Membrana, Nino Karvan e Turdus Philomelos – Anavontou

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O grupo de jazz percussivo Membrana viaja para a Bélgica no dia 11 de junho para uma turnê de nome "Anavantou", com o grupo instrumental belga Turdus Philomelos e participação especial de Nino Karvan. As apresentações fazem parte da programação de lançamento do filme "A Pelada", do diretor belga Damien Chemin, cuja trilha é assinada por Dudu Prudente.

Em conversa com o Jornal do Dia, Dudu explicou que o projeto estabeleceu um intercâmbio musical entre as duas bandas, que de alguma forma se utilizam das sonoridades tradicionais dos seus países em seus trabalhos e que, no show "Anavantou", farão uma mistura destes ritmos e influências distintas, resultando em um repertório inusitado, com versões belgo-brasileiras de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Hermeto Pascoal, Trio Nordestino, contando também com uma versão especial do sucesso "Quero Ver Meu Bem" da dupla sergipana Zé Rosendo e Marluce.
 "Após o processo de produção da trilha do filme, tivemos a ideia, eu e Damien, de estreitar a relação musical entre o nordeste brasileiro e a Europa em show híbrido. Daí surgiu a proposta de unir os músicos do Membrana (Brasil) e Turdus Philomelos (Bélgica), ambos com trabalhos que mesclam o contemporâneo com a música tradicional dos seus países".

Jornal do Dia – Eu imagino que a aproximação do Membrana com o grupo belga Turdus Philomelos tenha sido mediada pelo diretor do filme A Pelada, Damien Chamin. Como foi esse encontro? Fluiu tudo naturalmente? Há pontos de intersecção entre a tradição musical belga e a música popular brasileira?
 
Dudu Prudente – Damien é um diretor de extrema sensibilidade e um apaixonado por música. Conhece muita coisa do cancioneiro nordestino e o que é melhor, tem o olhar antropológico do europeu, sem condicionamentos sociais. No período em que morou em Sergipe, ele se encantou com a riqueza da cultura popular do estado. Produziu e exportou discos e documentários com sanfoneiros locais e gravou este longa "A Pelada", uma co-produção Bélgica, França e Brasil, que retrata as particularidades da nossa sociedade, numa comédia de costumes.

No período em que estive na Bélgica pra finalizar a trilha do filme, começamos a desenhar esse encontro entre músicos belgas e sergipanos, de linguagens semelhantes, porém distantes geograficamente. Esses artistas se utilizam da música raiz e do jazz como base de experimentação em seus trabalhos e, nesse ponto, ao conhecer as músicas da Turdus Philomelos, percebi sim uma grande relação com o trabalho do grupo Membrana, projeto do percussionista Pedrinho Mendonça, do qual faço parte, juntamente com o gaitista Julio Rego, e do cantor e compositor Nino Karvan, que também participa do projeto. Os músicos da Turdus são apaixonados pela música nordestina. O acordeonista da banda é fã de Zé Rosendo e Marluce, nossa querida dupla sergipana. O baterista já morou em Recife e toca zabumba e alfaia.

A Bélgica recebe muita influência da cultura da França, a começar pelo idioma do país que é o francês e sabemos que parte da cultura do nordeste brasileiro é um recorte do sul da França, da região de Toulouse. Isso, inclusive, serviu de inspiração para o nome do projeto Anavantou, que é uma apropriação do termo "En avant toute", que significa "vamos para frente" em francês. Esta frase é bastante usada nas quadrilhas nordestinas para marcar o movimentação dos dançarinos.
 
JD – A experiência de compor uma trilha sonora possui natureza distinta da gravação de um disco autoral, por exemplo? As canções do longa A Pelada sobrevivem quando dissociadas do filme? Há a perspectiva de levar o projeto Anavontou além da turnê belga?
 
Dudu – Sim. São linguagens bem diferentes. Fazer trilha é pensar em imagens, interpretações… O desafio é entender de que forma a música pode se inserir neste contexto, de modo a complementar a cena do filme e qual a sensação que o diretor quer passar com ela.

O filme "A Pelada" é uma comédia de costumes que tem Aracaju e a sociedade como pano de fundo do roteiro. Então, para a trilha, foi feito um trabalho prévio de pesquisa de timbres relacionados ao ambiente do filme. Para isso, gravei programações de rádios populares, comprei discos em ambulantes, e procurei me envolver mais com o universo musical dos personagens.

A seleção dos músicos foi importante também, pois eles entenderam bem a proposta da trilha e contribuíram bastante com seus timbres. Não dá pra citar todos, mas tivemos um núcleo criativo composto por Allen Alencar na guitarra, Vinicius Big John no órgão e sanfona, Rafael Findans no baixo, Pedrinho Mendonça na percussão e efeitos, Aragão no bandolim e Gentil no Trumpete.

Com relação à sobrevida das canções dissociadas do filme, elas não deixam de ser música e podem sim funcionar sem ele. Temos exemplos de compositores como Ennio Morricone, Burt Bacharat, que compuseram grandes clássicos do cinema mundial, que até hoje fazem sucesso de forma dissociada. Porém, acho que a audição de uma trilha sonora se complementa, sabendo que aquele trabalho foi pensado para algo específico, ou seja, uma cena ou uma abertura de um filme, por exemplo.

O projeto "Anavantou" está surgindo agora, mas temos sim o objetivo de trazer esta turnê pra Sergipe, na época do lançamento do filme "A Pelada" nas salas daqui. Outra ideia que tenho é a gravação de um disco para registrar esse encontro entre Membrana, Nino Karvan e Turdus Philomelos.

JD – A cultura popular está em voga no ambiente musical do mundo inteiro. Aqui mesmo em Sergipe, diversos músicos e bandas têm se dedicado a extrair elementos de nossas festas e folguedos para fazer essa ponte entre tradição e contemporaneidade. Em sua opinião, essa descoberta da aldeia é sintoma de um modismo ou de um encontro genuíno com a cultura do lugar?

Dudu – É bom lembrar que a cultura popular é permanente e mutante. Não acho que exista uma raiz de tudo e sim movimentos culturais que com o passar do tempo vão sendo chamados de tradicionais e que inevitavelmente se renovam com a sociedade de um lugar.

O que acontece é um distanciamento do público com esses movimentos do passado, que chamamos também de folclore, ocasionado por uma formação cultural deficiente pela falta de informação das escolas ou na própria família mesmo. Isso influencia naturalmente o processo criativo de alguns artistas que concebem seus trabalhos tendo as referências do que chega mais fácil pra eles. Então podemos ver como é prejudicial as práticas capitalistas das grandes gravadoras ou os  "jabás" pagos por grandes empresários para promoverem um artista X ou Y. No mínimo, causa um atrofiamento cultural.

Ao mesmo tempo, a gente observa hoje um processo de pasteurização padronizada no mercado fonográfico onde o artista, pra se destacar, tem que "personalizar" o seu som. Pode ser que aí exista de fato um certo modismo em querer apropriar-se dos ritmos e elementos que fazem parte dessa música do passado, com o objetivo de se tornar especial.

Colocando agora o mercado de lado, existem também os artistas que de fato têm uma relação genuína com a cultura do seu lugar. Eles cresceram nesse ambiente, aprenderam cantigas, a tocar instrumentos específicos e que hoje, fazem um movimento contrário, se utilizando de elementos universais pra compor os seus trabalhos.
Em resumo, acho que não existe o falso ou verdadeiro e sim a vivência e o sentimento que se tem com o fazer artístico. As aldeias do mundo já foram descobertas há muito tempo e hoje, mesmo sem perceber, a gente é influenciado por elas, a exemplo do country americano que originou o rock, o jongo africano que originou o samba, etc.

Independente do lugar onde se nasce, tudo é uma questão de referências, que estão aí pra ser acessadas por quem quiser, em qualquer lugar do mundo. E que bom que hoje temos tantos músicos pesquisando e se envolvendo com diversos universos musicais!
Sergipe está seguindo essa tendência. Vemos esses diálogos entre tradição e contemporaneidade nos trabalhos de alguns artistas sergipanos como Elvis Boamorte e os Boavidas, Naurêa, Coutto Orchestra, Patrícia Polayne, Maria Scombona, Membrana, Joésia Ramos entre outros. Particularmente, vejo que o som deles tem sotaque. São regionais e universais.

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