Desabamento: Pais deixam hospital e enterram bebê

Milton Alves Júnior
miltonalvesjunior@jornaldodiase.com.br

Foi enterrado no final da tarde de ontem o corpo de Ítalo Miguel, de 11 meses, vítima do desabamento de um prédio residencial no bairro Coroa do Meio, zona sul de Aracaju. Carregada por agentes do Corpo de Bombeiros Militar (CBM), acompanhada por familiares, amigos, e os pais, que também ficaram 34 horas soterrados até serem resgatados, a urna fúnebre foi depositada às 17h45 no Cemitério São João Batista. Após ser retirado dos escombros, Ítalo sofreu uma parada cardiorrespiratória, recebeu os primeiros atendimentos ainda no local do sinistro, foi encaminhado às pressas para a UTI do Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), mas não resistiu aos ferimentos e morreu antes de chegar na unidade hospitalar.

Apesar de o óbito ter sido oficializado às 12h45 do último domingo, 20, o corpo da vítima apenas pode deixar o necrotério do Instituto Médico Legal (IML), na tarde de ontem, horas depois dos pais, Josevaldo da Silva, 24 anos, e Vanice de Jesus, de 31 anos, terem recebido alta médica. Conforme relatos do médico responsável pelos atendimentos, Johnson Lucas Marques, após três dias de internamento progressivo os pacientes estavam integralmente aptos para deixar as enfermarias e seguir os cuidados nas respectivas residências. Com vários ferimentos e dificuldades em caminhar, os pais deixaram o Huse às 10h30 em uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

Bastante emocionado, Josevaldo necessitou de assistência familiar e do Corpo de Bombeiros no momento em que o caixão chegou ao cemitério localizado no bairro Costa e Silva. Chorando muito, ele lamentou a morte do filho, abraçou a urna e ao Jornal do Dia disse desejo em deixá-lo vivo e ‘partir’ no lugar dele. "Eu sei que ele cumpriu a missão dele aqui na terra, eu sei que está em um lugar maravilhoso ao lado do senhor Jesus Cristo, mas faria de tudo para que ele continuasse vivo e eu fosse no lugar dele. Quando a gente estava lá eu brincava com ele para que suportasse aquele momento e permanecesse vivo, mas infelizmente não deu", disse.

Amparado pelos pais, o ajudante de pedreiro que trabalhava na construção há cinco meses é natural da capital sergipana e dormia no imóvel que capsulou na madrugada de sábado, 19, desde o mês de maio. Segundo informações repassadas pelo próprio Josevaldo, são falsas as informações que ele teria nascido no Estado de Alagoas e não estaria recebendo o auxílio do dono da construção, até o momento apenas conhecido como Aldo. "Nasci aqui em Aracaju e não em Alagoas como algumas pessoas estavam dizendo. Não tenho o que criticar meu patrão, não sei o nome dele, sei que é Aldo. Se mostrou atencioso comigo e minha mulher e disse estar muito triste com a morte do Ítalo", pontuou.

Distante do ex-marido, Vanice de Jesus aparentava suportar mais a perda do filho e durante coletiva concedida à imprensa sergipana disse sentir algumas dores localizadas e relatou os momentos de agonia. Enfrentando condições precárias de sobrevivência, a vítima do desmoronamento disse ter encontrado dificuldades para amamentar a criança de colo. "Eu tentei dar leite para ele, seria até bom porque iria fortalecer meu filho, mas o espaço era muito pequeno e estava muito quente. Estou muito triste com a morte do meu filho, mas Deus é grande e nos deu essa oportunidade de continuar lutando pela vida aqui na terra", declarou.

Ane Gabriele de Jesus, de 8 anos, recebeu alta médica na tarde da última terça-feira, 22, após  ser assistida pela equipe Multiprofissional da Unidade Pediátrica do Huse e ter sido internada na ala verde da Pediatria por um período de 48 horas. A criança foi a terceira vítima do acidente e a segunda a ser resgatada na manhã de domingo. De acordo com o último boletim médico, a equipe de profissionais que acompanhava a criança diagnosticou que o quadro clínico era considerado estável, o que possibilitou a alta médica. Durante o período de internação, a menina também foi submetida a avaliações psicológicas.

Revolta – Um atraso de 4h30 na liberação do corpo de Ítalo Miguel foi motivo de protesto por parte dos familiares que aguardavam a liberação do corpo no IML. Sem a presença de médicos capacitados e credenciados para proceder com tal processo administrativo, apenas às 17h os familiares receberam a informação da permissão de entrega do corpo a funerária. Como se não bastasse a demora nesse protocolo, a direção do Cemitério São João Batista recusou enterrar a criança em virtude de um erro de digitação do nome de Ítalo. Faltando apenas 15 minutos para o local fechar os portões, a documentação oficial foi apresentada e permitido, então, o depósito do caixão.
"Ficamos tristes com mais essa demora, mas fazer o quê, não é? Meu medo era que o cemitério fechasse as portas e a gente tivesse que só enterrar amanhã", declarou Vanice. Antes do enterro foi promovida uma oração e novos agradecimentos aos agentes do Corpo de Bombeiros que salvaram três, das quatro vítimas soterradas no edifício de cinco andares.

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