Doris Mary Anne Von Kappelhoff (este o seu verdadeiro nome) foi uma galinha sardenta e sonhadora em sua cidade natal, Cincinnati, no estado de Ohio (EUA). Seu sonho era ser uma nova Ginger Rogers. Aos 13 anos de idade, em 1937, foi convidada para um teste em Hollywood, mas na véspera de embarcar para a cidade dos sonhos, sofreu um acidente automobilístico e acabou com fratura múltipla – uma delas exposta, na perna esquerda – e os médicos disseram que ela poderia ficar paralítica. Não ficou, é claro, mas amargou dois anos de gessos e cirurgias e, enquanto se recuperava, ouvia muita música, principalmente os discos de Ella Fitzgerald, e foi tomando gosto pelo canto.
Filha de um maestro alemão – que abandonou a família para fugir com uma amante, Doris tinha música e ritmo no sangue. Eram os anos 1940 e as big bands estavam no auge. Lá se foi a jovem Doris para Chicago, cantar na banda de Bob Crosby, irmão do então famosíssimo cantor e ator Bing Crosby. Tudo bem, só que no meio do caminho não tinha uma pedra e sim, o trombonista Al Jarden, 23 aninhos, porte de deus grego, beleza impressionante. Não deu outra:Doris apaixonou-se perdidamente, casou-se com o gato, em 1941. A lua de mel virou fel rapidinho. Jorden era ciumento e descontrolado, e por qualquer coisa descia a mão na jovem e linda esposa. Pra encurtar a história: o casal teve um filho, Terry, e Doris conseguiu o divórcio. Al queria matar a ex-mulher, mas acabou morto em um acidente de carro.
Foi preciso mais um casamento fracassado – dessa vez com o saxofonista George Weidler – para que Doris entendesse de uma vez por todas, que tinha destino de estrela. Voltou para a orquestra de Les Brow, gravou um monte de sucessos, entre eles "Sentimental Journey", que foi o seu carro-chefe por muito tempo…
Num belo dia, Doris foi levada por uma dupla de amigos compositores para um teste na Warner Brothers, com o diretor Michael Curtiz. Com apenas dois filme na Warner, "Romance em Alto Mar" e "Meus Sonhos te Pertencem", ela se tornou uma estrela. Ela faria mais 16 filmes na Warner (entre 1945 e 1955) e alguns na Metro, outros tantos na Universal.
Pouca gente levava a sério o seu talento, até fazer "Ama-me ou Esquece-me"(Metro-1955) para reconhecerem que por trás daquela loirinha de aparência ingênua, se escondia uma grande atriz. No longa ela faz a cantora dos anos 1920, Ruth Etting, garota que teve de amargar a chamada "vida fácil" antes de fazer sucesso e manteve uma ligação amorosa com um gangster ciumento e troglodita, vivido na tela por James Cagney. Doris esteve magnífica!
Já em "O Homem que Sabia Demais"(Hitchcock safra 1956), ela dá a medida exata do terror que uma loura pode sofrer nas mãos do mestre do suspense.
Em 1951, Doris se casou com o empresário de atores Marty Melcher, que não só a fez trabalhar como um burro de carga – até do dia de sua morte, em 1968 – como cuidou de gastar cada centavo ganho pela sua "mina de ouro. Resultado: todo aquele sucesso em comédias deliciosas dos anos de 1960 ("Confidências à Meia-Noite", "Carícias de Luxo, "Volta, Meu Amor", com os bonitões Rock Hudson, Cary Grant e James Sarner), escorreu pelo ralo e virou um monte de dívidas. Dóris se viu falida e teve de fazer o que mais detestava: estrelar um seriado de televisão.
Depois Dóris desistiu de tudo. Deixou o cinema, saiu da TV, parou de cantar. Pelo menos em público. Escreveu uma autobiografia, "Doris Day Her Own Story" e se limitou a fazer declarações sobre a religião que pratica, Ciência de Cristo.
Durante esse tempo de aposentadoria voluntária, muito se falou do mito Doris Day. Falaram "cobras e lagartos", que a maldade dessa gente é uma arte… manha. Disseram ser ela fria como um iceberg, avarenta" e até homossexual. Confundindo-a, talvez, com a sua personagem Calamyt Jane no divertidíssimo "Ardida como Pimenta". Pura inconsequência.
(Resumo do capítulo 61 do meu livro inédito, "101 Ícones do Cinema que Nunca Sairão de Cena")


