Tchapas e DjFat: Uma nova cena Serigy (Divulgação)
“Imaginem as panelas sendo quebradas.”
Publicado em 13 de fevereiro de 2025
Por Jornal Do Dia Se
* J. Victor Fernandes
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Aldir Blanc virou lei, depois virou plano nacional. Mas o Brasil segue sem conhecer o Brasil. Muitas vezes essa estrofe ecoa em minha mente quando penso na arte aracajuana.
Vou falar apenas da capital, mas é certo que Sergipe não conhece Serigy. Faço esse recorte da terra dos cajus e papagaios para não me apropriar do protagonismo alheio e de enredos completamente apartados da beira do Rio Sergipe. Sempre defendi que é temerário falar de toda uma cena partindo do “eucentrismo” histórico da capital. Trocando em miúdos: é impressionante como a gente não se conhece!
O saudoso Ismar Barreto afirmou na canção Viver Aracaju que “a gente sai, sem ter aonde ir”. Décadas depois, essa colocação tão nossa ainda ecoa nas mesas dos botecos e bares, nas rodas, nas famosas “bolhas”.
Peço licença para discordar, mas reconheço que é preciso disposição para tanto. O desbloqueio dessa dimensão está ligado à forma de se consumir arte amalgamada nos seres da aldeia. Então, há de se indagar: o sujeito procura o novo com a expectativa de ser agradado? Busca um espelho naquilo que consome, que sempre consumiu, que herdou para consumir? É preciso sair da ilha para ver a ilha, é preciso sair da bolha para ver a bolha.
O novo, pasmem, é novo. Deve surpreender minimamente o arcabouço que o espectador carrega, tem a provocação ao estabelecido como verve existencial inerente. Diferente disso é tradição, é continuidade, e, convenhamos, nosso povo adora esse viés genealógico – da terra, minhocas.
Entre um hiato de disposição e outro, me proponho à descoberta para dirimir minha cota de mea culpa. Não me esquivo da minha parcela de “da terra”. Na última sexta-feira, estive no Bacamarte Stúdio Pub, uma cena que se constrói na zona norte sem dever nada a ninguém, um multiverso de possibilidades que vem dando vez a inúmeras bandas desconhecidas daqueles que se dizem e se veem como todo o underground da cena, ou toda a cena. Lá, no estúdio de gravação, Tchapas e Dfatjay entoavam uma faixa que dizia: “Imaginem as panelas sendo quebradas.” Imaginem.
Já não bastasse a sexta-feira – haja disposição! -, passei marcha no sábado e fui ao Taberna Rock Bar assistir, novamente, a uma galera que se intitula Nova Cena. E são mesmo. Bandas como GuardaMar e Seu Psiquê, formadas por adultos com produtos musicais extremamente elaborados, bem produzidos, com shows muito bons. Sim, adultos, cada dia menos jovens – os anos passam para todos. São a nova cena porque inovam. Inovam, inclusive, em um ponto que deveria ser basilar: união. Eles se mostram com uma coesão de grupo, com público que se interconecta e shows coletivos.
A capital não mais ostenta cajueiros, tampouco araras e papagaios. É bem possível que o jovem aracajuano, de norte a sul, ávido de descobertas, só tenha consumido suco de caju de caixinha, com apenas 3% de suco da fruta. Mas é 100% real que existe uma nova cena para ele descobrir.
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* J. Victor Fernandes, produtor cultural e escritor.