Com o coração na ponta dos dedos

Quando o jornalista Cleomar Brandi lançou o volume de crônicas "Os segredos da loba", a inteligência da aldeia ficou toda ouriçada. Não era pra menos. Além de muito querido, Cleomar era conhecido pela intimidade que gozava junto às palavras. Depois do fuzuê realizado pelo noticiário nos últimos dias daquele setembro, há quase seis anos, contudo, um silêncio sepulcral se abateu sobre as páginas de Cultura dos periódicos. Quem aproveitou a leitura foi egoísta e não se deu ao trabalho de comentar.
Eu nem lembro a natureza do compromisso que me impediu de comparecer ao lançamento para reiterar minha admiração pelo mestre. Dói a certeza, no entanto, de ter perdido uma farra daquelas, como só o melhor copo da cidade sabia oferecer.
Felizmente, os mais antigos estão sempre certos. Nada melhor do que um dia depois do outro, com uma noite no meio pra consolar angústias. Alguns sábados depois, quando sentei no Bar do Camilo com o pessoal do Jornal do Dia, já contava com as lorotas margeadas pela beira do mangue. O que eu não esperava era ser presenteado com um exemplar autografado do livro que tive a cara de pau de não comprar.
Cleomar Brandi escrevia com o coração na ponta dos dedos. Nas 165 páginas de seu primeiro livro publicado (falam em mais de 700 crônicas no escuro da gaveta, aguardando a felicidade silenciosa das bibliotecas), um testemunho a respeito de suas maiores paixões – A palavra, a mulher, o jornalismo, a boemia (desconfio da ordem). Se todas as minhas ressacas fossem curadas com literatura de tamanha grandeza, tenho certeza, a cirrose não tardaria.
"Os segredos da loba" conta com dois belos textos de apresentação, redigidos pelos jornalistas Marcos Cardoso e Gilson Souza, que certamente tiveram o privilégio de  provar as crônicas e lamber os beiços antes de todo mundo. A eles, além de uma inveja saudável, não tenho nada a acrescentar. Se uma ousadia fosse permitida, entretanto, resgataria o depoimento colhido sob o propósito do lançamento. Indagado por este que vos fala a respeito de suas motivações, o verbo e a fêmea, Cleomar não titubeou. "A palavra é inquieta, cheia de esquinas, dança capoeira. A figura feminina tanto dança um frevo como um bolero, cheia de interrogações, tem fome de minotauro. E a gente gosta de tentar decifrar isso, apenas como um amador insistente".
Assim era Cleomar, que completaria 70 anos no último dia 18, traduzido com muita fidelidade pela própria poesia. Fica aqui o agradecimento pela leitura. Ao mestre, com carinho.

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