ENTRE FANÁTICOS E DELINQUENTES

O cônsul do Chile no Rio lançou singular tese segundo a qual a delinquência inexiste quando quem a comete estiver dominado por um sentimento avassalador de fanatismo. O diplomata ¨inovava¨ a ciência do Direito, tentando inocentar os compatriotas que cometeram a insanidade de invadir a sala de imprensa do Maracanã. Eles agiram violentamente depredando e enfrentando os seguranças para, sem terem comprado bilhetes, assistirem o jogo entre a seleção do seu país e a desventurada espanhola. Em face da ação da polícia federal brasileira que os deteve e deu aos chilenos prazo para que deixassem o Brasil, o diplomata os classificou benevolentemente como torcedores fanáticos que apenas quiseram ter a oportunidade de assistir a evolução no gramado da sua idolatrada ¨roja¨, ainda que apelando para métodos pouco convencionais, ou, melhor dizendo, antissociais, todavia banalizados agora no país que os recebe e que resolveu conviver tolerantemente com a horda selvagem dos black-blocs paridos e engordados aqui mesmo.

Diante da reação indignada ocorrida a partir do seu próprio país, o diplomata mudou de tom, e passou até a elogiar a ação da polícia federal brasileira, reconhecendo que o ¨convite ¨ para que os desordeiros deixassem o Brasil no prazo, aliás, dilatado de 72 horas, ¨saiu barato¨ diante do que os fanáticos fizeram. A insólita teoria do diplomata descriminalizando os meliantes ao caracterizá-los ¨apenas¨ como fanáticos poderia desconstruir toda a ordem jurídica, dissolvendo o conceito de crime e culpa.

No Chile a Justiça que condenou o ditador Pinochet e seus sanguinários sequazes teria de pedir desculpas a todos eles, reconhecendo que eram tão somente pessoas ¨ fanatizadas¨ pelo extremismo de direita.
E de que teria valido o Tribunal de Nuremberg? Aqueles nazistas todos, criminosos de guerra levados à forca, foram somente fanáticos que, entre outros atos de mero fanatismo, mandaram para as Câmaras de Gás alguns milhões de judeus, de ciganos, eslavos e outros üntermensch, os sub-homens, na sua visão ingênua de fanatismo um tanto radicalizado.

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