* Anderson Bruno
Nunca li ‘Meu Pé de Laranja Lima’. Ele foi lançado em 1968 por José Mauro de Vasconcelos. Segundo a classificação do famigerado "wikepédia", o livro é um "romance juvenil". Fui assisti-lo por achar ser uma produção promocional em virtude da proximidade do dia das crianças. Pra mim era de cunho "infantil" o gênero narrativo da trama. Enganei-me. Trata-se de uma produção com aura e ambientação um tanto adulta.
Sua adaptação cinematográfica carrega o mesmo nome: ‘Meu Pé de Laranja Lima’ (Marcos Bernstein, BRA, 97 min, 2012). A fotografia de Gustavo Hadba transmite muito essa informação. O interior da casa de Zezé, nosso personagem principal, está sempre escuro. Um lugar tenso, triste, de solidão. A carga emocional negativa dessas imagens revela-se na psique de nosso menino. Adicionada a essa informação, tem ainda a figura paterna. Um homem bêbado, ausente e omisso enquanto pai bem como os sentimentos gerados como tal.
As cenas externas possuem uma fotografia que privilegia a luz solar. Toda hiperatividade de Zezé está encenada nesses momentos. Uma verdadeira peste, como dizem. Suas rebeldias eram dignas dos mais severos castigos. Em duas cenas em especial o teor de violência, física, verbal e psíquica é tamanha, que pensei este ser um filme direcionado ao público adulto. Nem ao juvenil e nem ao infantil, como anteriormente pensado.
Outro ponto ruim está na exploração do pé de laranja lima do título. Ele funciona como uma espécie de amigo imaginário de Zezé. É uma personagem de extrema importância. Ela é uma catalisadora da infância que ainda persiste nessa criança. No filme há uma distância emocional entre eles que incomoda. A planta ali é um mero ser inanimado. Por mais que o menino brinque e converse com ela, não dá para acreditar nessa lúdica troca de amizade. Não transmite interação. A magia dessa parte do livro, pelo menos nesse longa, não vinga.
É comprometedor para o filme. Numa estrutura tão densa, um dos pontos mais tenros da infância do menino está retratada aqui. Se sua concepção literária não é consumada no filme, sobrou apenas o núcleo do português Manuel. Interpretado por José de Abreu sua personagem acaba por ser a representação de um pai para o garoto. Uma construção um tanto irregular. Logo no início da produção ele aparece como a um ser intocável. É o homem que todos na cidade conhecem, mas vive reservado. Um ser intrigante. A direção de arte até reproduziu um carro antigo para ser seu veículo. Mais uma característica de singularidade para esse papel.
De início ele aparece como a um homem perigoso aos olhos das crianças. Zezé sentiu na pele sua ira. Nesse momento os planos mudam por completo. A lente exalta, num close, o tamanho das ameaças feitas pelo português a Zezé. Seu rosto se distorce numa careta e sua voz fica grossa como a de um monstro. Um recurso amador utilizado de maneira gratuita e sem necessidade. E sua rabugice fica por aqui! Não se vê a mesma coisa em nenhum outro momento do filme. No decorrer da produção, Manuel toma gosto pelo menino ficando seu amigo. Uma relação construída de forma distante e fria. Não há química entre eles. A intenção das personagens ficou clara. Mas a harmonia dramática ficou a desejar.
A falta de malícia do ator-mirim João Guilherme Ávila não transmite a hiperatividade endiabrada de Zezé. Sua maior falha. Em compensação os cenários mineiros dão, na sua essência bucólica, o grau de inocência necessária à atmosfera da história.
* Anderson Bruno é crítico audiovisual.


