Como nasce um Cult Movie

* Anderson Bruno

Nunca é bom, para quem trabalha com cinema, assistir filmes dublados. A não ser que não se tenha alternativa. O áudio original, com legendas, expõe toda a ambientação daquela produção. A língua, o som e o sotaque, fazem parte desse todo. Para nós, admiradores da sétima arte, estar em sintonia com o dito acima é estar em harmonia com a cultura e a arte desse lugar através da originalidade do seu som.

Quando fui assistir o filme ‘A Família’ (The Family/Malavita, EUA/FRA, 2013, 111 min) não tive para aonde fugir. Apenas uma sala de cinema está exibindo a produção. Dublada, ainda por cima! Pode ser uma estratégia para atrair, principalmente, as classes C, D e E. Tudo bem. Mas precisa haver também sessões com projeções legendadas. Do mesmo jeito que há preferência pela dublagem, também há o contrário. Registro aqui meu grito de palavras contra essa prática.

O maior mérito de ‘A Família’ é a sua exploração cômico-alegórica. Satirizando elementos das produções sobre a máfia italiana, o diretor francês Luc Besson construiu um roteiro cheio de referências à ‘Cosa Nostra’ e sua cultura politicamente incorreta.

Baseado no livro ‘Malavita’ de Tonino Benacquista e roteirizado por Luc Besson e Michel Caleo, o filme relata a história de uma família de origem italiana: pai, mãe e um casal de filhos. Como o patriarca está com a cabeça a prêmio, eles são obrigados a se mudar, de tempos em tempos, sempre dentro do esquema supervisionado do Sistema de Proteção à Testemunha norteamericana.

Mesmo tendo dito há alguns anos que não iria mais fazer papéis de mafiosos, não tem como Robert De Niro fugir desse arquétipo. Já está enraizado. Tanto que em ‘A Família’ ele, mais uma vez, dá vida a tal personagem. Interpretando o chefe da família, De Niro dá um banho de interpretação que dá gosto de ver. Os vários closes (são uma constante nesse filme) captam todo o profissionalismo dramático do ator nas várias nuances, mostrando o porquê dele ser considerado um dos maiores atores vivos de Hollywood.

Como não poderia deixar de ser, quem assina a produção executiva é seu amigo de longa data: Martin Scorsese. Por sinal, o roteiro do longa se deu ao luxo de fazer uma brincadeira muito original, dentro de um segmento da produção, envolvendo o filme ‘Os Bons Companheiros’ – dirigido pelo próprio Martin Scorsese em 1990 – e estrelado por Robert De Niro. O próprio personagem do ator, no filme, é envolvido diretamente na referência fílmica. Sensacional!

É clara e notória a química entre todos os envolvidos na produção. Uma atenção especial está na dupla de filhos do casal vivido por Robert De Niro e Michelle Pfeifer. Belle (Dianna Agron) e Warren (John D’Leo) são a própria cópia genética dos pais. Ela loirinha como a mãe e ele caucasiano como o pai. A maturidade da interpretação deles impressiona. Mesmo com papéis adolescentes, suas personagens possuem relevância na história. Só mesmo bons atores para serem selecionados para tais papéis ao lado dos veteranos protagonistas. Até uma pinta no rosto o rapaz tem! Igual a Robert De Niro.

A edição ágil – com sobreposição de planos através de cortes secos – empreende uma dinâmica de ação ao filme. A trilha sonora original está sempre evidenciando arranjos típicos dos filmes relacionados à máfia italiana (muito parecida com a trilha composta por Nino Rota para a trilogia ‘O Poderoso Chefão’). Já as canções incluem petardos de Gorillaz, Tony Bennet e Cat Power. Nasce um ‘cult movie’.

* Anderson Bruno é crítico audiovisual.

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