Mercúrio retrógrado

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Segundo o plano de navegação dos astros, Mercúrio está em posição recuada no mapa. Por conseguinte, os hippies da Atalaia garantem, qualquer esforço de comunicação fica prejudicado, tende ao ruído.
Para o cronista que vos escreve, um cínico nascido sob o signo de Gêmeos, a informação não é motivo de grande preocupação. No país dos brutos, onde só a fome prospera e a informalidade reivindica status de empreendimento, não há nuances a exigir grandes saltos especulativos do profissional de opinião. Na luta do bem contra o mal, a simplificação mais grosseira se impõe, preto no branco, o noticiário ganha ares de cartoon.
Seria fácil, por exemplo, apesar de tudo, ater-me aos trinados de boutique do Rock in Rio, acompanhar o fluxo dos desocupados de plantão nas redes sociais, alheio à vadiagem de um planeta invisível, um sedutor, capaz de ludibriar os iludidos de olho nas estrelas com passos atrapalhados de bêbado no salão. Mas, com Mercúrio retrógrado, os flertes e os negócios se complicam, convém tomar cuidado ao empenhar a palavra, evitar sentenças incisivas, renunciar às vírgulas e aos pontos de exclamação de uma carta de amor.
Pessoa estava certo, todas as cartas de amor são ridículas! As cartas abortadas por sugestão do horóscopo, mais ridículas ainda! Por isso esta crônica aluada, missiva redigida em memória de todas as declarações suspensas pela influência má do zodíaco. Lá se vão quatro parágrafos inteiros, indiferentes à valsa cósmica, surdos para os rodopios dos corpos celestes, cegos para o sobe e desce das marés. Quatro parágrafos sem pingo de receio, sem drama, sem grilo.

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