Emmanuel Vasconcelos e o Grupo Renantique

 * Anamaria Pitangueira

Como é triste não poder confiar na consciência e discernimento do ser humano! Basta um pequeno deslize para que alguém seja imediatamente lacrado, cancelado, colocado à margem, como se uma vida inteira de dedicação e contribuição simplesmente deixasse de existir. É como se um único erro tivesse o poder de apagar todo um legado.
Foi exatamente isso que aconteceu com Emmanuel Serra e o seu grupo Renantique, que há 28 anos vinha promovendo concertos de música medieval; o único grupo com essa proposta artística no Estado de Sergipe. Durante quase três décadas, Emmanuel e seu grupo ofereceram arte, cultura e beleza ao povo sergipano, mantendo viva uma tradição musical riquíssima e rara. E, no entanto, bastou uma única falha, um erro na forma de se expressar, para que tudo desmoronasse.
Ninguém está dizendo que ele estava certo. De fato, suas palavras foram infelizes, e reconhecidamente equivocadas. Mas ele se retratou. Pediu desculpas. Assumiu o erro. E, mesmo assim, foi jogado aos leões, como se estivesse além de qualquer redenção. Será que não estamos vivendo tempos em que o linchamento virtual se tornou mais importante do que a justiça e a proporção?
Sim, Emmanuel errou. Mas será que isso anula todo o bem que fez? Toda a arte que compartilhou? Toda a história que ajudou a preservar? Não seria mais justo chamá-lo à atenção, dar-lhe a oportunidade de refletir, aprender e seguir contribuindo, agora com mais consciência?
Torná-lo alvo de uma perseguição implacável, chamá-lo de nazista, isso é não apenas exagerado, mas profundamente cruel. Emmanuel pode ter pecado na forma, mas será que suas palavras, ainda que mal colocadas, foram mesmo motivadas por ódio? Ou apenas fruto de um momento infeliz, mal pensado?
Vivemos tempos em que se prega a tolerância, mas se pratica o apedrejamento. Onde está o diálogo? Onde está a empatia? Se queremos construir uma sociedade mais justa, precisamos aprender a corrigir sem destruir, a educar sem exterminar reputações, a perdoar sem fechar os olhos, mas também sem arrancar os olhos de quem erra.
Não se trata de passar pano no erro. Mas de não permitir que o erro apague o ser humano!

* Anamaria Pitangueira é compositora

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