Quarta, 17 De Agosto De 2022
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Quadrilhas juninas nos Jogos da Primavera


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Publicado em 08 de julho de 2022
Por Jornal Do Dia Se


Apresentação da Século XX: quadrilhas juninas podem reunir multidões (César de Oliveira)

* Gilson Sousa

Na sociedade moderna existem dois movimentos que são capazes de reunir multidões, além de encantar e transformar o comportamento de espectadores. Um deles diz respeito às competições esportivas, seja lá qual for a modalidade. O outro movimento está ligado aos eventos artísticos e culturais, principalmente os de apelo popular. Ou seja, esporte, arte e cultura são alguns dos elementos imprescindíveis à formação de uma sociedade.
Seguindo essa linha de pensamento, recentemente o maior evento esportivo do planeta, os Jogos Olímpicos, anunciou que na edição a ser realizada na França, em 2024, será incluída uma modalidade que causou surpresa em muita gente: o breaking, estilo de dança mais conhecido como break dance. Essa dança de rua foi criada nos anos 1970, no Bronx, na cidade de Nova York (EUA), mas chegou ao Brasil nos anos 1980, e ganhou muitos adeptos no país. Bem por isso, muita gente aposta que os atletas/dançarinos brasileiros terão boas chances de medalhas na competição olímpica. Tomara que sim.

Regionalizando o assunto, é possível dizer que em Sergipe a mais importante competição esportiva envolvendo jovens de escolas públicas e particulares de todo o território local se chama Jogos da Primavera. O certame, que é nossa Olimpíada caseira, é organizado pelo governo do Estado e envolve atletas de diversas modalidades e categorias. Sendo assim, por que não incluir a modalidade Quadrilhas Juninas no rol de disputas dos Jogos da Primavera? Os objetivos, acima de tudo, seriam o fortalecimento de uma tradição e a disseminação da modalidade na juventude.
Atualmente, as quadrilhas juninas de Sergipe enfrentam dificuldades para encontrar componentes dispostos a praticar a atividade. Principalmente no que diz respeito às quadrilhas tradicionais. É notório que há uma certa descaracterização da dança em alguns grupos que investem mais na teatralização do espetáculo. Assim, a inclusão da modalidade Quadrilha Junina numa competição interescolar de âmbito estadual certamente ajudaria bastante na manutenção e fortalecimento de uma tradição que precisa se manter viva na sociedade. Aliás, seria um pioneirismo histórico para Sergipe. O cumprimento de um papel social muito merecido para um estado que busca valorizar suas raízes culturais.
De acordo com o Comitê Olímpico Internacional (COI), a ideia de incorporar o breaking nos Jogos de Paris é uma iniciativa para trazer a audiência dos jovens para a competição. Na edição de Tóquio, o surfe e o skate tiveram esse papel. E sobre a dança de rua como modalidade olímpica, o diretor do Conselho Nacional de Dança Desportiva, Jose Bispo de Assis “Bispo SB”, disse que o Brasil tem “muito mais a buscar do que somente medalhas, visto que um dos nossos preceitos é melhorar o local em que vivemos através de atitudes positivas. A melhor vitória é aquela que é dividida com as comunidades de onde viemos”.

Para quem pergunta se dança é esporte, é bom lembrar também que há anos a Ginástica Rítmica Desportiva (GRD) é modalidade olímpica. Executada por atletas do sexo feminino, trata-se de um tipo de ginástica desenvolvida com movimentos corporais baseados nos elementos do balé e da dança teatral, numa mistura de arte, criatividade e capacidade física, cuja execução é realizada em sincronia com a música. Muito a ver com a Quadrilha Junina, sendo que cada qual no seu quadrado.
Outra coisa: notadamente, grande parte das escolas sergipanas, tanto na capital quanto no interior, mantém a tradição das festas juninas com apresentação das quadrilhas escolares como ponto alto dos festejos. Então, por que não transformar essa iniciativa numa competição interescolar e, claro, incentivar cada vez mais a prática da atividade no ambiente escolar e social? Além disso, a competição entre quadrilhas juninas mirins e adultas terá regras bem definidas e poderá movimentar a comunidade escolar durante boa parte do ano, já que os Jogos da Primavera são disputados geralmente no segundo semestre.

A propósito, sobre os Jogos da Primavera, eles existem no Estado de Sergipe desde o início dos anos 1980. Mas foi oficializado como evento desportivo a ser realizado anualmente através da Lei n° 5.493, de 21 de dezembro de 2004, publicada no Diário Oficial nº 24678, do dia 22/12/2004, no governo de João Alves Filho, após aprovação na Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe.
A lei diz que os jogos devem contar com a participação da juventude, através das Unidades ou Estabelecimentos Escolares da Rede Pública e da Rede Particular de Ensino de Sergipe. Diz também que as normas gerais, o calendário e a estrutura participativa para realização dos Jogos da Primavera devem ser obrigatoriamente estabelecidos, a cada ano, por Decreto do Governador do Estado.
E mais: cabe à Secretaria de Estado da Educação, também anualmente, mediante Portaria expedida, em tempo hábil, pelo seu secretário de Estado, após articulação com os vários órgãos, entidades, instituições e demais estabelecimentos interessados, definir as modalidades esportivas que devem ser objeto das respectivas competições, e dispor sobre requisitos, condições, instruções, orientações e o que mais se fizer necessário para realização dos Jogos da Primavera. Ou seja, uma questão de bom senso.
E para acirrar a provocação, cumpre ainda dizer que a Base Nacional Comum Curricular – BNCC, inclui a dança em dois dos seus componentes curriculares: Arte e Educação Física. Isso quer dizer que ela transita entre a cultura e o esporte. Mesmo sendo a Educação Física reconhecida, na Base, como de natureza escolar, há uma compreensão que a concebe no rol dos esportes. Portanto, a arte da dança e a prática esportiva andam de mãos dadas nessa conjuntura.

Por fim, é preciso esclarecer que a tradição das quadrilhas juninas não nasceu em Sergipe. A elegante dança de casais tem suas origens na Europa, nos salões palacianos da França, Inglaterra, Portugal e outros países do continente que no século XIX celebravam os grandes encontros da Corte com essas danças envolventes. Na época, luxo, cortesia e elegância eram os pontos fundamentais nos eventos. A moda chegou ao Brasil em 1808, com a vinda da família real portuguesa ao país que havia colonizado há anos. Alguém por lá teve a brilhante ideia de trazer a dança de pares para o Nordeste e o restante da história a gente conta nos livros de história. Está lançado o desafio em prol da cultura.

* Gilson Sousa, jornalista, pesquisador da cultura popular e Mestre em Comunicação pela UFS

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