Quarta, 17 De Agosto De 2022
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A memória agradece


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Publicado em 28 de julho de 2022
Por Jornal Do Dia Se


Rian Santos
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A idade me alcança, com sua voz mansa. Aponta-me os cabelos brancos, oferece conselhos de ponderação com a autoridade de uma avó carinhosa. O julgamento implacável sobre uns e outros, ela afirma, talvez caísse bem em um jovem assombrado pelo idealismo de romances escritos há séculos, não em um jornalista de meia idade.
O sermão da boa senhora não foi entoado à toa. Jornal à mão, ela me conta da feliz iniciativa do vereador Fabiano Oliveira, autor de um projeto de Lei que batiza uma praça no Inácio Barbosa com o nome do artista plástico José Fernandes. Um gesto simbólico, concordamos. E, como tal, repleto de significado.
Fabiano é também um empresário de sucesso, responsável pela realização do Pré Caju. A festa, uma prévia carnavalesca de proporções superlativas, sequestrou o verão da capital sergipana para usufruto exclusivo de gente bem nascida por anos a fio. Tudo foi feito com a conivência dos entes públicos. Mas isso, a velha me garante, ficou para trás.
Eu não sei. Fabiano e seus sócios foram obrigados a ressarcir os cofres do Ministério do Turismo com uma bolada de R$ 4 milhões, é verdade. A festa foi suspensa por muitos anos, até ser resgatada em um formato mais razoável, transferida para a Orla de Atalaia, em atenção à conveniência de toda a população. Mas a lembrança da cidade sitiada, interditada pela alegria dos donos da grana, o derrame de dinheiro público nos cofres da Associação Sergipana de Blocos e Trios fere a minha memória com a força de uma punhalada.
Estou velho demais para me apegar a rancores passados, no entanto. O vereador Fabiano Oliveira deu uma dentro, reconheceu na assinatura de Zé Fernandes o semblante de um artista muito querido em toda a extensão do Rio Poxim e mais adiante. A homenagem é justa, a placa na esquina de uma praça de fato ajuda a remediar o descaso corrente com a sensibilidade nativa… Tudo somado, a cidade recebe a esmola da Câmara Municipal. “Deus a proteja”, responde em agradecimento.

O Mestre Zé Fernandes – Quando sou convidado à casa de um amigo, logo percorro as paredes com os olhos. Tenho a esperança de encontrar, nas cores e traços eventualmente à vista, a confirmação de nossa afinidade. Um quadro de Fábio Sampaio, por exemplo, comunica imediatamente a disposição para a experiência repleta de plugs da vida contemporânea. E, também por isso, é que nos entendemos – anfitrião e abelhudo declarado.
Em minha peregrinação visual pela intimidade estética dos outros, no entanto, José Fernandes é o único ponto pacífico, quase uma unanimidade. Há na paleta de cores primárias e nas formas simples, composições quase rústicas, assinadas pelo artista plástico, algo de familiar e maravilhoso para todo sergipano mais ou menos educado.
Outro dia, batendo perna pelo bairro São José, olhei pela janela de uma casinha de vila e identifiquei na sala escura, sobre um arranjo de flores de plástico, uma pequena tela assinada pelo dito cujo. Em essência, aquele trabalho era o mesmo de um painel gigantesco, ostentado ali perto, em uma agência do Banese. No hall dos edifícios, residências, espaços públicos e consultórios médicos da aldeia, as madonas primitivas do artista figuram nítidas, onipresentes.
José Fernandes é o último Mestre da pintura sergipana. E também o mais dado. Se J Inácio e Leonardo Alencar permanecerão sempre vivos na sensibilidade coletiva, ninguém nunca se pronunciou em seus próprios termos de maneira tão clara e direta quanto Fernandes, a ponto de ser ele próprio reconhecido em qualquer esquina da cidade, por força da personalidade expansiva e, sobretudo, dos panos riscados.
Feliz do talento consagrado em missa de corpo presente. Mais das vezes, o exercício artístico é puro calvário. Essa alegria, entretanto, a vida não ficou devendo a José Fernandes. Sob qualquer aspecto, um artista realizado.

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