Gabriel Damásio
Um novo protesto foi realizado ontem à tarde por amigos e familiares do estudante David Philip Motta Santos, 17 anos, morto na semana passada após ser baleado por um soldado da Polícia Militar, no Conjunto Marcos Freire II, em Nossa Senhora do Socorro (Grande Aracaju). Cerca de 100 pessoas se concentraram em frente à Assembleia Legislativa, na Praça Fausto Cardoso, centro de Aracaju, com cartazes, faixas e camisas brancas personalizadas com a foto do jovem morto. Em coro, eles pediam justiça contra os responsáveis pela tragédia, além de reafirmar que a vítima era inocente.
O protesto era acompanhado pelo pai de David, o cabo da PM Djalma Lima Santos, e pela mãe, Vanusa Mota Santos. Ele foi marcado para acontecer justamente no ponto final de outra passeata, convocada por associações de classe da PM e do Corpo de Bombeiros. Apesar da proximidade, não houve problemas e os dois protestos aconteceram lado a lado, pacificamente. "Não tem conflito, não tem discussão, foi tudo tranquilo. Eles estão lutando pelos seus direitos e nós estamos lutando por justiça", resumiu Djalma.
Já a mãe do rapaz informou que o inquérito da Polícia Civil sobre o caso já está adiantado e que tanto ela quanto o pai e um dos tios já foram ouvidos formalmente pela delegada Thereza Simony Nunes Silva, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). O adolescente de 17 anos conhecido como "Leozinho", que dirigia a motoneta e transportava David na garupa, prestou depoimento anteontem à delegada e chegou a fazer, com a delegada e sua equipe, o mesmo trajeto que percorreu com o estudante na tarde do dia 11. "Ele falou toda a verdade, fez todo o percurso que ele fez da minha loja, onde ele apanhou meu filho, na Rua 23, até a Rua 18", disse ela.
Vanusa diz também que outras pessoas testemunharam toda a dinâmica da ação da equipe de policiais da Companhia de Radiopatrulha (CPRp) que seguiu a motoneta e ordenou que os rapazes parassem – "Leozinho" avançou e um dos PMs atirou, acertando a cabeça de David. No entanto, segundo ela, estas testemunhas estão com receio ou medo de ir prestar depoimento à polícia, pois acreditam que podem sofrer represálias ou intimidações de colegas dos policiais envolvidos. "No momento em que aconteceu tudo, um dos policiais olhou para o rosto de uma das pessoas que viu tudo, e disse: ‘Você não viu nada!’. E aí, as pessoas estão com medo, por se tratarem de policiais, e tudo mais. Por isso elas não querem ir contar o que sabem", disse Vanusa.
Vanusa também negou a afirmação do Comando da PM de que "Leozinho" estaria foragido do Centro de Atendimento ao Menor (Cenam), bem como a alegação de que um dos jovens estaria armado e teria tentado atirar contra os policiais que os abordaram. "Nenhum dos dois estava armado, nem o Leozinho e nem o meu filho, que nunca andou armado e nunca se meteu em coisa errada", reafirmou ela, acrescentando que o adolescente se apresentou sem advogados e "contou toda a verdade". "Ele não está foragido. Ele já esteve detido na Usip por assalto, mas já pagou, não deve mais nada. E o meu filho é totalmente inocente", assegura ela.
Ainda de acordo com a mãe de David, algumas viaturas da PM têm passado com frequência pela porta da residência da família, procurando criar um clima de intimidação. "A polícia não para de passar na minha porta, direto. O Choque, quando passa, eles erguem a arma pra fora, põem a mão no fuzil…", disse ela. A Corregedoria da Polícia Militar abriu um inquérito interno para apurar a morte de David e a conduta dos policiais no caso. Os envolvidos foram afastados do serviço de rua e estão sob tratamento psicológico. "A Polícia pôs psicólogo para eles, mas não procurou a gente em nenhum momento", criticou Vanusa, informando que a assistência psicológica e social à família está sendo prestada pela Prefeitura de Socorro.


