Mílton Alves Júnior
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Sem destino e boas perspectivas de vida, mais de 400 mendigos ocupam atualmente as principais ruas e avenidas de Aracaju, em busca de um futuro melhor. A cada passo dado, a certeza do progresso na vida abre espaço para uma impactante pressão psicológica e obscura, a qual contribui muitas vezes para que, em alguns casos, estes moradores de rua busquem ‘conforto’ nas drogas, ou cometa pequenos atos ilegais. Na última semana, o JORNAL DO DIA foi às ruas do centro durante a noite e madrugada, para conhecer de perto essa realidade. Dividindo calçadas de agências bancárias, os próprios mendigos disseram temer atos criminosos e apontam as agências como o local mais seguro da região.
No primeiro momento, houve cautela em conversar com a nossa equipe, mas ao correr dos minutos muitas vezes aparentemente eternos, os ‘reis das calçadas’ adquiriram confiança e lembraram com certa amargura a trágica história de Galdino Jesus dos Santos, índio da etnia pataxó-hã-hã-hãe que foi queimado vivo enquanto dormia em um abrigo de ônibus em Brasília (DF). Este fato ocorreu na madrugada do dia 20 de abril de 1997, mas até hoje parece conturbar todos os moradores que não possuem uma casa própria, nem auxílio moradia cedido pelos governos. "Parece que isso foi ontem. Todos os dias ao fechar os olhos eu me assusto com tamanha crueldade", disse Reginaldo Pereira, natural de Salvador (BA) e que mora em Sergipe há mais de cinco anos.
Vulneráveis às mudanças climáticas e à perversidade promovida por marginais, o baiano afirmou que, com a recente ampliação das rondas de rua da Guarda Municipal, os índices de ocorrências negativas estão reduzindo. Entre as barbaridades já sofridas, ele afirmou já ter sido acordado com banho de água quente e pó de extintor automotivo. "Alguns chegam demonstrando solidariedade e quando a gente chega perto eles pegam o extintor e jogam o pó na nossa cara. Por essas e outras que estamos dormindo nas portas dos bancos. Tem câmeras e seguranças 24 horas", justifica.
Na tentativa de blindar os moradores de ruas contra tais ações criminosas, centros de acolhimento foram criados pelo governo federal, mas a oferta ainda é inferior à demanda. O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), que articula tais programas de assistência, informou que existem hoje em Aracaju sete abrigos que acolhem pessoas em diferentes situações, como crianças, homens, mulheres violentadas e idosos.
Um destes abrigos é o Centro Pop (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua), que diariamente fornece banho, pequenas refeições, atendimento psicológico e cursos para capacitação, como recepcionista e cobrador de ônibus. A perspectiva é de que novas construções sejam realizadas até o final de 2014, em especial nas duas regiões com maior registro de mendigos.
Apesar dessa iniciativa, a ex-dona de casa Maria Selma, 36 anos, afirmou que, mesmo com os esforços do governo, a realidade é ‘nua e crua’ para quem depende exclusivamente de doações. "Se a saúde do SUS já é horrível, imaginem vocês esse atendimento que eles dizem ser de acolhimento. Ajuda, mas muito pouco", declarou Selma, que concluiu dizendo: "Temos três saídas: Prostituição, Alcoolismo, ou drogas tipo o crack. Nunca ninguém aqui vai ser bem de vida".
Ao contrário do que foi dito por Maria Selma, existem vários casos de ex-mendigos que ocupavam as ruas da amargura e, aos poucos foram se empenhando culturalmente, possuindo hoje possuem casa própria e uma família bem estabilizada financeiramente. Em Sergipe, a professora Marta Batista de Souza, da Universidade Tiradentes (Unit), é um desses exemplos. Moradora de rua durante boa parte da sua infância, hoje ela é sinônimo de perseverança e determinação em busca de um futuro mais promissor. Para ela, a assistência psicológica e o apoio da família contribuem para essa mudança de estilo de vida. "Nada melhor que um apoio constante de profissionais da psicologia. Essa é uma oportunidade ímpar de aos poucos cada um conseguir reconquistar a sua dignidade", declarou.
Problemas familiares levam as pessoas para a rua
Segundo estatística do Centro de Direitos Humanos do Brasil, o país conta atualmente com aproximadamente 1,8 milhões de moradores de rua. A maioria deles está concentrada nas regiões Nordeste e Sudeste. Ainda de acordo com os dados, problemas familiares e desemprego são os principais motivos dessa migração de pessoas que deixam a casa em que residiam e passam a ocupar as ruas. Entre as curiosidades da pesquisa nacional, a falta de amigos ou traição de colegas de trabalho influenciam para essa decadência estrutural. Muitos que hoje estão nessa situação alegam ter conhecido o fundo do poço após uma depressão inesperada.
Para a psicóloga Marcela Pacheco, é necessário que os governantes comecem a investir mais nesses centros de acolhimento e passem a construir novos, a fim de atender a todos e de forma satisfatória. Em um segundo plano, a especialista ressalta a necessidade dos próprios moradores de rua começarem a se dispor mais para ampliar o leque de conhecimentos e interessar-se em lutar por um futuro melhor. "Esse é um trabalho que só vai dar certo com a união de todos. Não adianta criar novos centros e os moradores não se interessarem em crescer na vida. Um ajuda o outro e a situação passa a ser mais positivo", afirmou.
Questionada quanto aos problemas trabalhistas entre colegas de profissão, Pacheco ressaltou a necessidade de cada brasileiro saber dividir o ambiente familiar do profissional. O intercâmbio de problemas entre casa e trabalho pode favorecer a essas depressões. "Saiba dividir amigos de meros colegas de profissão. Não é tratar com indiferença, apenas se cuidar para caso seja traído, não se decepcione com pessoas que antes, pra você, faziam parte de um seleto grupo de amigos confidentes. Além disso, busque programas diferentes com a família, isso ajuda a espantar o fantasma da depressão", pontuou.
Solidariedade – Na tentativa de minimizar os problemas enfrentados pelos 400 mendigos em Aracaju, dezenas de agentes solidários se unem semanalmente para distribuir agasalhos e alimentos aos que dormem no relento. "


