Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Zé Peixe não combina com pedra, viveu estranho às condolências rígidas do cimento. Sagrado na água escura do Rio Sergipe, o último herói da aldeia deu as costas para a avenida e mergulhou no imaginário do lugar – Tudo pelo gosto das braçadas.
É essa a história trazida pelas Marés, mostra do Trotamundos Coletivo focada no universo simbólico de Zé Peixe e seus desdobramentos na construção da memória. Um diálogo entre estímulos visuais, textuais e sonoros que traz à tona os contornos do mito e os gestos do homem de carne e osso.
Um olhar sobre Zé Peixe – 34 fotografias, 4 áudios, uma seleção de reportagens publicadas na imprensa e desenhos do próprio Zé Peixe. As imagens selecionadas integram as séries liberdade, maresia, encontro e ressaca que serão apresentadas em duas fases, chamadas pelo coletivo de marés. A primeira delas celebra a personagem e seus afetos e está caracterizada pelas séries Liberdade e Encontro, a serem exibidas de 11 a 30 de abril. A segunda, que dialoga com o adeus e os vestígios do espaço por meio das séries Maresia e Ressaca, será aberta ao público entre os dias 8 e 22 de maio.
As imagens da série Liberdade são resultado da percepção dos integrantes acerca da persona de Zé Peixe. Ela traz retratos pessoais, que não necessariamente são fotografias do homem, mas uma representação de como sua figura e sua filosofia ficaram marcadas na vida dos fotógrafos do coletivo. Encontro, por sua vez, aborda as relações afetivas que permearam a vida do Prático: as suas paixões cotidianas, as relações de família, as memórias e a visão de quem o conheceu.
Maresia propõe uma reflexão a respeito do espaço habitado por Zé Peixe: o mar, a cidade, a casa, os barcos, as rotas das águas. O coletivo pretende uma reflexão a respeito da relação entre o espaço e a construção do imaginário em torno do personagem. Ressaca, a última série da exposição, é uma conversa acerca da partida. Suas imagens refletem sobre a ausência e os significados atribuídos ao mito de Zé Peixe após o seu falecimento, em abril de 2012.
Além das imagens, os 4 áudios que integram a exposição serão usados para evocar imagens no público. Que imagens vêm à tona, dentro de cada pessoa, a partir de um estímulo sonoro que diz respeito ao universo de Zé Peixe? O que cada um de nós pode oferecer de memória visual para o universo narrativo em torno do personagem?
Durante a exposição, os visitantes serão incentivados a darem um retorno ao estímulo através do e-mail olharmares@gmail.com. As pessoas podem fotografar, desenhar, pintar, fazer colagens ou qualquer representação visual que dê conta do que elas viram ao ouvir os áudios. Essas imagens serão colocadas no blog do trabalho, com o devido crédito e um depoimento do visitante (se assim ele desejar).
Os textos selecionados para a mostra trazem um exemplo da interpretação da figura de Zé Peixe, ao longo de sua trajetória, feita pela imprensa. O jornalismo também é uma forma de criar representações, seus relatos evocam memórias, sedimentam estereótipos e ajudam a configurar uma imagem em torno de um mito.
A programação da exposição Marés: Um Olhar Sobre Zé Peixe também contará com um Café Cultural, no dia 8 de maio de 2013, data da abertura da segunda maré da exposição, e terá a presença do coletivo para um debate aberto ao público com entrada gratuita. Nesse encontro serão discutidos os processos criativos e os diálogos que geraram a exposição.
O coletivo – O Trotamundos Coletivo é formado por Alejandro Zambrana, Ana Lira, Arnon Gonçalves, Marcelinho Hora e, desde 2010, vem desenvolvendo projetos nas áreas de produção fotográfica, estudo de linguagem, formação e discussão da fotografia no estado de Sergipe.
O coletivo desenvolve ações que estão sendo reconhecidas por colaborar com a formação de um público interessado em fotografia, promover diálogo entre gerações diferenciadas de profissionais da área, incentivar um olhar sobre a memória e a identidade cultural do estado, além de desenvolver atividades tanto em espaços de arte quanto em ambientes públicos.
Entre seus principais projetos estão o Conversando Fotografia, Mercado 24h, Quem Faz a Foto? e a documentação fotográfica do lançamento do disco O Circo Singular, de Patricia Polayne. O Trotamundos teve trabalhos publicados na revista Aracaju Magazine, no site da revista + Soma e vem participando de diversos encontros no país, como o Encontro Norte Nordeste de Produtores da Fotografia, realizado em Belém, o Onda Cidadã, no Itaú Cultural, em São Paulo, e na primeira edição do Pequeno Encontro da Fotografia, realizado em Olinda, Pernambuco.
Marés: um olhar sobre Zé Peixe
11 de abril, às 19h, na Galeria de Arte do SESC Centro


