* José Paulino da Silva
Na semana que antecedeu a Copa do Mundo de Futebol a revista "Isto è dinheiro" publicou uma entrevista com um mega empresário do futebol, o mineiro Wagner Ribeiro reeditada pelo Jornal da Cidade (edição de 9 de junho). O entrevistado, ao falar dos empresários e dirigentes do futebol, afirma taxativamente: "Ética no futebol é utopia. Cada um está em busca de seus próprios interesses. E não é só no Brasil que isso acontece. Na Europa é muito comum." Segundo informação da matéria jornalística Wagner Ribeiro foi quem negociou a transação de grandes jogadores brasileiros, entre eles Robinho, Kaká, Neymar, para clubes europeus movimentado cerca de seiscentos milhões de reais. Portanto não se trata de um Zé qualquer. É alguém bem sucedido no ramo dos esportes como "negócio".
O futebol enquanto esporte é uma arte que depende da habilidade, inteligência, criatividade, mas também do condicionamento físico e psicológico dos vinte e dois atletas dentro das quatro linhas do campo. Um esporte que se aproxima da arte que, se bem executada, torna-se um belo espetáculo que sempre despertou a atenção de milhares de espectadores. Esta prática esportiva é sujeita a um conjunto de regras e como atividade humana, supõe valores e padrões de comportamento ético. Podemos dizer que a prática esportiva do futebol (cujos "artistas" em sua grande maioria provêm dos extratos mais pobres da população e que preza a ética) é um valor da sociedade moderna que merece ser preservado, praticado e aperfeiçoado. É um bem que deve estar acessível a todos como forma não só de lazer, mas como prática esportiva que pode desenvolver, além dos benefícios físicos, valores como disciplina, trabalho em equipe, respeito pelo outro…
Quando um grupo de usurpadores se apropria deste bem, e por "interesse próprio" o manipula através de negócios escusos, agindo "sem ética", abre espaço para um encadeamento de ações danosas à vida em sociedade: sonegação, corrupção, desvio e lavagem de dinheiro, desrespeito à legislação trabalhista.
Cometem crimes que não poderiam ficar impunes perante o ordenamento jurídico e político que dá sustentação à sociedade atual. Além do mais, dão péssimo exemplo a outros setores da população estimulando-os a também agirem sem ética. Que modelo de comportamento a inexistência de ética no futebol aponta para milhões de jovens que sonham em ser jogadores de futebol? Ou mesmo para os povos que tem o futebol como um dos componentes de sua cultura? (Nem precisa dizer que estamos entre eles)
No momento em que inexiste ética no futebol, também não existirá respeito à maioria da população dos países que sediam uma Copa do Mundo. Realizam-se gastos gigantescos com a infra-estrutura do evento como a construção de estádios, sem levar em consideração o atendimento às necessidades prioritárias da população. A movimentação de bilhões de recursos financeiros fica para o bolo de poucos. Tudo isso é conseqüência da falta de ética no futebol. A conduta cínica que para justificar negociatas encara a ética no futebol como utopia, uma quimera, uma ilusão, acarreta conseqüências desastrosas para a vida de milhões de seres humanos. Uma triste realidade que revela o estágio de decadência e de cinismo a que chegou uma pequena parcela daqueles que detém o poder econômico e tentam impor para o resto do mundo as regras do capitalismo selvagem. Para eles, não apenas o futebol e seus profissionais podem ser aviltados e manipulados a seu bel prazer como objetos descartáveis, mas também milhões de torcedores. Pouco importa. O lucro justifica qualquer transação, mesmo a mais espúria.
É contra este tipo de pensamento e esta prática corrosiva, nefasta que devemos lutar com a melhor arma de que dispomos: nossa consciência e atitude cidadãs, nossa fé no ser humano como ser ético que alicerça qualquer posicionamento. O comportamento ético é uma senha da humanização do "ser homem" em seu estágio de civilização elevada. Esta é uma lição que aprendi como aluno de filosofia e a transformei numa bandeira de luta como cidadão e educador.
Uma bandeira que cada um a seu modo, pode levantar com a mesma convicção e alegria que agita a bandeirinha nacional quando um jogador brasileiro balança a rede do time adversário.
* José Paulino da Silva é Doutor em Filosofia e História da Educação


