Domingo, 07 De Agosto De 2022
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Cadê os yanomami?


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Publicado em 05 de maio de 2022
Por Jornal Do Dia Se


Escárnio

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Colocar um cocar na cabeça, com a maior cara lisa do mundo, é um gesto fácil. O presidente Jair Bolsonaro, entusiasta do garimpo em território indígena, já se prestou à pantomina. Auxiliares e adversários do presidente, também. Enquanto autoridades de todos os matizes ideológicos pousam para foto, em defesa de interesses inconfessáveis, no entanto, aldeias inteiras somem do mapa, sem deixar vestígio.
A questão volta à baila no rastro de um episódio assustador, o estupro de uma menina yanomami, seguida do misterioso desaparecimento de toda a aldeia. Após a denúncia do crime, a Polícia Federal se meteu no meio do mato, a fim de apurar os fatos, mas só encontrou os restos de um incêndio.
Infelizmente, essa guerra não começou agora, como faz crer o justo reboliço em curso nas redes sociais. E todos os que enchem a boca para falar pelos povos da floresta têm a obrigação intelectual de conferir ‘Martírio’ (2016), de Vincent Carelli. O documentário premiado no Festival de Brasília coloca o dedo na ferida da questão fundiária tupiniquim sem meias palavras, sem malabarismos retóricos, à revelia dos interesses aboletados no Palácio do Planalto, desde sempre.
O filme de Carelli relata o confronto entre ruralistas com o poder de fogo da valente Kátia Abreu – depois nomeada ministra da agricultura pela presidente Dilma Rousseff, sua amiga -, e os índios Guarani Kaoiwá. Uma luta desigual, com todos os requintes de um genocídio. Bala de fuzil contra pedra e pau.
Peleja muito antiga, que ultrapassa várias décadas e desemboca na grande marcha de retomada dos territórios sagrados Guarani Kaiowá. Vincent Carelli, que registrou o nascedouro do movimento na década de 1980, recorre a seu arquivo pessoal para contar a história sem dourar a pílula, com todos os pingos nos is. Os relatos mais recentes dos massacres motivam a jornada do cineasta, que busca as origens do genocídio e testemunha um conflito de forças desproporcionais: a insurgência pacífica e obstinada dos Guarani Kaiowá frente ao poderoso aparato do agronegócio.
História com H maiúsculo, escrita aqui e agora. Gleise Hoffmann, ex-ministra da Casa Civil, responsável direta pelo esvaziamento da Funai, como demonstra Carelli, já discursou no plenário do Congresso Nacional munida de vistoso cocar. Um escárnio. Ricardo Salles, fruto podre de um laranjal disfarçado em partido político, deu-se depois ao mesmo ridículo. É assim desde Cabral. Contra todas as aparências e o sinal ideológico trocado, neste particular, o penacho é prova, os adversários usam o mesmíssimo figurino.

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