Kátia Azevedo
As próximas turmas dos cursos de Dança e Teatro da do Campus das Artes da Universidade Federal de Sergipe (UFS) em Laranjeiras, deixarão de ser noturnas. A medida foi adotada como uma forma de amenizar os riscos de assaltos contra os estudantes.
Há muito tempo, os estudantes vêm denunciando a falta de segurança no local. Por conta do problema, muitos alunos deixaram o município. O clima de tensão toma conta principalmente das repúblicas, alvo constante de assaltos. A presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFS, Jessy Daine, relata que os estudantes chegaram a se reunir com representantes da administração municipal e da Secretaria de Segurança Pública (SSP) no ano passado, mas as medidas reivindicadas pela classe estudantil não foram atendidas.
"Naquela época, a SPP informou que as estatísticas de violência na cidade não acompanhavam os registros de boletins de ocorrências. Além disso, foi alegado que havia pouco efetivo par haver o deslocamento de equipes policiais para o campus. As rondas noturnas colocadas naquele período não duravam mais do que uma semana. Da parte da prefeitura também não houve nenhuma medida adotada. O diálogo tem sido difícil", revela.
A estudante salientou que a decisão do poder público em adotar medidas de segurança no local não se resume somente à presença da polícia, mas a um conjunto de ações estruturais que mudem o cenário de violência e beneficiem toda a população que reside na cidade. Ela criticou a ausência de políticas públicas que atuem no enfrentamento ao problema.
"Um campus universitário corre o risco de fechar por causa da falta de segurança na cidade", exemplifica. Sobre a mudança, a líder estudantil informou que a nova medida não afeta quem já está concluindo os cursos. Ela destacou que alguns alunos já estão tendo aulas em Aracaju, com oito residências estudantis transferidas para a capital sergipana. Além de Dança e Teatro, o campus possui os cursos de Arqueologia, Arquitetura e Museologia.
Em maio do ano passado, a reitoria da UFS suspendeu temporariamente as aulas e outras atividades do Campus das Artes diante das situações de insegurança na área. A decisão foi tomada após o protesto estudantil , quando cerca de 200 alunos ocuparam o "Quarteirão dos Trapiches", onde funciona a instituição.
Naquele momento também foi decidido, entre outras medidas, a retirada de estudantes de outros estados que moravam em repúblicas espalhadas pelo centro de Laranjeiras e bairros próximos, com alocação de imóveis em Aracaju.
A alternativa foi garantir a comunidade acadêmica uma proteção diante do quadro de risco. Outras ações de Assistência Estudantil e apoio psicológico também foram providenciados para os alunos com a intenção de minimizar os danos gerados pelo avanço da violência.
As mudanças no campus ocasionadas por causa pela falta de segurança chegaram a ser discutidas entre a reitoria da UFS e o governador Jackson Barreto (PMDB) no ano passado, que intermediou uma reunião com o prefeito da cidade, José de Araújo Leite Neto, o "Juca de Bala" (PMDB).
Na ocasião, a administração da UFS avaliou que a manutenção dos estudantes no município de Laranjeiras estava condicionada a ações firmes dos órgãos responsáveis pela segurança pública, já que os alunos têm sido ameaçados e agredidos de diversas maneiras por assaltantes, mas a proposta de uma parceria para a efetivação de medidas coletivas entre a universidade e o poder público não avançou.
A falta de controle da situação resultou em protestos dos estudantes. Um dos mais marcantes foi em maio de 2014, depois dos rumores de que uma jovem de 19 anos, aluna do curso de Dança, teria sido encontrada com as roupas rasgadas e marcas de agressões em uma rua próxima à universidade.
A universitária foi sequestrada por pelo menos três homens que a abordaram à saída da república onde mora e obrigaram-na a entrar em um carro. Ela teria sido abandonada no local depois de ser agredida e ameaçada de morte durante cerca de 30 minutos.
O DCE da UFS também afirma que houve o sequestro contra a estudante e aponta a hipótese de as ameaças teriam sido motivadas por pessoas da própria cidade de Laranjeiras, que estariam descontentes com as manifestações já realizadas pelos estudantes em prol da segurança na cidade. Na ocasião, a Prefeitura local chegou a desmentir a ocorrência, afirmando em uma nota que a vítima teria passado mal próximo à igreja matriz.
Sobre a atual situação de segurança na cidade, a SSP informou que novo efetivo está sendo direcionado para atuar no município. A reportagem tentou falar com a assessoria de comunicação da prefeitura de Laranjeiras, mas não conseguiu. O Campus, inaugurado em 2005 pelo então presidente Luís Inácio Lula da Silva, tem hoje cerca de 1 mil estudantes.

