Rian Santos
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Não adianta torcer o nariz para os bonecos de pé no Largo da Gente. Goste-se ou não, o trabalho de Tatti Moreno mudou a fisionomia de Aracaju.
Longe de mim, a intenção de silenciar qualquer controvérsia. O cinzel de um artista sergipano teria, sim, toda a propriedade do mundo para talhar os folguedos da terrinha no horizonte aberta à vista. Conservo, aliás, uma ponta de ceticismo em relação aos reflexos lançados pela arquitetura da obra na realidade concreta dos grupos folclóricos e o espírito da aldeia. Inegável, contudo, é a transformação da paisagem. Impossível imaginar a Rua da Frente, hoje, sem as esculturas de Tatti Moreno.
O vínculo atado entre criador e criatura, tão importante, berra na obra mais conhecida do artista baiano – as doze esculturas de orixás que levitam no Dique do Tororó. Foi justamente a forte impressão que reverbera no espaço, quase palpável, derivada de um projeto desenvolvido ao longo de uma década inteira, que credenciou Tatti Moreno a interferir na paisagem urbana em diversas capitais do país. O catálogo é vasto. O escultor assina obras instaladas em espaços públicos de Salvador, Aracaju, Brasília e São Paulo.
Aracaju ainda é uma cidade carente de monumentos erguidos por quem entende do riscado, mãos dadas com a história do lugar e a disposição festiva de sua gente. Penso no caju de Eurico Luiz, por exemplo – uma feliz exceção à regra. O caranguejo em fibra de vidro, na Orla de Atalaia, as estátuas de bronze, alguns passos à frente, ao contrário, não passam de efígies dedicadas ao apetite vulgar dos turistas – não perduram na memória, não ficam.
Assim, em tributo a Tatti Moreno, é imperativo dar o braço a torcer: A criação de um espaço de convivência às margens do Rio Sergipe, obra assinada por Ezio Déda e bancada pelo Museu da Gente Sergipana, com esculturas do artista baiano, transformou Aracaju para sempre.


