* Paulo F.T.Morais
Nenhum dos homens que estão ao meu lado, bem mais jovens do que eu, nesta sexta-feira 15 de agosto de 2014, conhece a história daquele velho que está saindo de uma Floricultura na Rua Itabaianinha, com um ramalhete de rosas. Cumprirá o que faz todos os anos no aniversário de morte da mulher: levará as flores para a sepultura da amada, e junto ao túmulo passará o dia com ela.
Quase empertigado, por pouco não disfarça a pequena giba que avança logo abaixo do pescoço, denunciando o vasto tempo que já viveu. Rafael Cardoso Madureira, ex-fiscal de Rendas do Estado, viúvo de Regina Tomires Madureira, sepultada no cemitério Santa Izabel.
Casaram-se em 15 de agosto de 1952, em Maruim, onde nasceram, dia de festa consagrado a Nossa Senhora da Boa Hora, mais venerada pelos habitantes do que Senhor dos Passos, seu padroeiro.
Mudaram-se para Aracaju, 2 anos depois, quando Rafael foi nomeado fiscal de rendas do Estado.
Desconheço homem ou mulher que na vida e nos romances tenham alcançado o milagre de, ao casarem, amalgamarem-se transformando-se num único ser. Quando Gina faleceu, Rafael continuou vivendo como se ela não houvesse morrido, sempre em busca do impossível: a rotina edênica dos anos de casado.
Constituíam o modelo inatingível de um casamento que não desmoronou, sustentado por uma paixão renovável e inexaurível, a qual, enquanto durou, não conheceu brasas apenas chamas. Embora não contribuíssem para propagar o feito celebrado, invariavelmente discretos, a dedicação mútua cultivada pelas recíprocas renúncias vazava como se tivessem suas vidas expostas. Não sentiam a necessidade de ter filhos. As carências mútuas eram preenchidas reciprocamente.
No entanto, não eram invejados. O par edificante carregava um halo de santidade que dissipava nos outros qualquer pensamento mundano. Talvez por isso mesmo, pela especificidade instigante, a união dos dois durou apenas 14 anos.
À mesa, Rafael não se servia. Regina era quem fazia o prato dele, cortando a carne, separando as porções de acordo com as exigências do seu apetite. Sabia-lhe os gostos e caprichava no cardápio. Acolhia com benevolência as idiossincrasias dele, a mania de mudar a roupa de cama diariamente, mesmo que nela não se tivessem deitado. Esses miúdos de amor não significavam comodismo de Rafael, mas a incapacidade, por ela persuadida, de ele movimentar-se no espaço doméstico sem a ajuda da mulher.
Em contrapartida, poupava-a de serviços mais cansativos, convencendo-a a descansar enquanto ele lavava, enxugava e guardava os pratos; espanava móveis, varria a casa; aguava as plantas, cuidava do jardim. Não a deixava comprar roupas sozinha; acompanhava-a dando sugestões sobre o que lhe cairia melhor, mas não impunha sua preferência, que, coincidentemente ou não, era a dela também.
Na manhã de segunda-feira, 15 de agosto de 1966, um frio úmido espargiu-se na cidade de Aracaju alimentado por nuvens imóveis que a escureceram liberando uma chuva fina e indecisa.
Esgotamento das águas invernais, fenômeno natural representativo dessa estação comparável às sensações sombrias que inibem atividades da mente e do coração humanos.
No meio da tarde, numa rua sossegada de um bairro da capital sergipana pessoas movimentavam-se à frente de uma casa.
Homens e mulheres desfigurados em semblantes compungidos completavam o quadro triste como se eles próprios fossem os mensageiros da água que descia sem alarde mas sob a qual se sentiam molhados até os ossos.
Uma ambulância parou rente à calçada onde estavam, e do carro foi retirada uma maca com uma jovem mulher de feições presumivelmente bonitas, na boca imóvel uma expressão que se aproximava de um sorriso a meio caminho pela impossibilidade de descrever simultaneamente os sentimentos de alívio e dor. Era Gina, vítima de uma doença fatal, dessas que esvaem em poucos dias um corpo humano supostamente saudável. Diante de um prognóstico ruinoso, pedira para morrer em casa.
Um homem tão jovem quanto ela desceu da ambulância e entrou na casa equilibrando-se com a ajuda de amigos. Rafael, cujo rosto incolor e inexpressivo e olhar de afogado parecia mais doente do que a mulher, gritava por esta e gadanhava com as unhas das mãos até sangrar o sabugo as paredes, entregue a um surto de descontrole emocional. Vê-lo assim cortava corações.
Pelejando contra as dores que teria que suportar até chegar ao seu calvário, ainda fez sala aos que vieram ver a enferma, muitos deles, por ignorância, supliciaram-no ainda mais com perguntas inconvenientes.
Quando o último visitante saiu, Rafael fechou a porta, e foi ao quarto onde se debruçou sobre Gina, e ambos abraçados destamparam o choro e desespero comprimidos.
Desinflados transitoriamente da asfixia do sofrimento, a mulher pediu ao marido que se refizesse, estava consciente do inevitável, que os dois aproveitassem os últimos momentos antes do lúgubre final para conversar como se longa vida ainda lhe coubesse
Recostaram-se na cabeceira da cama, estofada com travesseiros. Entre murmúrios de amantes, acariciaram-se plenos de uma ilusão sossegada. A chuva continuava sem pausa, e a noite que mal começara já parecia despedir-se com o silêncio e a friagem que precedem a madrugada. Mais tarde, enquanto ele tentava puxá-la para junto de si Gina deslizava para os pés da cama, até que se acomodou na posição fetal, e disse qualquer coisa que o marido interpretou como cansaço e vontade de dormir. Abraçou-a mais uma vez e a sentiu fria. Enrolou-a com cobertores, deixou-a como estava.
Não conseguiu relaxar. Felizmente já não chovia. Dava para ouvir o Nordeste soprando. A primavera!, suspirou Rafael, e desatou o choro.
Saiu do quarto sem querer olhar para Gina. Foi até a sala, abriu a janela, e foi envolvido pela brisa orvalhada; avistou no gume do horizonte os primeiros sinais de um novo dia.
* Paulo F. T. Morais é jornalista e escritor
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