Sexta, 21 De Janeiro De 2022
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Shopping não sente


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Publicado em 06 de janeiro de 2022
Por Jornal Do Dia Se


Decifra-me ou te devoro!

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Há um borrão na memória coletiva da cidade, uma ferida em nossa memória afetiva. Uma dúvida, uma dívida, um incômodo. Maria José, a mulher de carne e osso sob as vestes e a maquiagem exagerada que identificavam A Véia do Shopping, desafia a compreensão, ainda depois de morta.
Curioso notar, a imagem extravagante de uma senhora negra, sempre com mais sacolas do que os seus braços davam conta de carregar, perdura, apesar da falta de informações confiáveis sobre a vida vivida além dos corredores de um centro comercial. Inofensiva, desorientada, A Véia do Shopping pouco falava. A sua presença, no entanto, pronunciava uma incógnita, feito a esfinge: Decifra-me ou te devoro!
Há quem tente. O cantor e compositor Deilson Pessoa realizou uma canção inspirada, muito tocada nos bons tempos da Rádio Aperipê, sugerindo razões para o desconforto embutido em uma infinidade de especulações. Gabriela Caldas, por sua vez, procurou o olhar dela própria, A Véia do Shopping, em documentário realizado com o patrocínio da Lei Aldir Blanc. O relato audiovisual é o mais sucinto. Mas alcança o grande êxito de acolher uma solidão intransponível, mais do que repetir velhas perguntas ou oferecer respostas equivocadas.
‘Velha do Shopping’ acerta em quase tudo, sobretudo no fundamental. O tom e a forma, a fotografia, os planos subjetivos, o enquadramento errático, evidenciam a disposição de empatia por trás do projeto. Uma única ressalva precisa ser feita: A dramatização da personagem, a cargo da atriz Rita Maia, dilui a força da memória evocada. Esta não é uma observação sobre a competência da atriz. Fosse quem fosse, ela estaria muito aquém do ruído em contraste com um ambiente completamente moldado pela conveniência e, por fim, estéril.
“Shopping não sente”, canta Róger Kbelera numa esquina alegre do Bugio. Eis a mais pura verdade. Também por isso, a figura deslocada de Maria José feriu tantos, ocultos sob o disfarce covarde do escárnio.

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