Terça, 16 De Julho De 2024
       
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ESTÂNCIA: PESQUISA APONTA QUE “CHICO SURDO” NÃO É O CRIADOR DO BARCO DE FOGO


Publicado em 10 de janeiro de 2024
Por Jornal Do Dia Se


Estância cultivou um costume secular de envolver fogos de artifício nesses momentos (talvez seguindo a antiga tradição de um padre polonês que costumava ter visões de anjos anotando as preces quando os fogos explodiam), também se tornou o lugar dos pisadores de pólvora cujos membros, deram por inovar, com suas cantorias, os fogos de artifício

 

* Acrísio Gonçalves
 
A história dos fogos de artifícios é muito antiga e é anterior ao descobrimento da pólvora, sendo aquele o resultado de uma experiência com pedaços de bambus verdes que explodiam ao contato com fogo. A pólvora foi descoberta mais tarde pelos povos da China há cerca de 2000 anos. 
Acredita-se que tenham sido os alquimistas chineses que a descobriram de forma acidental. Depois daí a pólvora se espalhou pelo mundo inteiro de forma gradual, passando a ser utilizada em armamentos como também nos fogos de artifícios, chegando às cidades mais distantes. 
Desde meados do século XVIII que Estância já é o principal comércio do sul sergipano e se transformando num grande pólo dos negócios. Possuindo um Porto para escoamento de sua produção e com um histórico poderio econômico, passa a dominar a partir dos anos 800 também o cenário cultural, principalmente na imprensa com o Recopilador Sergipano, inaugurador dos jornais sergipanos. Com a presença dos povos baiano, português e até alemão, estes passam a contribuir ativamente no meio social, seja como trabalhadores ou como industriais. A cidade cresce. Alguns chegam a constituir indústria poderosa como, por exemplo, a Fábrica de Tecidos Santa Cruz do final do século XIX, feita por portugueses. Sendo assim, Estância torna-se um lugar influente e plural, de gente de muitos lugares. Com forte sincretismo religioso, herança de sua base escravocrata aqui passou a coexistir a religião católica, o candomblé e mais recentemente a evangélica. Suas experiências com o cinema já nos inícios do século passado, suas artes plásticas, suas filarmônicas, seus casarios (tragicamente em face de desaparecimento), seus jornais e seus poetas, formavam um conjunto bastante representativo da sua grandeza cultural.
Dentro desse aspecto também podemos salientar suas práticas juninas manifestadas nessa festividade tipicamente religiosa. Cultivou essa gente um costume secular de envolver fogos de artifício nesses momentos (talvez seguindo a antiga tradição de um padre polonês que costumava ter visões de anjos anotando as preces quando os fogos explodiam), também se tornou o lugar dos pisadores de pólvora cujos membros, deram por inovar, com suas cantorias, os fogos de artifício. Usavam esses artistas das festas cristãs, como as do Asilo Santo Antônio e das igrejas: Rosário, Amparo e a Igreja Matriz (hoje Catedral Diocesana) para frequentemente apresentarem suas invenções. Foi o caso de João Melchíades de Santa Bárbara, famoso fogueteiro da cidade que se aproveitou da festa do Sagrado Coração de Jesus para “no quadrilátero direito da Matriz, que se achava engalanado tocou no palanque até 10 horas a Euterpe, sendo queimado algumas rodas de fogo de planta, obra do pyrotechinico sr. João da Bárbara”(A Razão 05.07.1908). Inclusive as rodas de fogo desse artista vão continuar fazendo sucesso ainda nos anos vinte. O livro Reminiscências de Manuel Rodrigues do Nascimento (o Nô Galo ou Machiavelli), nos trás outro detalhe ao relembrar a antiga festa do Cruzeiro, no Porto D’Areia, ocorrida em 1901, quando houve a participação do João da Bárbara com seu “fogo de planta” e que “era de praxe aparecer um cruzeiro por entre chamas, havendo quem batesse palmas e também quem desse assobios”. 
Os quentíssimos festejos juninos desse tempo já apresentavam batalhas de buscapés e para isso costumava-se iniciar levantando-se uma bandeira comemorativa. Estas eram hasteadas desde primeira década de 1900 para indicar o lugar das guerras de buscapés. Com o tempo a Rua da Miranga e a Rua Nova se tornaram a “praça de guerra”, principalmente nos anos de 1930, sendo dada a bandeira ao fogo vencedor.
Cidade tipicamente modista, nesse campo chamou a atenção, quando no ano de 1910, além dos buscapés e pitus “às dez horas foi queimado um barco de fogo artificial e dispersou o povo, que enchia as casas daquele bairro”(A Razão, 02.07.1910). O jornal não informa quem o construiu mas a forma em que o texto é colocado deixa transparecer que o “barco de fogo” ou algo assim já era conhecido pelo leitor em outros momentos. De fato, a força da invenção dos históricos fogueteiros na arte da pirotecnia também se fez presente cinco anos antes, em 1905, pelas mãos do ferreiro Nylo Cotias. Naquele ano esse novo artista atrairia os olhares dos populares e também do cronista e crítico estanciano, Simplício Badaró (que desaparece repentinamente desse jornal talvez por sua criticidade) ao apresentar na Rua Municipal, no dia 2 de julho de 1905, “um navio, por ele preparado, segundo as regras pirotechinicas “(A Razão, 09.07.1905). Possivelmente um “navio de fogo”, já que era ligado a artefatos pirotécnicos. Acredito que, com essa novidade tenha sido esse ferreiro e seu “navio”, o verdadeiro precursor do barco de fogo que fora queimado em 1910, ora batizado naquele tempo com o nome que se conhece hoje. Não descarto também a possibilidade de ter sido autoria do próprio Nylo. Segundo o nosso cronista esse novo artista veio se juntar aos afamados João da Barbára, José Pires e Zé Caxico. Enquanto, nas batalhas de bucapés, tinham Nô e José Amado como seus principais guerreadores. 
Simplício Badaró também passa a criticar a não apresentação de algo novo por outros mais velhos fogueteiros. Infelizmente alguns jornais estancianos deixaram de ser arquivados ou, os que foram, se encontram incompletos. Somente mais tarde em 30 de junho de 1929, volta a fazer citação o Jornal A Razão, ao informar que no dia de São João, “houve à noite animado barco de fogo e automóvel também de fogo nas ruas”. Porém, no ano seguinte, os espetaculares fogueteiros lançam outro modelo de fogo, pois, “na noite de 24 a Rua da Miranga se achava repleta de pessoas a fim de apreciarem um AVIÃO de fogo, que tomou o logar do costumeiro BARCO, queimado todos os anos” (Voz do Povo, 26.06.1930). Na Rua Nova, em 1933, foi a vez do “Zeppellin” “que naquelle local correu, no seio de um arame, não teve melhor exito devido ter se espedaçado de encontro ao poste de parada” (Voz do Povo, 29.06.1933). Esse mesmo jornal, já no ano de 1938, noticia que João Propheta dos Santos “fará correr amanhan, na rua da Lagoa, um interessante barco luminoso” (Voz do Povo, 23.06.1938). Registra ainda o citado jornal em 1940 um barco de fogo executado pelo “hábil artista pyrothechnico José Ribeiro”. Em 1951 é noticiado pelo Folha Trabalhista de 1º de julho que “corre um barco motorizado a busca-pés que foi uma verdadeira apoteose” e em seguida completa: “o construtor, Chico Surdo, mostrou grande conhecimento de sua arte”. Trata-se de mais um notável fogueteiro que passa a contribuir com as tradições juninas estancianas, chegando também a fazer uma bicicleta e um cavalo, ambos de fogo.
É preciso ainda entender porque Estância se tornou uma cidade tão afeita aos fogos de artifício. Mas isso parece que chegou a atrair outros centros prósperos da província como, por exemplo, Laranjeiras que em 1886 já vendia em seus armazéns bombas e dúzias de buscapés (jornal, O Horizonte, 31.05.1886). Em Santa Luzia existia Zé Fogueteiro que já nos finais de 1920 conseguia gerar a imagem de Santa Luzia ao explodir os fogos de artifícios. No entanto foi a artística Estância, aquela quem mais impressionou e que mais chegou perto do fogo justamente por viver aqui uma gente talentosa que nos parece ter sido impressionada por seu histórico Porto D’Areia, daí começando a pintar de fogo as invenções humanas, começando pela Roda. Em seguida o Navio. Depois o Barco. O Automóvel. O Avião. A Bicicleta. Por isso ao escrever esse texto preferi dedicá-lo aos fantásticos fogueteiros. Por outro lado, penso que nossos políticos e lutadores sociais e agentes culturais não cometerão injustiça à memória de seus verdadeiros inventores que, por terem brincado nas noites de São João, inseriram, como vimos, desde os inícios dos anos 900 um legado que os atuais não deixarão se apagar: o Barco de Fogo.
 
* Acrísio Gonçalves, professor de Matemática da Rede Pública, Radialista e Pesquisador
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