CONVERSAS NO TEMPO

* Paulo F.T.Morais

Sertão de Sergipe – 1914

Juca da Bolandeira encontra-se com Sinhô do Lá-Vem-Um, vizinho de terras. Estão montados, confortavalmente esconsos nos estribos. Ali inclinados passam um tempo puxando fiapos de um enredo único, antes de fiscalizarem  os serviços de campo.

Sol já pinicando, ajeitam-se na sela, repõem no prumo o espinhaço côncavo, tocam a cavalgar sobre o traçado imutável correndo  terras esgotadas pelo sol e pelo pisoteio dos animais nos pastos falhados;  tão batidos que os bichos enganam o estômago arrancando as cepas do capim.

Mais adiante cada um tomará seu rumo. Enquanto não se separam,  remoem diariamente  a conversa entalada no gogó,  arrastada, de amolecer, na qual  enxertam aqui e acolá  informações  requentadas, lorotas, escorregões da vida alheia, um esforço esgotante para  florear o tronco crespo de uma existência ínsipida, de caminhada banzeira, um tempo que parece parado; e nos  mergulhos do silêncio atordoante  pedem a Deus que  os abençoe concedendo-lhes  o favor de um termo sem agonia.
– E então, Sinhô, as novidades?
– As mesmas.
Esbarram em pensamentos rarefeitos por desconhecerem palavras que lhes deem substância. Falta  corda ao diálogo.

Silenciam enquanto revisitam os mulungus desfolhados, alguns  brocados na base do tronco servem de grutas a cobras que nelas encontram refrigério. Sinhô e Juca, a visão já distorcida pelo ar fumegante, transformam o que ainda resta em pé em  monstrengos calcinados . Lascas de ossos de animais pontiagudas  e  afiadas  despertam o instinto dos cavalos, os quais  sondam o terreno antes de pisar, temendo uma estrepada.
– Diga, homem, o que há de novo?
– A arroba.
– Que é que tem?   
 – Amoleceu mais ainda.
– Era esperado. Os pastos.
– Pois é.
– Nem sinal de chuva.
– Nem sinal.
– Ontem sonhei com Cotia.
– O bicho?
– Não. O Tal…
– Huummm…
– O filho de Juca Pindoba.
– Sei…E então?
– Nada. Sonhei.
– Perdeu a noite com um rato.
– É…
São nove horas da manhã, céu e terra já flamejam.  Galopam até as ruínas de um  telheiro abandonado, parte descoberto, no qual se defendem do braseiro do mundo, e farão a primeira das duas refeições do dia. Desmontam. Desarreiam os animais. Alongam o corpo, batem nas roupas, o bafio de suor absorvido pelos coletes de couro circula enjoativo  mas logo desaparece.
Tomam uma talagada de cachaça encorpada com casca de angico, afrouxam os cinturões, e vão comer: jabá, farinha, rodelas de banana com cobertura de pimenta malagueta.
Reanimados, preparam os cavalos, e cada um tomará o rumo de suas terras mais distantes.
– Té manhã, Juca.
– Té, Sinhô.  
 
Sertão de Sergipe – 2014
               
Juquinha da Bolandeira e Sinhozinho do Lá-Vem-Um são vizinhos de fazendas herdadas dos seus ascendentes. Logo no começo da manhã de uma sexta-feira encontram-se, a cavalo; ambos pendem o corpo que se equilibra num só estribo…
Seria maçante repetir um cenário quase igual ao que já vimos em torno dos avôs dos fazendeiros Juquinha e Sinhozinho.  Sol de rachar,  seca, pastagens  desnutridas, dezenas de animais mortos…
Os herdeiros mantêm quase a mesma distância que separava Juca e Sinhô, naqueles  idos remotos antes de partirem para a ronda diária.
No entanto, uma novidade intromete-se  no clã centenário:  usam whatSapp.
– Td  BLZ  Ju?
– Td.
– Qdo o vey quiser vamos lá.
– BLZ.
– Rsrsrs…
– Vc  tbm?
– Kkkkkkkkkkk
. Bom fds.
– Falou.
 
* Paulo F.T.Morais é jornalista e escritor (pftmorais@ig.com.br)

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