Desterrados… a hora é agora!

Lirismo banhado em sangue

Antonio Passos

Há uma peça em cartaz na cidade! Trata-se de “Desterrados”, um texto de Gerson Norse encenado pela Cia. De Teatro da UFS. Após três apresentações, o espetáculo encerrará a curta temporada de estreia na próxima quinta-feira, 20, às 20 horas, no Museu da Gente Sergipana. A montagem conta com uma trilha sonora quase totalmente original, fruto de uma parceria entre o músico Humberto Barreto e este que agora vos escreve. Há apenas uma exceção: a canção “Fim de Primavera” (Chico Queiroga), aproveitada à pedido do dramaturgo e diretor.
O teatro é assim: a cada encenação, algo de novo aparece. Eu compus as canções ao lado de Humberto Barreto, participei dos primeiros ensaios, ainda em 2019, assisti à estreia e a segunda apresentação. Somente na terceira noite de butuca frente ao palco, entretanto, me dei conta de uma situação: dos quatro personagens da peça, apenas um – Tide – não tem música que o represente.
Tide é um personagem que está em fase de explícita transição existencial. Aderiu recentemente a uma vida religiosa. Na peça não é dito, mas o fato de andar com uma bíblia nas mãos insinua que o credo dele é cristão evangélico. A mudança começa a distanciar Tide de um velho amigo de mesa de bar, o poeta Tonho. Entre os dois, a amiga comum Nena parece atuar como um último fio de ligação.
Logo na abertura, a canção “Pra quê nascer?” é cantada por todos e traduz o contexto geral do drama, sem pertencer a qualquer personagem em particular. Eles estão em um bar – o Bar da Nena – onde Tonho faz as vezes de cantor das madrugadas, acompanhado por um músico ao violão. A certa altura, Tonho canta a canção que o representa – “Sempre Assim” – sendo esse o último momento de expressão do gozo da antiga amizade com Tide.
Em outro momento Nena pede ajuda a Tide para relembrar a canção “Fim de Primavera” (Chico Queiroga). Os dois cantarolam fragmentos da música, mas, não é propriamente uma canção de Tide (ou talvez o seja apenas indiretamente), é antes uma evocação da memória do pai de Nena. Uma tensão sombria recai e avança sobre o ambiente e, um tanto desolados, Tonho e Tide como que em um suspiro agônico pedem que Nena cante algo: ela então vocaliza fragmentos de “Canto à Esperança” – canção que acaba por representar o idealismo romântico de Nena.
Há um lapso no qual Tide sai e Nena e Tonho permanecem sozinhos no bar (o músico ao violão não viola a intimidade das mesas). Tonho joga sobre Nena todo o seu charme boêmio de conquistador e ex-amante. Nena oscila entre um novo rumo que está procurando para a vida e a saudade de momentos passados nos braços do poeta: os dois cantam juntos “Nosso Velho Frevo”… Até que Tide bate à porta e interrompe o crescente jogo de sedução.
Ao final, após um pico trágico, uma reviravolta na direção da opção pela luta e pela vida é embalada na canção “Nenhum Desterro”, que é a música representativa da condição existencial de Leninha, filha de Nena e de Tide (ou seria também filha de Tonho?), uma sobrevivente dos dramas existenciais daqueles que a conceberam.
Próxima quinta-feira (20/10), às 20 horas no Museu da Gente Sergipana: Desterrados… a hora é agora!

Antonio Passos, jornalista.

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