Como é bom ser sergipano!

 

* Rian Santos
Quando Márcio de Dona 
Litinha me recebeu, 
ano passado, não tinha ideia de quando voltaria a subir em um palco. A naurÊa passava por uma espécie de recesso. Além disso, a covid já tinha deixado claro que não era só uma "gripezinha". Mas nada como um dia depois do outro. Renovada, a banda vem se reunindo a fim de fazer bonito na transmissão do Forró Caju em Casa. Sábado, 26, a partir das 22 horas, a zabumba repercute em alto e bom som nos canais da Prefeitura de Aracaju.
Talvez a naurÊa tenha apenas um grande passado pela frente, como eu mesmo já afirmei com alguma dose de ironia. Márcio, no entanto, insiste em olhar pra frente, o que já se viu desta nova formação é prova, sem medo de ser feliz.
Um grande passado pela frente – Márcio André está em paz. Somente um homem com as mãos e a consciência limpas seria capaz de contar a própria história de maneira tão franca, como ele fez em conversa comigo. Sem vacilar um só momento. Sem apontar o dedo para ninguém.
Fala-se aqui, convém esclarecer de bate pronto, do cantor, compositor e zabumbeiro Márcio de Dona Litinha – um verdadeiro iconoclasta, sem tirar nem por.
À frente da naurÊa, Márcio ensinou muito menino amarelo a dançar forró. Depois de espalhar alegria por meio mundo, contudo, resolveu pisar no freio. Ao invés de cair na estrada sem olhar pra trás, como os companheiros de banda certamente esperavam dele, o malino saltou de lado, traçou outra rota, deu com os pés em limites acanhados, de regresso ao aconchego da terrinha.
Márcio não cultiva arrependimentos. Construiu uma casa confortável, amou sem reservas, criou dois filhos. A naurÊa será sempre parte importante de sua vida, não resta dúvida. Mas o gosto por festa e umbigada não o impediu de aquietar o facho.
Soa até um tanto piegas. Sem o compromisso de perseguir a miragem do sucesso, ele finalmente abraça a felicidade doméstica, de bem com a vida, curte sombra e água fresca, ocupado consigo mesmo e com os seus.
Trankilo, no lento – Eu sou eu e as minhas circunstâncias, Ortega y Gasset diria. Sem paciência para arrodeios, Márcio se atém aos fatos, não se deixa trair por emoção.
"Com a adoção do modelo Enem de Educação, a partir de 2012, a música ficou mesmo em segundo plano. A sala de aula passou a exigir muito de mim".
Professor de redação, ele não estava disposto a abandonar o magistério, sem mais nem menos. A segurança proporcionada por uma carreira sólida falou mais alto do que a boca arreganhada do furdunço.
Cada cabeça, uma sentença. Alguns tiveram gana de apostar todas as fichas num futuro incerto – a exemplo do que fez o DJ Patrick Tor4, o homem do surdo na primeira formação da banda, com o melhor resultado possível. Outros seguem dando murro em ponta de faca, a fim de crescer e aparecer na cena nacional. A mudança de horizontes não estava nos planos do cabeludo. No fim das contas, contra todas as aparências, Márcio é um sujeito sem pendor para romantismo.
"Eu jamais sairia daqui para tentar a sorte em São Paulo, obrigado a tocar Roberto Carlos nos bares, sob a condição de batalhar cachê. Não fui, não vou. Mas todo mundo é livre para escolher o seu caminho".
Nessa de cada um tomar um rumo diferente, no encalço do próprio destino, Márcio restou o último dos moicanos, o único membro remanescente da formação original da naurÊa. Em seu lugar, outro pensaria em pendurar as chuteiras. Ele, ao contrário, não vê problema em tocar a bola adiante.
Dono do próprio nariz, sem nódoa de ressentimento no coração, Márcio se recusa a fazer concessões para a nostalgia. Tudo passa, pessoas cansam umas das outras, normal. Os melhores momentos com a música talvez já tenham sido vividos. Duro na queda, o cabra não desvia o olhar ao mirar o futuro, ainda que tenha de encarar um grande passado pela frente.
Complexo de épico – O nariz em pé da elite intelectual tupiniquim não impressiona macaco velho. Tom Zé, por exemplo, já acusou o complexo de épico do compositor brasileiro. Esperto todo, Márcio de Dona Litinha evoca o baiano de Irará, curto e grosso, com a honestidade de sempre.
"A inteligência brasileira é muito chata!".
Esse traço iconoclasta marca toda a discografia da naurÊa. Em primeiro lugar, ele não vê graça no tal do rock, definido pelo zabumbeiro como um gênero musical cafona. Por outro lado, também se recusa a dobrar os joelhos sob o peso secular do folclore ou de qualquer tradição. Nem uma coisa, nem outra. Embora beba na fonte da cultura popular, a naurÊa foi criada com o propósito de colocar tudo de cabeça pra baixo.
"Rock e MPB foram revolucionários em 1970. O que se faz hoje é cosplay".
Tudo no trabalho da naurÊa foi pensado nos mínimos detalhes, das camisas coloridas exibidas nos palcos até a formação pouco usual. Um trio de forró, mais um trio de samba, unidos por uma guitarra crioula. O intuito era se distanciar o mais possível da produção local. 
Dito e feito. Marcio de Dona Litinha foi o primeiro a bater tambor com força, cá pelas cercanias da Atalaia. A essa altura do campeonato, a fórmula pode até soar meio surrada. À época, foi acolhida com o entusiasmo gerado pelas grandes invenções. 
‘Circular Cidade’ (2003), o primeiro disco da naurÊa, conquistou um público apaixonado, abriu a cancela para a molecada meter dança, solta na buraqueira, como se não houvesse amanhã. Apesar da sonoridade datada, o registro sobreviveu às próprias limitações técnicas, reverbera ainda hoje, exercendo influência notável na nova geração da música Serigy.
Samba do Arnesto, Mestre Madruguinha, toda a música pélvica/rebolativa realizada na aldeia é credora do seu impulso festivo, deve algo ao espírito tribal e o vocabulário desaforado da naurÊa. As bandas supracitadas podem até beber em fontes de inspiração diversas, com inflexão e méritos próprios. Mas foi o humor escrachado da naurÊa que lhes permitiu sorrir com todos os dentes, sem receio de ser feliz.
Do auge à queda, a naurÊa nunca deixou de buscar novas balizas estéticas, explorar novas sonoridades, sair em busca de outras fronteiras musicais. O calor nos metais de Matinê (2017), single que celebrou 16 anos de atividade, por exemplo, atualizava o principal valor pronunciado pela trajetória da banda. Para além de qualquer questão formal, lirismo e fuleiragem ultrapassados, resta ali uma impressão física de cores quentes, contagiante, feito confete de papel picado.
‘naurÊa apresenta o Sambaião’ (2006), ápice criativo do conjunto, já soava, então, como eco de outros carnavais. Mas a reunião da turma ainda rendia um caldo muito bom. Ninguém esperava, portanto, pela deserção de Alex Sant’Anna, que entregou os pontos e pediu as contas, pouco tempo depois.
Márcio reconhece a contribuição fundamental de cada músico que passou pela banda. Abraão Gonzaga (guitarras) era o craque do time. Aragão e Patrick (cavaquinho e surdo, respectivamente), os pesquisadores. Com Alex, Márcio assinou algumas parcerias. Nenhum deles, entretanto, individualmente, é maior do que a naurÊa.
Tudo passa. A banda fundada há quase 20 anos já não se apresenta diante de 70 mil pessoas, como fez no Festival de Inverno de Garanhuns. Já não se confunde com uma ideia vaga de sergipanidade. Acabou-se o que era doce. A naurÊa também não é mais percebida, aqui e alhures, como um produto cultural de tipo exportação.
Segundo Márcio, depois dos maiores shows, após participar da promoção do Brasil nas Olimpíadas de Londres, depois de se apresentar em evento realizado pela CBF, na Copa da Alemanha, ficou a sensação de bater em um teto, como um balão inflado. Faltou trânsito no mainstream.
De todo modo, o ânimo de subverter a lógica geopolítica da globalização, esculhambar a relação de produção e consumo de bens culturais, continua firme e forte. 
No disco a ser lançado até o fim do ano, a naurÊa pretende avivar uma espécie de intersecção sensível entre Cuba, Colômbia, Bahia e Sergipe, armada anunciada com o single ‘Trankilo’. A conferir. Por tudo o que fez e conquistou, entretanto, fica a pergunta de nota melancólica:
"Se a naurÊa tivesse surgido na Bahia, em Pernambuco, num lugar com uma indústria cultural bem assentada, em que patamar estaria hoje?".

* Rian Santos

Quando Márcio de Dona  Litinha me recebeu,  ano passado, não tinha ideia de quando voltaria a subir em um palco. A naurÊa passava por uma espécie de recesso. Além disso, a covid já tinha deixado claro que não era só uma "gripezinha". Mas nada como um dia depois do outro. Renovada, a banda vem se reunindo a fim de fazer bonito na transmissão do Forró Caju em Casa. Sábado, 26, a partir das 22 horas, a zabumba repercute em alto e bom som nos canais da Prefeitura de Aracaju.
Talvez a naurÊa tenha apenas um grande passado pela frente, como eu mesmo já afirmei com alguma dose de ironia. Márcio, no entanto, insiste em olhar pra frente, o que já se viu desta nova formação é prova, sem medo de ser feliz.

Um grande passado pela frente – Márcio André está em paz. Somente um homem com as mãos e a consciência limpas seria capaz de contar a própria história de maneira tão franca, como ele fez em conversa comigo. Sem vacilar um só momento. Sem apontar o dedo para ninguém.
Fala-se aqui, convém esclarecer de bate pronto, do cantor, compositor e zabumbeiro Márcio de Dona Litinha – um verdadeiro iconoclasta, sem tirar nem por.
À frente da naurÊa, Márcio ensinou muito menino amarelo a dançar forró. Depois de espalhar alegria por meio mundo, contudo, resolveu pisar no freio. Ao invés de cair na estrada sem olhar pra trás, como os companheiros de banda certamente esperavam dele, o malino saltou de lado, traçou outra rota, deu com os pés em limites acanhados, de regresso ao aconchego da terrinha.
Márcio não cultiva arrependimentos. Construiu uma casa confortável, amou sem reservas, criou dois filhos. A naurÊa será sempre parte importante de sua vida, não resta dúvida. Mas o gosto por festa e umbigada não o impediu de aquietar o facho.
Soa até um tanto piegas. Sem o compromisso de perseguir a miragem do sucesso, ele finalmente abraça a felicidade doméstica, de bem com a vida, curte sombra e água fresca, ocupado consigo mesmo e com os seus.

Trankilo, no lento – Eu sou eu e as minhas circunstâncias, Ortega y Gasset diria. Sem paciência para arrodeios, Márcio se atém aos fatos, não se deixa trair por emoção.
"Com a adoção do modelo Enem de Educação, a partir de 2012, a música ficou mesmo em segundo plano. A sala de aula passou a exigir muito de mim".
Professor de redação, ele não estava disposto a abandonar o magistério, sem mais nem menos. A segurança proporcionada por uma carreira sólida falou mais alto do que a boca arreganhada do furdunço.
Cada cabeça, uma sentença. Alguns tiveram gana de apostar todas as fichas num futuro incerto – a exemplo do que fez o DJ Patrick Tor4, o homem do surdo na primeira formação da banda, com o melhor resultado possível. Outros seguem dando murro em ponta de faca, a fim de crescer e aparecer na cena nacional. A mudança de horizontes não estava nos planos do cabeludo. No fim das contas, contra todas as aparências, Márcio é um sujeito sem pendor para romantismo.
"Eu jamais sairia daqui para tentar a sorte em São Paulo, obrigado a tocar Roberto Carlos nos bares, sob a condição de batalhar cachê. Não fui, não vou. Mas todo mundo é livre para escolher o seu caminho".
Nessa de cada um tomar um rumo diferente, no encalço do próprio destino, Márcio restou o último dos moicanos, o único membro remanescente da formação original da naurÊa. Em seu lugar, outro pensaria em pendurar as chuteiras. Ele, ao contrário, não vê problema em tocar a bola adiante.
Dono do próprio nariz, sem nódoa de ressentimento no coração, Márcio se recusa a fazer concessões para a nostalgia. Tudo passa, pessoas cansam umas das outras, normal. Os melhores momentos com a música talvez já tenham sido vividos. Duro na queda, o cabra não desvia o olhar ao mirar o futuro, ainda que tenha de encarar um grande passado pela frente.

Complexo de épico – O nariz em pé da elite intelectual tupiniquim não impressiona macaco velho. Tom Zé, por exemplo, já acusou o complexo de épico do compositor brasileiro. Esperto todo, Márcio de Dona Litinha evoca o baiano de Irará, curto e grosso, com a honestidade de sempre.
"A inteligência brasileira é muito chata!".
Esse traço iconoclasta marca toda a discografia da naurÊa. Em primeiro lugar, ele não vê graça no tal do rock, definido pelo zabumbeiro como um gênero musical cafona. Por outro lado, também se recusa a dobrar os joelhos sob o peso secular do folclore ou de qualquer tradição. Nem uma coisa, nem outra. Embora beba na fonte da cultura popular, a naurÊa foi criada com o propósito de colocar tudo de cabeça pra baixo.
"Rock e MPB foram revolucionários em 1970. O que se faz hoje é cosplay".
Tudo no trabalho da naurÊa foi pensado nos mínimos detalhes, das camisas coloridas exibidas nos palcos até a formação pouco usual. Um trio de forró, mais um trio de samba, unidos por uma guitarra crioula. O intuito era se distanciar o mais possível da produção local. 
Dito e feito. Marcio de Dona Litinha foi o primeiro a bater tambor com força, cá pelas cercanias da Atalaia. A essa altura do campeonato, a fórmula pode até soar meio surrada. À época, foi acolhida com o entusiasmo gerado pelas grandes invenções. 
‘Circular Cidade’ (2003), o primeiro disco da naurÊa, conquistou um público apaixonado, abriu a cancela para a molecada meter dança, solta na buraqueira, como se não houvesse amanhã. Apesar da sonoridade datada, o registro sobreviveu às próprias limitações técnicas, reverbera ainda hoje, exercendo influência notável na nova geração da música Serigy.
Samba do Arnesto, Mestre Madruguinha, toda a música pélvica/rebolativa realizada na aldeia é credora do seu impulso festivo, deve algo ao espírito tribal e o vocabulário desaforado da naurÊa. As bandas supracitadas podem até beber em fontes de inspiração diversas, com inflexão e méritos próprios. Mas foi o humor escrachado da naurÊa que lhes permitiu sorrir com todos os dentes, sem receio de ser feliz.
Do auge à queda, a naurÊa nunca deixou de buscar novas balizas estéticas, explorar novas sonoridades, sair em busca de outras fronteiras musicais. O calor nos metais de Matinê (2017), single que celebrou 16 anos de atividade, por exemplo, atualizava o principal valor pronunciado pela trajetória da banda. Para além de qualquer questão formal, lirismo e fuleiragem ultrapassados, resta ali uma impressão física de cores quentes, contagiante, feito confete de papel picado.
‘naurÊa apresenta o Sambaião’ (2006), ápice criativo do conjunto, já soava, então, como eco de outros carnavais. Mas a reunião da turma ainda rendia um caldo muito bom. Ninguém esperava, portanto, pela deserção de Alex Sant’Anna, que entregou os pontos e pediu as contas, pouco tempo depois.
Márcio reconhece a contribuição fundamental de cada músico que passou pela banda. Abraão Gonzaga (guitarras) era o craque do time. Aragão e Patrick (cavaquinho e surdo, respectivamente), os pesquisadores. Com Alex, Márcio assinou algumas parcerias. Nenhum deles, entretanto, individualmente, é maior do que a naurÊa.
Tudo passa. A banda fundada há quase 20 anos já não se apresenta diante de 70 mil pessoas, como fez no Festival de Inverno de Garanhuns. Já não se confunde com uma ideia vaga de sergipanidade. Acabou-se o que era doce. A naurÊa também não é mais percebida, aqui e alhures, como um produto cultural de tipo exportação.
Segundo Márcio, depois dos maiores shows, após participar da promoção do Brasil nas Olimpíadas de Londres, depois de se apresentar em evento realizado pela CBF, na Copa da Alemanha, ficou a sensação de bater em um teto, como um balão inflado. Faltou trânsito no mainstream.
De todo modo, o ânimo de subverter a lógica geopolítica da globalização, esculhambar a relação de produção e consumo de bens culturais, continua firme e forte. 
No disco a ser lançado até o fim do ano, a naurÊa pretende avivar uma espécie de intersecção sensível entre Cuba, Colômbia, Bahia e Sergipe, armada anunciada com o single ‘Trankilo’. A conferir. Por tudo o que fez e conquistou, entretanto, fica a pergunta de nota melancólica:
"Se a naurÊa tivesse surgido na Bahia, em Pernambuco, num lugar com uma indústria cultural bem assentada, em que patamar estaria hoje?".

 

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