Irineu Nery: O anjo bom do Apicum Merem, São Cristóvão.

Everaldo Pinto Fontes, gaspeu

O anjo Bom do Apicum Merem nasceu em 1º de novembro de 1900 e faleceu em 13 de setembro de 1966. Foi reconhecido por muitos como uma das pessoas mais caridosas na cidade. Só no Apicum Merem, tinha mais de 50 afilhados, sem contabilizar a Colônia Miranda, Arame, Rita Cacete, Colônia Pintos e adjacências, até Aracaju e Itaporanga D’Ajuda. Senhor Irineu viveu para ajudar os mais humildes e construiu uma casa de repouso com capacidade para cinco idosos no Apicum Merem.
Em 23 de agosto de 1973, na gestão do prefeito Cledivaldo Oliveira Santos, foi aprovada na Câmara de Vereadores da cidade de São Cristóvão a Lei n.º 08, que rebatiza como Avenida Irineu Neres a antiga Apicum Merem. Segundo o ex-vereador José Izaias Cruz, morador da comunidade, o senhor Irineu Neres era um homem trabalhador, muito querido, caridoso, religioso, conhecido e de uma família numerosa aqui na região do Apicum Merem.
Senhor Irineu Neres era salineiro , cuidava dos viveiros de peixes, além de agricultor e comerciante. Ele era responsável pelos viveiros e pelas salinas de Seu Baltazar Mandarino. Era também responsável pelas terras de seu Baltazar, onde plantava macaxeira, batata, inhame, banana e frutas variadas. Dono de sete casas no Apicum, construídas de parede e meia, para aluguel onde lhe rendia uns trocados. Não existia esgotamento sanitário naquele tempo, as casas possuíam banheiros coletivos. Ele mesmo fazia questão de realizar a limpeza. A humildade que circundava esse senhor tranformava-o em respeito e carinho com quem o convivia. Tinha uma área de terra que começava vizinho ao Colégio Estadual Luiz Guimarães até o antigo matadouro da cidade. Neste terreno ele cultivava canas para ser vendida no comércio local. Posteriormente montou um comércio com Nivaldo Araújo. Nivaldo foi criado por ele e viveu a vida toda com ele, só depois de casado se separaram. O comércio funcionou em frente a Zé de Fulô, vizinho a seu Bibi. Negociava farinha, arroz, feijão, milho e cereais.
Religioso e adepto de Santo Antônio seu Irineu Nery doou um terreno próximo a sete casas para a construção da igreja da comunidade do Apicum. Ele tinha construído um nicho no terreno em frente a casa onde morava, as pessoas se reunião para rezar. Vizinho ao nicho morava a professora Cristina que era evangélica. Existia um coqueiro que estava preste a desabar sobre o nicho. Ele foi falar com a Cristina sobre a situação do coqueiro. Ela era evangélica e fez pouco caso. Daí ele doou o terreno para construção de uma igreja católica que pudesse reunir toda a comunidade.
Seu Irineu tinha um irmão por nome Castelo e outro chamado Avelino. Por ser caridoso e comovido com seu sobrinho e afilhado, portador de necessidade especial, passou os seus benefícios para que, em caso de morte, o sobrinho e afilhado pudesse usufruir desses direitos. Ele fazia muita caridade com o povo do Apicum e de toda cidade. Doava parte dos alimentos que plantava, como: inhame, macaxeira, batata, cana. Muitas vezes levava vários desses alimentos para que o vigário da cidade distribuísse aos pobres.
Ele nunca foi prefeito, nem vereador e não exerceu cargo público. Mas, podemos dizer que foi o pai da pobreza do Apicum Merem. O homem bom do Apicum. Ele merecia sim uma homenagem. Era muito caridoso. Nenhuma pessoa necessitada chegava até ele sem que não estendesse a mão, sem que o acudisse. Era um homem de estatura grande e bonito. Quando falecia uma pessoa seus familiares vinham à procura de seu Irineu, ele muito solícito sempre ajudava.
Irineu Nery faleceu aos 66 anos e com problemas de coração. Quando morria uma pessoa que não tinha condições econômicas ele dava o caixão, fazia o sepultamento. Para as pessoas que viviam de esmolas, muito pobres e idosas, ele construiu uma casa de repouso aqui no Apicum. Serviu de acomodação para os desvalidos, desamparados. Alimentava-os, fazia a higiene pessoal deles, remédios e os tratavam com dignidade. Cerca de cinco idosos, era a capacidade do local. Quando falecia um deles, tratava-o de substituir por outro necessitado. Tudo isso sem nenhuma ajuda do poder público. Quando estava sem condições econômica saia pedindo nas portas do Apicum ajuda para a casa de repouso. Os moradores da região que reuniam mais condições financeiras nunca negavam porque sabia do seu trabalho e de suas intenções.
Certa feita aconteceu que ele precisava viajar para São Paulo. Precisou se ausentar por uns oito dias. Ele procurou auxilio das sobrinhas: Cocó e Zélia, disse-lhes: você Cocó e Zélia tomem conta de meus velhinhos que já eu volto. Vou passar uns oito dias viajando. Quando eu chegar e se alguns deles já tiverem morrido eu vou lhe dar uma surra porque foi você que deixou morrer de fome. Dê banho neles, faça a higiene deles e não esqueça os remédios. Agia assim com todos os idosos da casa. Tratava-os com carinho e respeito.
Quando morria uma pessoa desvalida no Apicum e redondeza ele se comprometia e realizava o sepultamento. Naquela época existia o “Caixão da Misericórdia”. O “Caixão da Misericórdia” ficava na Igreja do Rosário dos homens Pretos pendurado na parede da sacristia dentro da Igreja. Os familiares das pessoas que morriam pediam autorização ao padre para utilizarem o “Caixão da Misericórdia”, a fim de executar o sepultamento do seu ente querido. Após o funeral devolvia-se o caixão pra igreja onde seria reutilizado por outros. Seu Irineu Nery dizia em alto e bom som que esse caixão não entraria no Apicum. Achava humilhante o uso do caixão pela população. Ele mesmo fazia o enterro das pessoas e mandava seu Batur, um antigo marceneiro, fazer o caixão. Pagava o caixão e doava à família realizar o sepultamento. Algumas pessoas, de boa vontade, naquela época, que tinha melhor condição econômica, dizia: seu Irineu tome aqui uma quantia para ajudar com o caixão. Porque sabiam que ele não era uma pessoa de grande posse econômica.
Na hora do enterro, se ninguém aparecesse, ele saia nas portas das casas. De porta em porta. Era uma intimação. Convidando a todos a se fazer presente. Muitas vezes parava o caixão nas portas. “Vamos ao enterro, o caixão está esperando. Não era seu amigo?”, dizia ele. Com isso os funerais no Apicum sempre contaram com a participação de muita gente. Esta atitude fez com que até hoje os moradores do local ficassem sendo grandes frequentadores dos sepultamentos. Um ato de solidariedade e de fé cristã. Ninguém nunca viu um enterro no Apicum sair com poucas pessoas. Ele era um agricultor, comerciante, vendia farinha na feira, não era alfabetizado. Mas, todos obedeciam e respeitavam. Era impressionante o poder de liderança que exercia. O povo lhe rendia uma gratidão enorme. Pela pessoa que ele representou na comunidade a Câmara de Vereadores rendendo-lhe homenagem e resolveu colocar o nome do Apícum Merem como Avenida Irineu Nery. “Ele era muito caridoso. Não existia uma pessoa que falasse mal dele. Chegava aqui em minha casa e dizia: ó Maria do Carmo o que vai comer hoje? Oie, eu quero um prato pra fulano. Ao meio dia venho buscar. Quando sabia que a pessoa estava com fome ele procurava arranjar comida. Ele fazia isso em várias casas de pessoas conhecidos aqui no Apicum”, disse Dona Cocó.
Por várias vezes foi visto com um balde na cabeça, outro na mão com comida dentro, para dar aquele povo mais necessitados moradores na enseada, hoje Avenida São Luiz. De um coração muito grande. As pessoas achavam que ele era rico. Era confundido como rico porque gostava de fazer caridade. Certa feita chegou a minha casa e disse: Maria, tá muito ocupada? Vamos ali pra você dar um banho numa mulher que morreu. Morreu e tá fedendo, precisa de um banho. Eu saia e acompanhava ele para dar o banho no defunto. Ele agiu assim várias vezes. Quando era homem ele mesmo dava banho. Trocava a roupa do defunto. Quando era mulher ele chamava eu, Zélia e outras pessoas pra arrumar. Muito caridoso.
A mãe de Irineu Neres chamava-se Laurinda Neres. Irineu Nery não tinha filhos. Era solteirão. Vivia com a mãe Laurinda Nery. Só no Apicum ele seguramente tinha 50 afilhados ou mais. Irineu era muito católico, devoto de Santo Antônio. Triste dos sobrinhos que não fosse à missa aos domingos. Ele era capaz de castigar. No dia de Santo Antônio, 13 de junho, rezava novena, fazia um festão. A Caceteira de Dona Biu, o Reisado e o São Gonçalo abrilhantava a festa após a novena. De tanto caridoso que era se tivesse duas roupas uma era pra doar. Ele dizia que quando uma pessoa pede é porque está precisando. Se ele não tivesse ia comprar ou pedir a uma pessoa conhecida pra ajudar. Não tinha inimigos.
Certa feita um primo vinha fumando ao se deparar com ele tentou esconder e acabou engolindo a ponta do cigarro. Tudo isso com medo porque ele poderia dar-lhe uma bronca. Ele não gostava de cigarros. Era analfabeto, me confidenciou. Se você escrevesse o nome dele num papel entregasse pra ele, não sabia o que estava escrito, sentenciou Dona Cocó. Continuou dizendo que avó, Laurinda Nery, mãe de Irineu, teve 07 filhos, nenhum sabia ler, inclusive Irineu Nery. Ela trabalhou muitos anos na fazenda dos Sobral em Itaporanga. Vieram tudo de lá. É possível que seja descendente de escravos. Se for descendente de escrava eu não sei dizer, disse: Cocó. Que certa feita ouviu de Dona Laurinda Nery, sua avó dizer que certa feita foi viajar ao Rio de Janeiro de navio e teve que viajar no porão do navio junto com os pretos. Os brancos eram separados dos pretos no navio. Eram aqueles antigos navios que transportavam escravos.
Outro que foi criado por Irineu Nery foi o Padre Raul Borges. Ele era daqui de São Cristóvão e afilhado de Irineu Nery. Mora hoje em Itabaiana. Quando era festa de Passos a casa dele se enchia de gente. Tinha muitos compadres que moravam em Aracaju e nos arredores. Já na sexta-feira da festa de passos as pessoas começavam a chegar a sua casa. Passavam sexta-feira, sábado e domingo só voltavam na segunda-feira.

Everaldo Pinto Fontes, gaspeu, professor aposentado da Rede Municipal de Aracaju e da Rede Estadual de Sergipe.

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