ECOS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Baependy: Um dos navios bombardeados pelo submarino alemão U-507

Acontecimentos no mar da Estância fez o Brasil entrar em guerra

Carlos Modesto
Foi numa noite de domingo, 16 de agosto de 1942, aproximadamente às 20 horas. A sessão do Cinema São João estava prestes a dar início, quando chegou à nossa cidade, gravemente ferido, o capitão Lauro Moutinho dos Reis, o primeiro sobrevivente do torpedeado navio Baipendy. A partir desse momento, Estância viria a ser palco de um grande ato de patriotismo e humanidade.
O Brasil havia sofrido o primeiro ataque à sua Frota Mercante em 22 de março de 1941, quando o Taubaté foi metralhado por um avião nazista, causando a morte de um oficial. Depois, houve a perda de 18 navios mercantes, inclusive navios de passageiros, bombardeados por vasos de guerra nazifascistas, na costa do Nordeste. Nessa época, a ditadura no Brasil tornara-se menos contundente, os presos políticos já se encontravam em liberdade e o governo cedia ante a opinião pública.
No Rio de Janeiro, no Largo da Carioca, houve um comício de cunho democrático, do qual participaram várias correntes políticas, culminando com uma marcha até o Palácio Guanabara, para exigir do Presidente Getúlio Vargas guerra ao Eixo. A multidão foi calculada em 500.000 pessoas. Impressionante à marcha, com tantas luzes brilhando ao longo do trajeto, cada participante portando um archote, até a casa do Presidente, que em discurso, prometeu declarar guerra ao Eixo, cedendo ao clamor da multidão exaltada. A pressão surtiu efeito, e o Brasil proclamou luta armada ao inimigo em 31 de agosto de 1942.
O relato da ligação do navio Baipendy com a nossa cidade foi fartamente noticiado na ocasião do fato. Comandado pelo capitão João Soares da Silva, construído na Alemanha em 1912, foi incorporado ao Lloyd Brasileiro em 1917.
Em 15 de gosto de 1942, esse navio, já com 30 anos de serviço, com pouca velocidade, cumpria sua missão, transportando passageiros civis, o Sétimo Grupo de Artilharia de Dorso e Cargas, com luzes acesas e sem armamentos, numa viagem de Salvador para Maceió. Eram, aproximadamente sete horas e quinze minutos da noite. O navio seguia calmamente sua rota a 60 milhas à frente da Barra do Rio Real e a terra firme. No interior da embarcação, os passageiros e oficiais tinham acabado de jantar e estavam comemorando o aniversário do imediato, quando o submarino U-507, covardemente e sem aviso, lançou o primeiro torpedo e, logo em seguida, o segundo, atingindo em cheio o navio. O pânico foi estabelecido a bordo, impedindo a guarnição de abaixar as baleeiras (pequena embarcação com espaço para socorro de 50 pessoas). Apenas uma delas foi jogada na água, devido as suas cordas serem cortadas por um dos torpedos. A tragédia teve a rapidez de imprevisto fulminante. Enquanto a embarcação afundava, todos gritavam dentro da noite, à procura da salvação. Quatrocentos e cinquenta passageiros foram jogados à mercê do tempestuoso mar e apenas vinte e oito náufragos desesperados, em exaustiva luta pela sobrevivência, conseguiram alcançar o único salva-vidas jogado ao mar. Depois de 10 horas de cansativos esforços e sofrimentos, eles chegaram à Praia do Saco e do Mangue Seco. Eram 28 destroços humanos, cobertos de sangue, famintos, caindo aos pedaços. Em terra firme, esses sobreviventes encontraram, na família do Sr. João Salgado de Carvalho, amparo, carinho, bondade e a atenção dispensada em socorros, sensibilizando-os de tal forma que caíram numa explosão de sentimentos de choros agradecidos e com os corações batendo de gratidão.
Nas praias do Saco e de Mangue Seco, os sobreviventes do Baipendy chegaram ao porto de Estância às 20 horas de domingo dia 16. O primeiro dos náufragos, capitão Lauro Mourinho dos Reis (já citado acima), gravemente ferido no osso facial direito, entrou na cidade à procura das autoridades. O povo logo se agitou, abalado pela notícia da tragédia. O Dr. Barreira de Alencar, juiz de Direito, o Sr. Moacir Chaves, administrador da Mesa de Rendas Federais, o Sr. José Leite, agente fiscal do Imposto de Consumo, Sr. José Francisco do Nascimento, da Capitania dos Portos, Sr. Arnaldo Ferreira, Sr. Arlindo Silveira, o delegado de Polícia Sr. Orlando Gomes e várias outras pessoas de destaque social transportaram-se imediatamente ao Porto, levando assistência aos sobreviventes.
Hospital Amparo de Maria
Os sobreviventes foram imediatamente levados ao Hospital Amparo de Maria, os náufragos tiveram atenção redobrada dos médicos Pedro Soares, Clóvis Franco e Jessé Fontes, além das irmãs desse nosocômio secular, que se intensificaram em cuidados e atenções, estancando, no corpo dos feridos, o sangue, a dor e o cansaço das 10 horas de agonia que lhes esgotaram o organismo. Foi comovente o gesto da família estanciana, disputando chance para oferecer cordialidade às infelizes vítimas do navio torpedeado e sofrendo momentos de angústias e consternação em face do quadro revoltante que lhe deixou na sensibilidade uma marca imperecível de horror e indignação.
No dia seguinte ao torpedeamento do Baipendy, mais oito náufragos, semimortos, agarrados aos destroços de madeira, conseguiram chegar a terra. Entre estes, quatro passaram por Estância: Dr. Vitório Story, Raymundo Corrêa da Silva, Arthur Kern e Pascásio Calado.
Morreram 55 tripulantes, inclusive o comandante, e 235 passageiros. O submarino U-507, ao que se sabe, havia recebido ordens para operar na costa brasileira e torpedear os navios que ao longo dela transitassem. Este ataque foi uma trágica e infeliz surpresa, pois era de nosso conhecimento que os submersíveis alemães bloqueariam apenas unidades que fizesse o comércio com os Estados Unidos.
Estância mal se refazia da comoção sofrida, quando outra notícia, não menos dolorosa, lhe feriu a alma: o torpedeamento do Aníbal Benévolo pelo mesmo submarino citado. Esse navio transportava oitenta e três passageiros e setenta e um tripulantes, navegando todo iluminado, de Salvador para Aracaju. A agressão aconteceu em 16 de agosto de 1942, aproximadamente às cinco horas da manhã. Ele era um navio pelo qual o povo sergipano tinha alta estima, por ser um dos raros que o visitavam frequentemente; e, mais ainda, porque nele viajavam muitos sergipanos pertencentes às mais ilustres e destacadas famílias. O ódio, a dor, o desespero, as lágrimas começaram a sangrar do coração do povo. Talvez, em nenhum outro Estado, a alma pesarosa das multidões tenha vibrado com mais alucinante protesto de vingança do que da comunidade sergipana.
Quando por Estância passou o comandante do Aníbal Benévolo, havia em todos os homens tensões de revolta, rugidos de sofrimento e gritos de revide. Quando     entrevistado, o comandante do navio disse: “Do meu navio só se salvaram quatro pessoas. Torpedeado às cinco horas da manhã, todo pessoal dormia.” Essas palavras resumem, na sua dolorosa síntese, uma das maiores tragédias da história covarde e sinistra dos submarinos do Eixo. Os quatros sobreviventes do navio em questão passaram na estância às pressas, antes de se dirigirem para Aracaju.
Foram sensacionais nas suas colaborações admiráveis as altas expressões industriais da Estância, notadamente o Dr. Júlio César Leite. A lancha Maria Auxiliadora, da Fábrica Santa Cruz, foi posta a disposição das autoridades com pessoal e combustível. Os serviços prestados pela lancha foram incalculáveis. Foi por meio dela que se fez todo o trabalho de observação, socorro e salvamento dos náufragos. O Dr. Júlio Leite deu ordens para que tudo que dependesse do empório ou do seu pessoal, no sentido de amparar a sorte das vítimas dos torpedeamentos, fosse usado prontamente. O Sr. Constâncio Vieira baixou as mesmas instruções, oferecendo às autoridades todos os veículos da Fábrica Senhor do Bonfim e mais o que fosse necessário. O Sr. Arnaldo Ferreira misturou-se com o povo no trabalho penoso de permanecer em todos os instantes ao lado dos sobreviventes.
A Usina Castelo, de Santa Luzia do Itanhim, foi o ponto intermediário entre Estância e a Vila do Crasto. No movimento de transporte dos náufragos, a Usina tornou-se o ponto de apoio, funcionando como uma estação de emergência. Qualquer necessidade de urgência era sempre para esta última que se corria em primeiro lugar. Automóveis, alimentação, remédios e tudo mais, lembravam-se logo, como lugar mais próximo da praia e do porto do Crasto, a Usina Castelo. O Sr. Cantidiano Vieira, seu proprietário, de pé do portal da sua casa, atendia a todos, ia ao encontro das necessidades que o seu patriotismo reconhecia como justas e naturais na amargura da hora sombria que o país estava atravessando.
Dos 71 tripulantes e 83 passageiros, salvaram-se apenas quatro tripulantes: o comandante Henrique Mascarenhas da Silveira, o cozinheiro Firmino Gomes da Silva, o moço de convés Manuel Nunes da Silva e o cabo do frigorífico. Valdomiro Pinheiro. O comandante voltou ao comando de outro navio.
O submarino U-507, sob o comando do impiedoso alemão Harr Schacht, em 18 de agosto de 1942, após ter sido atacado por uma avião norte-americano, apresentou defeito no revestimento na tampa do turbo do torpedo, o que o obrigou a vir à superfície.  O submergível reagiu com canhões. Mas outra avaria surgiu na câmara de submersão, que foi reparado bem próximo a Itapuã, junto à barra de Salvador, ficando vulnerável aos ataques de aviões. Logo depois de torpedear os navios Baipendy, Aníbal Benévolo, Araquara, Itagiga, Arará e a barcaça Jacira, regressou à Alemanha para reparos e descanso. Voltou depois para as costas da Guianas, torpedeando lá o navio inglês York Wood. Em 13 de janeiro de 1943, foi atacado por um avião Catalina (americano), indo para o fundo com sua tripulação.
P.S Matéria extraída do livro “Sombras da Saudade – A História dos cinemas da Estância” de autoria do escritor e memorialista Carlos Modesto. 
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