Economia sergipana tem pouca capacidade de reação, diz professor

 

Gabriel Damásio
Os últimos resultados 
da Pesquisa Nacional 
por Amostras de Domicílio (Pnad Contínua), divulgados na última quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelaram que a economia sergipana não reagiu o suficiente para criar mais empregos formais no último trimestre de 2019, mesmo sendo um mês de maior movimentação do comércio e dos serviços, por causa das festas de fim de ano. A taxa de pessoas desocupadas no período em Sergipe ficou em 14,8%, sendo a terceira maior do país – perde apenas para os estados da Bahia e do Amapá. Isso acontece mesmo com uma queda de 0,2% em relação ao mesmo período de 2018, quando a taxa foi de 15%. 
Na avaliação do professor Kleber Fernandes de Oliveira, do Departamento de Estatística e Ciências Atuariais da Universidade Federal de Sergipe (UFS), esta queda na taxa de desocupação se deve a uma "pressão natural" da mão-de-obra desempregada por vagas de trabalho, que chegaram a ser criadas no comércio e na área de serviços, mas também ao aumento do trabalho informal, isto é, quando o trabalhador tem uma ocupação, mas sem registro em carteira. "Por um lado, tivemos essa pressão natural da massa de pessoas procurando empregos, que estão buscando voltar ao mercado de trabalho. Isso acabou fazendo surgir algumas vagas. Por outro lado, tem todo mundo que está ocupado está empregado formalmente, porque a pessoa vai fazer bico ou vai trabalhar por conta própria, em busca de renda", disse ele. 
É um aspecto que se reflete na taxa de informalidade da mão-de-obra em Sergipe, que em 2019, ficou em 54,4%, alcançando o 7ª maior índice do país. A subutilização da mão de obra também foi a 7ª maior entre os estados, com 33,2%. Esta taxa engloba as pessoas na força de trabalho potencial (que poderiam trabalhar,mas não estão procurando trabalho), subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas,além dos desocupados.Já entre os trabalhadores ocupados, houve um aumento de 53 mil pessoas, 5,9% em relação ao mesmo período do ano passado. 
O professor da UFS atribui o resultado da pesquisa à pouca capacidade de reação da economia sergipana, que segundo ele, é baseada principalmente no comércio, nos serviços, na agropecuária e no setor público. "O Estado movimenta 40% do volume de renda da economia de Sergipe, e isso não deixa de acontecer no resto do país. Isso acontece com o pagamento de servidores, com a contratação de mão-de-obra e de serviços terceirizados, ou com os investimentos públicos. O setor privado aqui em Sergipe ainda é incipiente, tem pouca capacidade de investimento e esse investimento não acontece porque os empresários não têm confiança e nem segurança para investir", afirma Kleber. 
A forma como os governos federal e estadual vêm lidando com a crise também foram criticadas pelo estatístico, que aponta atitudes e omissões que redizem ainda mais a atração de investimentos para o estado. No lado federal, Kleber aponta a falta de compromisso com o meio ambiente e declarações públicas de autoridades como o ministro da Economia, Paulo Guedes, que defendeu a alta do preço do dólar e ironizou o fato de empregadas domésticas viajarem para a Disneyworld, nos Estados Unidos. Já no âmbito local, o professor considera negativa a estratégia de conceder isenção fiscal para que indústrias se instalem no estado ou mesmo para que agricultores vendam mais os produtos cultivados aqui. "Entendo que essa é uma estratégia para atrair empresas, mas um empresário não vai ter confiança necessária em investir num estado que renuncia aos seus impostos com frequência. Quem é que vai bancar os seus serviços públicos? Como é que ele vai investir em estradas, em estrutura?", questiona.
Estrutura arcaica – A análise do pesquisador é ainda mais dura quando se estende às causas da baixa atividade da economia de Sergipe, já que outros estados do Nordeste tiveram uma reação melhor no balanço de empregos do ano passado. Na visão de Kleber, a base das principais atividades econômicas do nosso estado está bastante atrasada e chega a ser o mesmo da década de 1950. "A estrutura produtiva de Sergipe está nos mesmos parâmetros de 50 a 60 anos atrás. Nós temos um setor primário que reúne 15 a 25% da população, e basicamente produz gado, leite, grãos e cana-de-açúcar. Parte dessa população não tem acesso à água, a crédito e à assistência técnica. O setor industrial praticamente não existe, se resume a poucas fábricas. O que segura a economia de Sergipe é o comércio e o setor de serviços, que movimentam a maior parte da renda", avalia. 
Outro aspecto apontado é a baixa qualificação da mão-de-obra. Ele se refere a um estudo divulgado em julho de 2019, com base na Pnad Contínua, a qual apontou que 82,97% dos trabalhadores ocupados em Sergipe, na faixa entre 15 e 64 anos, nunca frequentaram qualquer curso de qualificação profissional. E que 98,87% dos trabalhadores ocupados admitiram não frequentar qualquer curso de qualificação atualmente. 
Kleber Oliveira lamenta que este cenário ainda persista no Estado. "E isso se reflete até mesmo entre quem trabalha por conta própria, ou se arrisca a ser empreendedor. Muita gente vai montar um comércio ou vender um produto, mas não trabalha com planejamento, não tem capital de giro, não tem estratégia de marketing, não tem noção de atendimento, contrata pessoas que também não têm noção de atendimento… O único fator atrativo é o preço baixo. Isso porque não se tem qualificação. Quando uma pessoa tem conhecimento e qualificação, dificilmente ela fica muito tempo desempregada", alertou. 

Gabriel Damásio

Os últimos resultados  da Pesquisa Nacional  por Amostras de Domicílio (Pnad Contínua), divulgados na última quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelaram que a economia sergipana não reagiu o suficiente para criar mais empregos formais no último trimestre de 2019, mesmo sendo um mês de maior movimentação do comércio e dos serviços, por causa das festas de fim de ano. A taxa de pessoas desocupadas no período em Sergipe ficou em 14,8%, sendo a terceira maior do país – perde apenas para os estados da Bahia e do Amapá. Isso acontece mesmo com uma queda de 0,2% em relação ao mesmo período de 2018, quando a taxa foi de 15%. 
Na avaliação do professor Kleber Fernandes de Oliveira, do Departamento de Estatística e Ciências Atuariais da Universidade Federal de Sergipe (UFS), esta queda na taxa de desocupação se deve a uma "pressão natural" da mão-de-obra desempregada por vagas de trabalho, que chegaram a ser criadas no comércio e na área de serviços, mas também ao aumento do trabalho informal, isto é, quando o trabalhador tem uma ocupação, mas sem registro em carteira. "Por um lado, tivemos essa pressão natural da massa de pessoas procurando empregos, que estão buscando voltar ao mercado de trabalho. Isso acabou fazendo surgir algumas vagas. Por outro lado, tem todo mundo que está ocupado está empregado formalmente, porque a pessoa vai fazer bico ou vai trabalhar por conta própria, em busca de renda", disse ele. 
É um aspecto que se reflete na taxa de informalidade da mão-de-obra em Sergipe, que em 2019, ficou em 54,4%, alcançando o 7ª maior índice do país. A subutilização da mão de obra também foi a 7ª maior entre os estados, com 33,2%. Esta taxa engloba as pessoas na força de trabalho potencial (que poderiam trabalhar,mas não estão procurando trabalho), subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas,além dos desocupados.Já entre os trabalhadores ocupados, houve um aumento de 53 mil pessoas, 5,9% em relação ao mesmo período do ano passado. 
O professor da UFS atribui o resultado da pesquisa à pouca capacidade de reação da economia sergipana, que segundo ele, é baseada principalmente no comércio, nos serviços, na agropecuária e no setor público. "O Estado movimenta 40% do volume de renda da economia de Sergipe, e isso não deixa de acontecer no resto do país. Isso acontece com o pagamento de servidores, com a contratação de mão-de-obra e de serviços terceirizados, ou com os investimentos públicos. O setor privado aqui em Sergipe ainda é incipiente, tem pouca capacidade de investimento e esse investimento não acontece porque os empresários não têm confiança e nem segurança para investir", afirma Kleber. A forma como os governos federal e estadual vêm lidando com a crise também foram criticadas pelo estatístico, que aponta atitudes e omissões que redizem ainda mais a atração de investimentos para o estado. No lado federal, Kleber aponta a falta de compromisso com o meio ambiente e declarações públicas de autoridades como o ministro da Economia, Paulo Guedes, que defendeu a alta do preço do dólar e ironizou o fato de empregadas domésticas viajarem para a Disneyworld, nos Estados Unidos. Já no âmbito local, o professor considera negativa a estratégia de conceder isenção fiscal para que indústrias se instalem no estado ou mesmo para que agricultores vendam mais os produtos cultivados aqui. "Entendo que essa é uma estratégia para atrair empresas, mas um empresário não vai ter confiança necessária em investir num estado que renuncia aos seus impostos com frequência. Quem é que vai bancar os seus serviços públicos? Como é que ele vai investir em estradas, em estrutura?", questiona.

Estrutura arcaica – A análise do pesquisador é ainda mais dura quando se estende às causas da baixa atividade da economia de Sergipe, já que outros estados do Nordeste tiveram uma reação melhor no balanço de empregos do ano passado. Na visão de Kleber, a base das principais atividades econômicas do nosso estado está bastante atrasada e chega a ser o mesmo da década de 1950. "A estrutura produtiva de Sergipe está nos mesmos parâmetros de 50 a 60 anos atrás. Nós temos um setor primário que reúne 15 a 25% da população, e basicamente produz gado, leite, grãos e cana-de-açúcar. Parte dessa população não tem acesso à água, a crédito e à assistência técnica. O setor industrial praticamente não existe, se resume a poucas fábricas. O que segura a economia de Sergipe é o comércio e o setor de serviços, que movimentam a maior parte da renda", avalia. 
Outro aspecto apontado é a baixa qualificação da mão-de-obra. Ele se refere a um estudo divulgado em julho de 2019, com base na Pnad Contínua, a qual apontou que 82,97% dos trabalhadores ocupados em Sergipe, na faixa entre 15 e 64 anos, nunca frequentaram qualquer curso de qualificação profissional. E que 98,87% dos trabalhadores ocupados admitiram não frequentar qualquer curso de qualificação atualmente. 
Kleber Oliveira lamenta que este cenário ainda persista no Estado. "E isso se reflete até mesmo entre quem trabalha por conta própria, ou se arrisca a ser empreendedor. Muita gente vai montar um comércio ou vender um produto, mas não trabalha com planejamento, não tem capital de giro, não tem estratégia de marketing, não tem noção de atendimento, contrata pessoas que também não têm noção de atendimento… O único fator atrativo é o preço baixo. Isso porque não se tem qualificação. Quando uma pessoa tem conhecimento e qualificação, dificilmente ela fica muito tempo desempregada", alertou. 

 

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