Meu amigo, irmão camarada Vanderlei Silva

Vanderlei Silva (Reprodução)
* Carlos Modesto
Lembrar Vanderlei Silva, é recordar de um homem, que embora não fosse estanciano, ele amava demais esta cidade em que morou na sua adolescência, aqui ele casou-se, teve três filhos e viveu na Estância até o final da sua vida terrena. Ele foi uma personalidade, que podemos denominar de “um homem de sete instrumentos”.
JOSÉ VANDERLEI DA SILVA ficou mais conhecido, entre nós da Estância, como simplesmente Vanderlei, Nasceu na cidade sergipana de Japoatã, em 5 de julho de 1941. Ainda criança, foi com a família morar em Itabaiana, SE. Nessa cidade, o menino enamorou-se perdidamente pelas imagens cinematográficas, e uma das coisas que ele mais gostava de ver, além de assistir aos filmes, era observar os trabalhos preliminares que aconteciam dentro e fora do cinema. Encantava-se pela maneira como os empregados dessas casas exibidoras, colocavam os cartazes, as fotografias e o modo como eles faziam a divulgação de cada filme, com a etapa final da projeção. Com tudo isso, ele conservava consigo o sonho de um dia tornar-se um proprietário de cinema.
Chegou na Estância com sua família em 1955, aos 13 anos de idade, mantinha ainda, possuído do mesmo amor pelo cinema com a mesma intensidade que tinha em Itabaiana. Na Estância, passou a frequentar os cinemas São João e o Gonçalo Prado. Nessas duas casas exibidoras, Vanderlei acompanhava aos filmes da mesma forma com que os meninos da sua idade também assistiam, existindo apenas uma diferença entre ele e os outros: um entusiasmo muito grande em ser um dia o dono de um cinema.
Mantendo dentro de si essa força de vontade empreendedora, característica de personalidades que buscam, incessantemente, a cristalização de seus ideias, em Vanderlei não poderia acontecer o oposto. Esperava apenas o momento oportuno para realizar o seu sonho. Enquanto isso, ainda adolescente, foi trabalhar na Fábrica Santa Cruz, empresa que, durante décadas, cumpriu a missão de ser a principal fonte de empregos para os jovens da terra.
Anos depois, no começo da década de 70 do século passado, em Tobias Barreto, SE, cidade vizinha de Estância, conseguiu arrendar o Cinema Nogueira, permanecendo como seu administrador durante certo tempo, mas não estava satisfeito, pois o que ele queria de fato era ser proprietário de um imóvel onde funcionasse o seu próprio cinema.
Esse idealismo, que borbulhava com tanta intensidade, não podia permanecer inerte em seu interior, tinha que ser projetado para o exterior e assim se transformar em realidade. De fato, tal concretização principiava a ganhar forma quando, em 16 de abril de 1961, o cearense Dom Bezerra Coutinho tomou posse como Bispo da nossa cidade, realizando alguns benefícios, entre estes a fundação do Centro Social da Diocese.
Na época da inauguração do centro, Vanderlei Silva contava com 28 anos de idade, e seus ideais ecléticos no ramo das artes continuavam em fervilhamento. Assim, ligou-se a alguns amigos para criar um grupo de teatro e show.
O imóvel da Diocese, localizado na Rua Capitão Salomão nº 58 (atualmente casa comercial), que, naquele tempo não possuía a estrutura de um cinema. Só existiam as cadeiras, a cabine vazia e o palco. Na verdade, era um rudimentar salão de teatro.
A empresa de fantasia “Promoções Silva Shows”, pertencente a Vanderlei e seus dois amigos, Antônio Gramido Teixeira e Fernando Silva, produziu os espetáculos: Festival de ilusões, estreado durante a Copa do Mundo realizada no México em 1970, com três apresentações, e, em 6 de março de 1971, a peça teatral, em três atos, Amanhã se não chover, de Henrique Pongetti, com Tereza Cardoso, Ana Luiza, Gumercindo Oliveira e o próprio Vanderlei Silva, que realizou mais um sonho: o de tornar-se ator teatral.
Vanderlei gostava do teatro alegre, das comédias de revista, encenações que costumava frequentar quando ia ao Rio de Janeiro e a São Paulo. Mas o cinema era a sua grande paixão. Em 19 de junho do mesmo ano, apresentou no Cineteatro São João a montagem folclórica O manjar dos deuses. Além desses três programas, a “Promoções Silva Shows” almejava reviver em Estância os anos dourados da era teatral da cidade, que tanto sucesso fez no tempo da professora e diretora de teatro Rosa Prado. Ela, na década de 50 do século passado, transformou alguns operários da Fábrica Santa Cruz em atores e encenou peças no Centro Educativo Gonçalo Prado.
Também foi Vanderlei Silva um dos mentores do 1º Festival de Música do Estado de Sergipe, o inesquecível Festival Estanciano da Canção, efetuado na primeira gestão do saudoso prefeito Raymundo Silveira Souza. Quem ganhou o prêmio Rosa de Ouro foi Fernando Silva que fazia parte do grupo de Vanderlei, defendendo a música Exaltação à Estância, composta por D. Francisca dos Santos Assunção.
O idealismo sem limites de Vanderlei alçava voos pelos caminhos diversos da arte do entretenimento. Desejou comprar uma filmadora de 16 milímetros para realizar filmagens com seus amigos, porém não conseguiu tal intento. O equipamento e os filmes virgens eram muito caros. Dificultava também o processo de revelação desse tipo de filme, que continuava sendo feito em São Paulo ou Rio de Janeiro.
Logo depois, surgiu o movimento da bitola cinematográfica Super 8, que eclodira no mundo inteiro, e tornou-se uma verdadeira coqueluche para os fãs de cinema na década de 70 do século passado. Como consequência da rápida evolução do novo formato, em projetar uma imagem mais nítida do que o tradicional 8 milímetros (duplo 8), o Super 8, além de proporcionar uma imagem melhor, possuía a vantagem de o filme vir num cartucho, simplificando o uso da filmadora por qualquer pessoa. Por outro lado, os fabricantes de câmeras e projetores introduziram um fantástico avanço tecnológico nos equipamentos, tornando-os mais precisos e altamente sofisticados. Além disso, a revelação era mais fácil de ser encontrada nas grandes capitais. O arrebatamento pelo Super 8 forçou a criação, em todo o planeta, de clubes e festivais de cinema e até salas especialmente elaboradas para a projeção da nova bitola.
Vanderlei Silva, mais uma vez, acendeu a chama de comprometer-se em se tornar um cineasta amador, logo desistindo, devido, também, aos obstáculos encontrados anteriormente. Embora o equipamento do Super 8 fosse mais acessível do que o de 16 milímetros, perdendo apenas em qualidade de imagem para este último, os custos do mesmo continuavam inacessíveis para o filho de um funcionário público e simples operário de um empório de tecidos. Na verdade, não insistiu no movimento “superoitista”, pois seu objetivo maior era ser dono de cinema.
Nasce o Cinema Guarany
No ano de 1971, uma concorrência foi feita pelo Bispo Dom Bezerra Coutinho para o arrendamento do Auditório Diocesano, com a finalidade de transformá-lo num cinema. A quimera de tornar-se o dono de um cinema estava prestes de realizar-se para o idealista Vanderlei Silva. Ele tinha a absoluta certeza de que seus companheiros Fernando e Antônio, da “Silva Shows”, aceitariam fazer com ele uma sociedade para montar um cinema no prédio da Diocese. O primeiro dos seus amigos, nessa altura, encontrava-se na capital baiana, trabalhando na empresa Tintas Coral, e o segundo ainda continuava na Estância. Com esse pensamento categórico, Vanderlei entrou na luta.
A Diocese fez uma consulta ao saudoso empresário Dr. Jorge Leite, para saber se ele tinha interesse na exploração do espaço. Mas ele imediatamente descartou a ideia, explicando que para si não era praticável, devido ao fato de já possuir o Cineteatro Gonçalo Prado. Sugeriu, então, o nome do administrador do Cinema São João, Dermeval Costa, o qual foi vitorioso da concorrência, em novembro de 1971.
Dermeval Costa, embora tenha ganhado a concorrência, não mostrou interesse maior em montar mais um cinema. Então, Vanderlei Silva que também havia entrado na competição pelo espaço, com o nome da sua empresa “Promoções Silva Shows” – sociedade apenas de fantasia, uma vez que não era registrada, não possuindo valor legal -, foi chamado pelo bispo Dom Bezerra Coutinho, que lhe comunicou a desistência de Dermeval e, assim, colocou o Auditório à sua disposição. Vanderlei, de imediato e possuído de uma emoção frenética, procurou Antônio Gramido Teixeira. Este achou a ideia boa, mas recusou logo a sua entrada na sociedade, devido a não dispor de meios para a compra dos aparelhos. Da mesma forma, Fernando Silva não aceitou a sociedade, pelo motivo de encontrar-se trabalhando fora da cidade, e também porque seus familiares não poderiam se envolver no investimento.
Vanderlei via seu sonho ir por água abaixo. Sentiu-se só e arrasado, vendo que tudo lhe sobrara. Mas ele não era homem de se dar por vencido tão prontamente. Partiu para falar com seu irmão Teninsson e seu pai Francisco Teixeira da Silva, convencendo-os a tornarem-se sócios por cota de responsabilidade Ltda., porque, pela lei, a sociedade anônima de uma empresa só poderia ser constituída se tivesse, no mínimo, sete sócios. Então, foi criada a Orgencil – Organização Estanciana de Cinemas Ltda., em 17 de fevereiro de 1972.
Enquanto Vanderlei Silva viajava para São Paulo, com a firme determinação de comprar os aparelhos, uma promoção era divulgada, através do jornal da cidade, para ver quem acertaria o nome do cinema que, brevemente, seria inaugurado. A designação Cinema Guarany já havia sido escolhida anteriormente, pelos proprietários da casa de diversões, em homenagem ao nome da famosa obra literária do escritor cearense José de Alencar.
Munido do apoio oferecido por José de Queiróz, empresário do ramo de cinema em Aracaju, além de conterrâneo e amigo de longa data, Vanderlei Silva chegou a São Paulo. Na Empresa Cinematográfica Pathé Indústria e Comércio, comprou, em 30 de março de 1972, todos os equipamentos e acessórios para montagem do Cinema Guarany.
Vanderlei ficou empolgado e emocionado quando a cabine completa, com os projetores de cinema “Solidus 9” chegou a Estância. Imediatamente, disparou para Aracaju, a fim de contratar os serviços de Celso, um dos técnicos de projeção dos cinemas de José de Queiroz, para que ele fizesse a instalação dos aparelhos. Colocou a tela, testou tudo. Na manhã de 21 de abril de 1972, uma sexta-feira, o Cinema Guarany foi inaugurado.
Vanderlei Silva havia, anteriormente, viajado para Salvador, e, na empresa distribuidora, fez todo o empenho para ter o filme Love story, no ato inaugurativo do seu cinema. Infelizmente, isso não foi possível. Love story, naquela oportunidade, só estava sendo exibido nas principais capitais do país. Contudo, embora com menos sucesso, a excelente película A filha de Ryan estreou o Cinema Guarany. O povo estanciano compareceu em massa, ocupando as 390 cadeiras da casa e prestigiando mais um feito de alto nível. O semanário A Estância, de 23 de abril de 1972, publicou faustuosamente o fato.
A década de 1970 ia chegando ao fim, e com ela o cinema sofria, cada vez mais, a redução da frequência do público, que já se havia acostumado com a televisão e outros tipos de entretenimento. O Cinema Guarany passa, então, a ter sérias dificuldades financeiras. Em 20 de junho de 1978, Vanderlei Silva desliga-se da sociedade “ORGENCIL”, cedendo sua participação ao técnico agrícola José de Fraga Filho, natural de Lagarto, SE, e domiciliado na cidade da Estância. Porém, nada mudou. A cada dia, baixava a quantidade de espectadores e acumulavam-se os prejuízos. A solução encontrada foi vender a casa de diversões aos comerciantes Nivaldo Silva e seu irmão Renato Silva.
O Cinema Guarany continuou com os novos administradores – que também, na época, eram os donos do Cineteatro São João, exibindo filmes de renome, mas era um esforço inútil, já que não mais atraía o cada vez mais distante público. A morte estava anunciada, Em pouco tempo, poder-se-ia ouvir o desconfortável agourentar do réquiem.
O surgimento do videocassete acentuou ainda mais a decadência das casas de diversões, substituindo-as pela nova invenção dos filmes gravados em fitas magnéticas. Melancolicamente, o Cinema Guarany deu seu adeus definitivo, projetando a pornochanchada nacional, Jojami, a camareira transex. Em 04 de janeiro de 1995.
Vanderlei Silva seguiu o curso da vida, sempre fiel a sua natural condição de homem sensível e amante das artes. Destacou-se como locutor da Rádio Esperança, cronista de futebol, proprietário de uma locadora de vídeo, jornalista e redator do semanário A Gazeta da Estância, da empresa dos irmãos Nivaldo e Renato Silva. Por fim, fundou o jornal Sul de Sergipe (última fase), onde eu Carlos Modesto, fui seu colaborador como autor de várias matérias.
Sofrendo de várias doenças degenerativas que restringiam constantemente sua luta pela sobrevivência, faleceu de um derrame cerebral, em 8 de novembro de 1999, cujo momento da morte ele se apresentou a mim para dar-me um abraço de despedida, quando eu estava dentro de um ônibus voltando do trabalho para casa em Salvador. Esta figura fantástica foi meu grande amigo. Semeador das artes e criador do último cinema da Estância, o jornalista José Vanderlei da Silva, cuja memória foi merecidamente tributada no meu livro Sombras da Saudade – A História dos cinemas da Estância, deixou viúva a senhora Rubenilde Nascimento Silva e seus três filhos, Adriana Silva Siqueira da Cruz, Andréa Nascimento Silva e o varão Márcio Ruben Nascimento Silva.
* Carlos Modesto é escritor em Estância
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