Rian Santos
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O ruim de escrever sobre Cultura com a postura esnobe assumida por esta página, uma espécie de jornalismo a contrapelo, é a falta de assunto. Entretenimento, para os lados de nossas praias, sempre há de sobra. Os mascarados da Odonto Fantasy não deixam ninguém mentir. Livros que valham a pena, discos de sonoridade original, espetáculos e filmes dignos das plateias mais exigentes, ao contrário, são raros, como toda exceção à regra.
Não bastasse a matéria relativamente escassa, acrescente-se às dificuldades do ofício as limitações notáveis do escriba. Agora mesmo, acabo de interromper a redação de uma resenha sobre o disco recém lançado de Allen Alencar, a fim de realizar uma confissão. ‘Esse não é um bom verão pra nós’ roda há dias na vitrola caindo aos pedaços de minha cabeça. Quanto mais o ouço, no entanto, menos capaz me sinto de resumir a delicadeza pungente de suas canções em um artigo breve de jornal.
Deilson Pessoa, compositor de mão cheia, definiu o trabalho do amigo Allen como uma brisa boa. Eu concordo, mas não me dou por satisfeito. A lombra também bateu forte aqui em casa. De fato, o andamento arrastado de cada uma das faixas coloca o ouvinte em um estado de torpor muito prazeroso. A poesia de Allen, no entanto, áspera, rascante, acaba com qualquer barato.
Eu desisti de escrever sobre o disco, impregnado por um tipo de desencanto que passa longe de resignado. Tudo ali é contido como um vulcão adormecido, às vésperas da erupção. A passagem do tempo é uma preocupação evidente do compositor, desde o batismo do álbum. E mais eu não digo, sob pena de oferecer em um punhado de terra a altura tortuosa de um montanha.
Eu sei, as minhas palavras não têm nada de razoável. Mas, em minha defesa, o leitor foi avisado: O disco de Allen não cabe em uma simples resenha, caminha na contra mão de tudo que é frívolo, a exemplo dos artigos de jornal mais apressados.


