* Andrei Albuquerque
O impacto constante da cobrança por desempenho na vida moderna se manifesta na carreira profissional, nas corridas, no corpo e em performances que invadem até as horas de lazer. Tudo isso transformou ainda mais a desistência em sinônimo de fracasso. Talvez, no mês do “Setembro Amarelo”, seja oportuno apontar que o ato de desistir pode ser uma saída diante da sobrecarga, diante daquilo que parece imutável – inclusive como forma de se afastar da desistência mais irremediável: o suicídio. Sim, o ato de desistir como mudança de perspectiva e possibilidade de recomeço difere da passagem ao ato pelo suicídio.
O ímpeto de desistir tornou-se alvo de um rol de condenações motivacionais, moralistas e religiosas, como se a desistência e as desilusões não pudessem abrir espaço para o sujeito ressignificar a sua trajetória e mudar a sua perspectiva sobre a carreira profissional ou sobre um relacionamento tóxico. Em vez disso, o sujeito estaria intimado a manter um compromisso mortífero com determinada escolha para não admitir a deserção, a desistência perante o Outro familiar e social.
É claro que desistir sempre, como forma de evitar a conclusão e o sucesso, pode revelar uma marca inconsciente que reaparece e reproduz uma satisfação aparentemente paradoxal, mesclada à lamentação e à repetição do fracasso. Todavia, Freud não designou o fracasso como uma neurose, como o fez René Laforgue. Importante frisar que o fracasso não é uma estrutura psíquica, mas pode ser um modo de gozo do sujeito. Nesse sentido, o psicanalista britânico Adam Phillips, em seu ensaio Sobre desistir (2024), afirma que “desistir é uma maneira de mudar a aparência das coisas”. Para Phillips, a vida não poderia ser reduzida à oposição entre vencer e perder, mas talvez pudesse ser mais bem vivenciada quando os erros são compreendidos como errâncias, como caminhos que nos levam para além das categorias de fracasso e sucesso também marcadas pelo imaginário de cada pessoa.
Quanto à desistência máxima que seria o suicídio, não deve ser reduzida a uma questão de fracasso motivacional ou existencial, pois isso pode velar fatores sociais, econômicos e relacionados ao trabalho. Entre esses fatores, estão as dívidas, que atualmente também podem ser produzidas pelas bets. O endividamento financeiro pode imprimir, em determinado sujeito, a marca de um fracasso que parece intransponível e que ameaça romper o seu lugar no laço social, restando-lhe aquilo que julga ser a única saída: o suicídio. Nessa passagem ao ato pode haver uma espécie de cola do sujeito a injunções inconscientes, familiares e sociais que o fixam a um papel, a uma performance, a uma determinada imagem de sucesso.
Se desistir pode evitar o desgaste, a pressão das demandas do Outro e o vexame, não desistir também pode obrigar o sujeito a lidar com as consequências éticas do próprio desejo. Parece ser esse, em certa medida, o caso da atleta de breaking Rachel Gunn, conhecida como Raygun, cujo documentário está disponível em uma plataforma de streaming. Rachel sabia que seu estilo e sua performance poderiam ser considerados vexatórios diante dos padrões exigentes do breaking e, ainda assim, decidiu mantê-los a ponto de não marcar um único ponto nas Olimpíadas de Paris, em 2024. Restou a Raygun enfrentar as consequências de suas escolhas, que foram dos memes às acusações de fraude nas eliminatórias olímpicas.
Em seu breve documentário, entretanto, ela não se furta a lançar mão de um surrado chavão: “desistir não seria uma opção!”Essa “sentença” motivacional, tão repetida por aí, soma-se a outras que condenam a desistência, cancelam justamente aquilo que poderia ser uma opção para recomeçar, uma opção pela vida em suas quase infinitas possibilidades. Afinal, não desistir também pode atingir um alvo mortífero por meio da busca pelo cumprimento de demandas familiares e sociais acerca do que deve ser considerado sucesso na sociedade do desempenho – demandas que são impressas em nós à revelia dos nossos quereres.
* Andrei Albuquerque, psicólogo, psicanalista e mestre em Psicologia Social/UFS

