Sexta, 21 De Janeiro De 2022
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Não olhe para cima


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Publicado em 27 de dezembro de 2021
Por Jornal Do Dia Se


O apelo óbvio de uma hashtag.

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O sujeito com o focinho enfiado no ecrã de um telefone celular, única fissura por onde o seu espírito recebe alguma luz, não vai achar um pingo de graça na comédia ‘Não olhe para cima’ (Netflix). Nem o anúncio de um cometa em rota de colisão com o planeta Terra é capaz de recuperar a atenção capturada pelos algoritimos de Zuckerberg.
O fim do mundo bate à porta, há tempos. Quando o Twitter moldou a maneira como as pessoas se comunicam, por meio de sentenças breves, com até 140 caracteres, Saramago advertiu: “De degrau em degrau, descemos ao grunhido”. Mas ninguém deu ouvidos ao velho comunista.
O passo apressado da inovação tecnológica, ao contrário, logo daria razão ao escritor português. Twitter, Facebook, Instagram, TikTok… E por aí vai! As novas ferramentas de comunicação empurram a humanidade para o mutismo. O negacionismo em voga, amparado pela asfixia do pensamento elaborado, prospera num descampado semeado com lacres, selfies, memes e coreografias simplórias – o produto à mostra no balcão da internet, mais barato do que banana.
No filme de Adam McKay (‘A grande aposta’, ‘Vice’), dois cientistas fazem de tudo para alertar a presidência dos Estados Unidos sobre um evento com o potencial de dizimar a população mundial, num estalar de dedos. No mundo real, reproduzido com fidelidade canina pelo diretor, o populismo à direita se vale dos sonhos frustrados pelo “progresso” capitalista para impor a agenda da terra arrasada.
Olhar para cima, para um lado, para outro. Desertar do conforto enterrado no fundo do próprio umbigo. Considerar as melhores evidências, os fatos, a trajetória das estrelas. Isso tudo está implicado na negação do título. ‘Não olhe para cima’ tem o mesmo apelo óbvio de uma hashtag, evoca os gritos de guerra pronunciado pelos malucos do QAnon, o rolê espacial de Jeff Bezos, o gado tangido pelas ideias rasas de Bolsonaro. E, assim, mais deprimente que a ficção, realmente não tem graça nenhuma.

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