João Daniel participa de audiência na Comissão de Direitos Humanos sobre trabalho escravo

Os retrocessos que avançam contra as ações de combate ao trabalho escravo contemporâneo no Brasil, mais recentemente com a edição da portaria 1.129/17 do Ministério do Trabalho, foram debatidos em audiência pública realizada na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, na tarde desta quarta-feira. O deputado federal João Daniel (PT/SE), membro da Comissão, participou do debate e lamentou a adoção dessas medidas por parte do governo federal que vêm dificultar a ação dos auditores fiscais do trabalho para resgatar homens e mulheres que trabalham em condições análogas ao trabalho escravo.

 “Temos um problema histórico no Brasil que é de terra, da concentração do latifúndio, uma burguesia que herdou grandes áreas. Da abolição até hoje tivemos grandes conquistas, mas nunca conseguimos superar essa triste história do nosso país e até hoje temos trabalho escravo”, analisou. Ele é autor do o Projeto de Decreto Legislativo nº 807/17, que susta os efeitos da portaria 1.129/17 do Ministério do Trabalho e Emprego, com intuito de proteger e preservar os direitos dos trabalhadores que vivem nessa condição e são flagrados pelos fiscais.

 A audiência teve a participação do consultor jurídico do Ministério do Trabalho, Ricardo Leite; da procuradora da República no Distrito Federal e membro da Comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo do MPF, Ana Carolina Alves Araújo Roman; do procurador do Trabalho e coordenador Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo do Ministério Público do Trabalho, Tiago Muniz Cavalcanti; da defensora pública da União e vice-presidente do Conselho Nacional de Direitos Humanos, Fabiana Severo; e do presidente do Sindicato Nacional do Auditores Fiscais do Trabalho (Sinait), Carlos Fernando da Silva Filho.

 Embora o consultor jurídico do Ministério do Trabalho tenha afirmado que acredita que essa portaria possa proporcionar um salto de qualidade no combate mais efetivo, usando a força do estado brasileiro, no combate diário ao trabalho análogo ao escravo, os demais participantes foram unânimes em avaliar a portaria como um retrocesso que restringe o trabalho de fiscalização. Inclusive, uma nota pública, assinada por várias entidades, critica a portaria, apontando diversas irregularidades presentes nela, que afrontam tanto a Constituição quanto tratados internacionais assinados pelo Brasil. Assinam a nota a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANPT), Associação Brasileira dos Advogados Trabalhistas (ABRAT), Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (SINAIT) e Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR).

 A procuradora da República Ana Carolina Roman lamentou que ainda hoje se discuta sobre o conceito de trabalho escravo e lembrou que, no ano passado, o Brasil foi condenado pela corte Interamericana de Direitos Humanos por ter violado o artigo 6º da convenção, tendo sido à época advertido que não poderia haver retrocessos. “E um ano depois estamos aqui discutindo talvez o mais importante passo dado nos últimos anos, retrocedendo no combate ao trabalho escravo”, disse. Segundo ela, a caracterização do trabalho análogo ao escravo está descrita na Constituição e em vários tratados assinados pelo Brasil que tem valor de lei e a portaria 1.129 traz uma confusão grande de conceitos.

Compartilhe esta notícia