Monique Oliveira
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Em entrevista ao Jornal do Dia, o arcebispo de Aracaju, Dom José Palmeira Lessa, fala sobre seus 30 Anos de Episcopado, como surgiu sua vocação religiosa e o papel da Igreja Católica hoje na sociedade. Sobre o avanço dos evangélicos, diz: "É positivo enquanto anuncia Jesus e escandaloso para o mundo pela fragmentação do cristianismo em milhares de Igrejas fundadas pelos homens, indo contra o pedido de Jesus ao Pai".
A perda dos verdadeiros valores é o que mais assusta Dom Lessa. Na entrevista, o arcebispo diz ainda que o egoísmo de pais que, em nome de uma pretensa felicidade pessoal, desfazem o lar e deixam os filhos na insegurança e na solidão.
Jornal do Dia – Quem é Dom Lessa?
Dom Lessa – Sou o primogênito de 15 rebentos de Antônio de Araújo Lessa e Maria Teresa da Silva Lessa. Sou alguém chamado por Deus e consagrado para a missão de pastor sucessor dos apóstolos. Sou irmão de todos e procuro viver, segundo Jesus, na obediência ao Pai e como servo de todos para comunicar Deus e ligar as pessoas ao seu Amor. Sou alguém que acredita na salvação oferecida por Jesus e procura ouvi-Lo na meditação da Palavra de Deus, na escuta do que diz a Igreja, na oração e segue a ordem da Virgem Maria, a mãe de Deus: "Fazei tudo o que ele (Jesus) vos disser".
Jornal do Dia – Como surgiu sua vocação religiosa?
Dom Lessa – Tenho um tio já falecido, irmão de minha mãe, frade carmelita. Nas suas férias, ainda como seminarista, vinha nos visitar, no interior de Alagoas, na cidade de Coruripe. Eu era criança mas ele brincava comigo e meus irmãos, carregava com ele uma máquina fotográfica, preto e branco ( coisa rara a 63 anos atrás), tirava nosso retrato e rezava conosco. Com ele, minha mãe que amava a virgem Maria, aprofundou seu relacionamento com a mãe de Deus e nossa, sob o título e espiritualidade de Nossa Senhora do Carmo.
Eram tão profundos o relacionamento e a confiança dela na Virgem Imaculada e Senhora do Carmo que tomou-a como madrinha de batismo para mim, seu primogênito. Hoje penso que Deus se serviu de todos esses fatos da vida, acontecidos no seio de uma família cristã para me preparar à graça da chamada ao sacerdócio. Depois, alguns anos mais tarde quando ainda adolescente, uma pergunta de meu pároco, lá no Rio de Janeiro, levou-me a dar mais atenção à idéia de ser padre que já me passara pela mente. Lembro-me que caminhando com o pároco para dar assistência religiosa a um enfermo, ele me perguntou improvisamente: " você nunca pensou em ser padre?" Respondi que sim mas tive vergonha de dizer para ele ou outra pessoa.
A partir daí fui conhecer o seminário, acompanhado por meu pároco que hoje já está na eternidade. Rezo por ele e agradeço a Deus, ao Espírito Santo por ter inspirado a ele colocando em seus lábios aquela inquietante pergunta que exigiu de mim discernimento através da oração e do diálogo com a Igreja. Quase um ano após ingressei no seminário e Deus Pai, no Filho Jesus e pela ação do Espírito Santo me conduziu até aqui: Bispo, servo de Jesus e de seu povo.
Jornal do Dia – Como o senhor se sente hoje, comemorando 30 anos de evangelização?
Dom Lessa – Sinto-me realizado, feliz, com o coração agradecido a Deus. "A minha alma engrandece o Senhor e meu espírito exulta de alegria em Deus meu salvador" por tanta misericórdia para comigo, diante das minhas fraquezas e por inumeráveis graças e bênçãos derramadas sobre minha pessoa e por Jesus presente em mim e entre tantos irmãos sobre a Igreja. Agradeço a graça do carisma de Chiara Lubich, carisma da unidade que me faz viver a Igreja do céu na Igreja da terra, isto é, Deus entre nós, Jesus. Agradeço o amor de Deus manifestado pelo carinho, pelo afeto, pela consideração para com o Pastor através da oração, da presença nas celebrações, das atenções e palavras de apreço, de tantos e diversos gestos outros de Fé, amizade e de reconhecimento. Experimento o cêntuplo, de que fala Jesus, em pais, mães, irmãos e alegria da vida de Deus.
Jornal do Dia – Como o senhor avalia o avanço dos evangélicos atualmente?
Dom Lessa – Positivo enquanto anuncia Jesus e dá uma consciência da salvação por Ele realizada e oferecida ainda hoje à humanidade. Negativa e escandalosa para o mundo pela fragmentação do cristianismo em milhares de "Igrejas" fundadas pelos homens, indo contra o pedido de Jesus ao Pai: "Que todos sejam um para que o mundo creia". Cada uma com seu corpo de doutrina sem a plena abrangência da verdade Bíblica. A consequência desta divisão é para muitos o indiferentismo religioso e até mesmo para outros o ateísmo.
Jornal do Dia – Qual o papel da Igreja Católica hoje na sociedade?
Dom Lessa – O papel da Igreja católica é continuar a obra da salvação de seu fundador, Jesus. É iluminar, a partir da pessoa de Jesus, de sua pregação e de seus gestos de amor, a caminhadados cidadãos e cidadãs nos desafios do mundo atual. A Igreja anuncia o Reino de Deus, já presente entre nós, Reino que alcançará sua plenitude na Eternidade. A Igreja tem consciência de que a pessoa humana é revestida de uma dignidade preciosa porque "criada à Imagem e semelhança de Deus". Tal dignidade é tão valiosa que mesmo após o pecado, o Pai nos deu o seu Filho Jesus que se ofereceu em Sacrifício para resgatá-la e conduzi-la à vida Eterna feliz, à salvação. A Igreja, como Jesus, tem a missão de iluminar a sociedade sobre quem é o homem, segundo Cristo, para onde vai, qual seu fim último, fazendo ver sua grandeza e dignidade.
Daí decorre também os preceitos da verdade, da justiça, da fraternidade e nesses alicerces se desenvolve uma ordem social onde todos e, sobretudo os desfavorecidos, os mais pobres possam ser contemplados.
Jornal do Dia – O que mais assusta o senhor hoje em dia?
Dom Lessa – O mundo evoluiu na busca dos valores espirituais, na ciência, na tecnologia, etc. Basta ver a busca de Deus da sociedade consumista de hoje. Tem tudo, mas falta tudo porque não encontrou Deus, não encontrou Jesus. O coração humano saciado de bens materiais, não se sente satisfeito porque só Deus, em Cristo Jesus, pela ação do Espírito Santo, pode saciá-lo, como bem disse Jesus : "Todo o que bebe dessa água, terá sede de novo; mas quem beber da água que eu darei, nunca mais terá sede: porque a água que eu darei se tornará nele uma fonte de agua jorrando para a vida eterna." ( Jo 4, 13-14 ) O que mais me assusta é a perda dos verdadeiros valores, os valores cristãos pelos quais se deveria alicerçar a construção da pessoa humana e da sociedade. Como consequência nos deparamos com a droga que se alastra por todos os cantos, destruindo pessoas e trazendo sofrimento às famílias, a violência, a falta da ética, a agressão à vida humana, o aborto, os diversos tipos de assassinato, a apropriação para si e para certos grupos do que seria para o bem comum. No âmbito da família: o egoísmo de pais que em nome de uma pretensa felicidade pessoal, desfazem o lar e deixam os filhos na insegurança e na solidão quanto ao amor de pais vivos que por natureza do amor familiar e da missão deveriam estar unidos, juntos, pelos filhos.
Jornal do Dia – Qual experiência o senhor traz para a evangelização?
Dom Lessa – A experiência de Fé no amor de Deus, amor que gera a unidade e a comunhão que nos impele a caminharmos juntos à Luz da Palavra de Deus. No espírito de comunhão e participação, renovaram-se algumas pastorais e implantaram-se outras como resposta às necessidades das comunidades. Também no mesmo espírito evangélico a valorização e animação dos movimentos, comunidades novas com seus carismas, etc. E para melhor levar à frente a evangelização, implantamos os vicariatos, diaconato permanente (ordenação de homens casados), Ascom (Assessoria de Comunicação da Arquidiocese), construímos o Seminário Maior para formação de novos presbíteros, encaminhamos muitos padres à especialização com mestrado e doutorado, mais que duplicamos o número de paróquias, e Deus, me deu a graça de ordenar, até agora, 103 novos padres para a Igreja. Mas tudo é graça de Deus, sou apenas, um servo inútil.


