Rian Santos
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Cultivo sentimentos ambivalentes pela cantora Daniela Mercury – atração já confirmada pela organização do Festival de Artes de São Cristóvão. A cantora disposta a meter o bedelho no debate público recebe o meu aplauso entusiasmado. Confesso, no entanto, quase envergonhado: já não me resta pingo de paciência para a alegria festiva dos pracatuns da Bahia.
Não sou homem de vestir as cores excessivas de um abadá. Mas também não sou de negar a realidade em volta. Para todos os efeitos práticos, os 400 mil foliões atraídos pelo carnaval fora de época do empresário Fabiano Oliveira provam, encarno uma orgulhosa exceção à regra.
Eu confesso: até ouvir ‘Proibido o Carnaval’, hit celebrado antes do longo inverno da Covid esfriar a balbúrida feliz do folião, Daniela Mercury estava perdida em uma esquina de minha memória onde ainda ecoava ‘O canto de uma cidade’. A atitude beligerante adotada depois, quando a artista assumiu a relação afetiva com uma jornalista, jamais me impressionou de verdade.
Desde a emergência do bolsonarimo, entretanto, o assanhamento do Povo de Deus, a afinidade dos programas bancados pela bancada da bíblia e a bancada da bala, me obrigam a brincar o Carnaval todo santo dia. Contra todas as aparências, eu e ela, Daniela Mercury, estamos do mesmo lado.
A prefeitura de São Cristóvão acerta, portanto, ao bater o martelo e contratar a cantora baiana. Não em função da “militância” progressista de Daniela Mercury (com ênfase nas aspas). Mas porque os brasileiros morreram feito moscas, em passado recente – a maior tragédia sanitária e política da História recente. E o luto não há de cobrir a alegria selvagem do populacho.


