David, Davi e os sonho
Publicado em 13 de fevereiro de 2025
Por Jornal Do Dia Se
* Andrei Albuquerque
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Longe da pretensão de tentar esgotar uma obra, podemos admirar os filmes de David Lynch e os ensinamentos de um xamã como Davi Kopenawa em seu livro “A queda do céu: palavras de um xamã yanomani”. Em ambos, encontramos a importância do sonho como um elemento impossível de ser dissociado da vida comum e de seu espanto. Tanto David quanto Davi compartilham o que viram em suas aldeias e que está presente na aventura humana. No entanto, cada um a partir de sua perspectiva.
Se podemos dizer que Lynch consegue juntar surrealismo e cultura pop transformando o lixo cultural estadunidense em arte – essa junção ficou a mim mais evidente após uma fala do artista multimídia sergipense Alessandro Santana – já Kopenawa revela outra forma de ver o mundo e outro peso que o sonho tem para um povo indígena que está inserido em outra estrutura civilizacional diferente da nossa que julgamos universal como se todo o universo fosse judaico-cristão e não repleto de muitas moradas como o Cristo pregou, esquecem assim a pluralidade presente no mundo, nas minorias, nas aldeias. Agora, vemos o discurso supremacista branco hetero tóxico, no império estadunidense, voltar a se enrijecer como única visão de mundo.
O xamã Davi Kopenawa fala que o “homem branco” seria o “povo da mercadoria” sempre preocupado com consumo e trabalho ao longo da vida e desconectado da natureza. O homem branco sonharia mais consigo e seus anseios mais imediatos.
O xamã nos mostra a sua perspectiva de ver a nossa civilização, a natureza e os sonhos, assim a leitura de seu livro e de outros autores indígenas como Ailton Krenak pode servir para que saiamos um pouquinho de nossa torre eurocêntrica e maniqueísta, pois a vida e o inconsciente não se reduzem a categorias binárias e a uma única identidade imutável. Então, o ato de ler autores de outras culturas pode permitir uma pontinha, um lampejo, de descolamento de nossas certezas e preconceitos, por isso é vital que também o psicanalista cultive a abertura de escutar o que lhe surpreende para não se deixar seduzir pela tentação perigosa de supor que sabe a verdade de quem o procura no consultório – Lacan disse que o analista é estruturante da análise, barqueiro da travessia de cada analisante e não uma figura oracular que teria respostas prontas.
O pintor e cineasta David Lynch mostraria como a nossa vida é tecida por sonhos e como o que haveria de mais sombrio no humano pode estar em cada um, ao menos é a impressão que tenho ao assistir “Cidade dos sonhos”(2001). Esse filme indicaria a genial capacidade de o diretor mostrar como uma mulher foi capturada por um fascínio mortificante por outra mulher e quase todo o filme (ou todo?) seria um sonho misturado com a “realidade”, afinal a realidade também é lida a partir de nossa história, nossa cultura e de nossas fantasias – Lacan usará o neologismo “êxtimo” para dizer que o íntimo de cada um se conjuga com a realidade sendo impossível separá-los de modo definitivo.
Assim, uma pessoa lê a sua vida cotidiana, seu meio social e seu destino a partir de sua história e de suas fantasias. E o sonho? O sonho como uma formação do inconsciente, um produto obrado pelo inconsciente, revelaria algo para além do suposto domínio racional que a pessoa julga ter completamente, expondo que o ser é feito por desejos e que as aparentes contradições são mais naturais e comuns do que suportamos em nosso ego. E os desejos se fazem mais evidentes pelos sonhos quando ainda estão muito cifrados, escondidos, nas palavras e no corpo. E um conteúdo inconsciente, que primeiro pode chegar sob uma estranha angústia, posteriormente pode ser aceito no ego como satisfação já sob uma alegria verdadeira sem sofrimento neurótico.
Assim, Freud e Lacan sabiam que o artista tinha o poder de antecipar o que a filosofia, a ciência e a psicanálise iriam descobrir somente depois. Freud em “A interpretação dos sonhos”(1900) cita o poeta romântico, do século XVIII, Novalis sobre o sonho: “O sonho é um baluarte contra a regularidade e monotonia da vida, um repouso livre da imaginação presa, onde ela confunde todas as imagens da vida e interrompe a seriedade constante da pessoa adulta com uma alegre brincadeira infantil; sem os sonhos, certamente envelheceríamos mais cedo, e assim podemos ver o sonho, se não como dádiva direta do céu, com certeza como tarefa deliciosa, como companhia amigável na peregrinação para o túmulo.”
O artista e o místico iluminam primeiro os caminhos desconhecidos…
* Andrei Albuquerque, psicanalista e psicólogo. Mestre em psicologia social/UFS. Publicou 2 livros, artigos e textos em jornais.