Kátia Azevedo
katiaazevedo@jornaldodiase.com.br
Pesquisadores de Sergipe, Bahia, Alagoas, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, São Paulo, Honduras e Porto Rico participam durante esta semana do 2º Encontro Nordestino de Espeleologia, realizado pela Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE) no período de 12 a 14 de janeiro na Didática VI na Universidade Federal de Sergipe, no município de São Cristóvão.
Com o tema o Sistema Cárstico e o Ser Humano, o evento tem como objetivo discutir a conservação das cavernas naturais a partir de pesquisas acadêmicas e envolvendo de ações educativas.
O evento ocorre 17 anos após o 1º encontro nordestino realizado na cidade de Ubajara/Ceará, organizado pelo Instituto Cearense de Ciência Naturais (ICCN). "Objetivo do encontro é uma oportunidade para fomentar tanto as pesquisas cientificas sobre a espeleologia regional, como uma forma de intensificar a troca de experiências e informações sobre o tema na região nordestina e a convivência envolvendo o assunto", diz o geógrafo Heleno Macedo, integrante da comissão organizada do evento.
Heleno destaca a importância das cavernas em relação à diversidade cultural nordestina e lembra sobre os estudos que são desenvolvidos no estado. "Sergipe possui oficialmente cerca de 51 cavernas, mas através de pesquisas realizadas pela Universidade Federal de Sergipe já foram catalogadas 56", informa.
Cavernas – Em Sergipe, as cavernas são distribuídas em dez municípios: Laranjeiras, Nossa Senhora do Socorro, Maruim, Divina Pastora, Japaratuba, Itabaiana, São Domingos, Simão Dias, Tobias Barreto e Canindé de São Francisco. Laranjeiras é o que tem maior concentração destes espaços naturais no estado, possuindo 16 cavidades ao todo.
Com o intuito de conservar e preservar as cavernas do Estado, uma ONG denominada Centro da Terra- Grupo Espeleológico de Sergipe vem desenvolvendo pesquisas nas cavernas sergipanas, realizando diversas ações de conservação e preservação das mesmas, bem como os ambientes externos associados a estes espaços.
"Os estudos mostram a importância das cavernas para o homem, considerando que as mesmas representam uma forma de reconstituição da história do ser humano, além destes ecossistemas serem necessários para o meio ambiente. Estudar estes espaços é olhar o passado para entender o presente", ressalta.
O pesquisador, doutorando em Geografia pela UFS, é um dos autores do trabalho "Considerações Sobre o Ambiente Cárstico em Sergipe", publicado no 9º SINAGEO – Simpósio Nacional de Geomorfologia, que trata sobre as alterações ambientais sofridas por estruturas naturais como as cavernas.
"No Brasil adotou-se o termo carste, e entende-se por paisagem cárstica qualquer área onde a rocha existente sofreu específicos processos de dissolução, muitas vezes de forma arrasadora, criando feições que podem indicar o subsolo", ressalta.
Ele destaca que de acordo com pesquisas realizadas, os ambientes cársticos perfazem aproximadamente 12% da superfície do globo terrestre, em sua maioria sobre rochas carbonáticas e que 5 a 7% do território brasileiro são ocupados por esse tipo de relevo, destacando-se o Parque Estadual turístico do Alto Ribeiro em São Paulo, a Serra do Caraça, o vale e o Vale do rio Peruaçú em Minas Gerais, as Grutas de Iraquara (Chapada Diamantina) e a Toca da Boa Vista na Bahia e a Chapa do Guimarães no Estado do Mato Grosso.
O pesquisador ressalta também que uma parte desse tipo de formação passa despercebida na maioria do território brasileiro e que o conhecimento sobre a abrangência desse tipo de ambiente em Sergipe é incipiente quando comparado com outros estados do território nacional.
Estudos em Sergipe
Os estudos apontam que em Sergipe, o início do reconhecimento da morfologia cárstica ocorreu com as indicações de cavernas realizadas por Branner (1888) nos municípios de Divina Pastora (caverna do Urubu) e Laranjeiras (caverna da Pedra Furada). No século XX, os registros continuaram com a publicação do IBGE (FERREIRA, 1959) e as explorações de José Augusto Garcez na década de 1970 (PROUS, 1992).
Conforme pesquisas sobre o tema, o ambiente cárstico em Sergipe está situado na região do Supergrupo Canudos, constituído pelos grupos Estância e Vaza Barris. O calcário e os dolomitos (carbonato duplo de cálcio e magnésio) de origem sedimentar são rochas carbonáticas distribuídas na Bacia Sedimentar de Sergipe, no contexto do Grupo Sergipe, diferenciadas nas formações Cotinguiba e Riachuelo.
Além das pesquisas acadêmicas, as cavernas também são cadastradas em bases de dados nacionais, a exemplo do Cadastro do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas/ICMBio e do Cadastro Nacional de Cavidades da Sociedade Brasileira de Espeleologia (CNC/SBE) como uma forma de monitoramento da sua conservação.
Uma das grandes preocupações são o desmatamento e queimadas do entorno das cavernas, além da deposição do lixo, pichações e depredação que acabam comprometendo o esta de conservação desses espaços naturais. As pesquisas apontam que algumas atividades econômicas industriais também causam agressões de maior proporção a exemplo dos grandes desmatamentos para plantação de cana de açúcar ou a destruição total das cavernas por parte de mineradoras.
Para mudar este quadro de destruição, pesquisadores envolvidos com o tema realizam atividades de informação, conscientização e instrução para difundir os conhecimentos sobre meio ambiente, espeleologia e demais áreas correlatas que tratam do tema.
Outras iniciativas são os projetos a exemplo do "Pro Cavernas Laranjeiras" que objetiva realizar o levantamento de potencialidades turísticas associadas às cavernas, com capacitação de um grupo de Monitores Ambientais e utilização de material didático sobre o assunto. Outra experiência é a "Expedição Centro da Terra/Conhecendo as cavernas no meio ambiente", que tem como proposta realizar expedições em 10 municípios com ocorrência de cavernas, tendo a meta de levantar as principais características dessas áreas, como a flora, fauna, aspectos geológicos, considerando os atributos naturais e culturais a elas associados.
Programação do encontro
O evento será aberto com a conferência O sistema cárstico e o ser humano, com Esp. Clayton F. Lino (RBMA). Em seguida haverá a palestra A Espeleologia Organizada, com o especialista Marcelo Augusto Rasteiro, da SBE. Durante à tarde haverá a mesa-redonda Geomorfologia e Hidrogeologia em Terrenos Cársticos, com os conferencistas Heleno dos Santos Macedo (UFS) e
Daniela Dantas de Menezes Ribeiro (FAPESE), com coordenação da Dra. Márcia Eliane Silva Carvalho (UFS).
Também no período da tarde da segunda-feira, haverá a palestra Comunidades locais e o consumo da paisagem cárstica no Estado de Sergipe, com o palestrante Jorgenaldo Calazans dos Santos (IFS). A programação completa pode ser acessada no link http://www.cavernas.org.br/2ene.asp


