das 13 horas para ministrar a aula de Latim e faz a costumeira chamada – 1, 2, 3, … , até 40 ou 45 (não lembro bem), e cada um respondia com seu nome. Quando não estava presente um ou outro, para o colega não ‘levar falta’ dizia-se uma desculpa do tipo "Está chegando, professor!" ou "Ele avisou que chegaria um pouco atrasado, chega já!". O professor acolhia a desculpa se quisesse. Final da aula, se o aluno não o procurasse para registrar a presença, ‘falta nele’.
Nessa tarde que registro, nosso colega Hugo chegou atrasado, entrou na sala de aula com tanta pressa que escorregou, quase cai, procurou sua carteira e sentou; e aí, o nosso colega Odilon Mendonça (também excelente colega e amigo de todos) diz para o professor: "Pronto, professor, chegou o 24!". Risos de toda a classe, inclusive do professor. Somente Hugo não ouviu a justificativa de Odilon que causou tanto riso, pensou que ele havia feito referência ao seu escorrego na entrada da sala de aula, um pouco molhada por água de chuva.
Terminada a aula, Hugo dirige-se a Odilon e pergunta-lhe: "O que foi que você disse quando eu entrei naquela pressa toda e escorreguei porque o piso estava molhado?". E Odilon, crente que tinha colaborado para o colega não levar a falta (que realmente não levou), respondeu-lhe com a maior franqueza e simplicidade possível: "Eu disse: Pronto, professor, chegou o 24!". Hugo tremeu nas bases, entendeu que havia sido chamado de ‘veado’ (24) e não conversou – desferiu-lhe um soco no olho esquerdo com tanta raiva que Odilon caiu e deu trabalho pra se recuperar. Os demais colegas correram pra socorrer Odilon e outros deram cobertura pra Hugo escapar, porque, se fica e a direção toma conhecimento, era expulsão imediata.
Odilon, rapaz educado, lamentou o entendimento errôneo de Hugo, botou gelo enrolado no lenço em cima do olho e deu o assunto por encerrado. Nunca mais se olharam ou se cumprimentaram, estado que se prolongou por muitos anos. Alguns anos depois, Hugo comentou o incidente comigo e disse-me que gostaria de pedir desculpas a Odilon e cancelar o que ele considerou ‘mal-entendido’, coisa de criança, receio que o "24" lhe causasse, na época, mal-estar junto aos colegas e amigos. Conversei com Odilon e ele me disse: "Tudo bem, diga-lhe que não guardo ressentimento, tanto tempo depois; esqueçamos a ocorrência; mas ficamos no mesmo, ele lá e eu cá". O assunto foi, então, encerrado e, já falecidos, onde estiverem, um dia se entenderão, se já não se entenderam.
Fui amigo dos dois e pouco nos encontrávamos, cada um em suas atividades. Odilon, não sei, o via sempre em um carro da Deso, até que o Dr. Jorge Mesquita, que foi também nosso colega e amigo, deu-me a notícia do seu falecimento.
Hugo, não. ‘Volta e meia’ nos encontrávamos. Ele, violonista, compositor e homem de rádio e televisão, era costumeiro visitante do escritório de Carnera, ali na rua Laranjeiras, onde, quase diariamente, encontrava-se com meu irmão, João Mello, e os temas principais dos papos entre os dois eram música, composições e trabalhos artísticos.
João convidou-o para o programa "Videoteca Aperipê Memória". Ele compareceu, fizeram a entrevista, e, ao final, João ficou na dúvida: "O entrevistado foi ele ou eu? Ele sabia coisas a meu respeito que eu nem lembrava e jogou tudo ‘NO AR’ e, pra completar, pegou o violão e cantou uma canção de minha autoria pra encerrar a entrevista".
O acervo do "Videoteca Aperipê Memória" está na área cultural da Universidade Tiradentes, levado pelo Professor Jouberto Uchôa de Mendonça (Reitor) com o assessoramento, à época, do homem de cultura Luiz Antônio Barreto.
Hugo, jornalista por escolha pessoal – função que exerceu enquanto restou-lhe um ‘sopro de vida’ -, com uma visão pessoal do que escrevia, foi Advogado, autoridade no Tribunal de Contas do Estado, em cujo cargo aposentou-se. Homem de confiança do Governo, especialmente Lourival Baptista, por 7 meses, enquanto durou o Governo do Presidente Jânio Quadros, foi chefe da representação do Gabinete Civil da Presidência da República em Sergipe e exerceu o cargo com todos os protocolos devidos.
No correr do exercício desse cargo, fez visita formal à Delegacia do IPASE, onde eu trabalhava. Na saída do Gabinete do Delegado, com todas as honras do cargo, viu-me, no exercício de minhas funções, deixou a comitiva de lado e foi abraçar-me como amigo. Nunca esqueci.

* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br

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