Nas Quadras das Águas Perdidas
Publicado em 14 de fevereiro de 2025
Por Jornal Do Dia Se
Elomar
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Alas qui foi um truvejo. In certa altura da labuta já quaji disurino, tarei o tempo, me apeguei cum Deus e cum o dijitoro dum bando de malungo, muntemo o mondengo, fumo consiguino e já cum água na capa da cela cheguemo lá. Nestes termos Zé de Mandú, Zé Krau ou Quilimero resumiriam o falatório, que se segue. Vendo os janeiros entrando, as canções chegando e sumindo, e o encordoamento da goela cansando, me aviei em fazer logo um disco ou dois ou mais. E como fazer isto?
Fizeram as gravadoras lá pelas bandas do Sul, muito longe da catinga; cidade grande barulhenta, apertucho, muito regulamento, elevador, documentos na capanga, comida ruim… Não vou não. Resolvo, vou. E os quadros, manchetes, os cotidianos registrados pela imprensa? Vou ou não, me difini. Arranjo um “nagra” e vou gravar isto é lá em casa no Rio do Gavião junto dos bodes no meio do chiqueiro. Não precisa estúdio; conversa de vaqueiro, cantiga de grilo, budêjo de pai-de-chiqueiro, se entrar na fita fica, faz parte. E mais cadê o nagra? Nessa enrola um ano se foi. Daí é que dando um pulo a Salvador para u’a cantoria ligeira de fim de ano, e sem que eu desse por fé, Carlos Pita, Alcivando, João Américo, Dércio Marques, Xangai, Fábio, Limongi, Gildásio e Vicente (um bando) já tinham armado a arapuca. Foi só puxar o cipó e de repente me vi enredado na trama de fios do estúdio do Seminário de Música da Universidade da Bahia, o que nos foi concedido com empenho e gentileza pelo seu diretor, o Prof. Ernest Widmer, ao qual nesta oportunidade faço meus agradecimentos.
Foram longas horas de estúdio; trabalho pesado, esgotante, e o pior, o que dá raiva, são as tais fitas em rôlo, é um rôlo, é um rôlo! Quando a gente pensa que “matou” 4 ou 5 canções, Alcivando e João, bradam: grava tudo de novo (um tal de dacapo). Que foi lá? – Fitas defeituosas, defeito de fabricação, isto é demais, custou muito, não vou gravar essa mundiça mais não! Grava, não grava, enfim ficaram prontos os rolos. Rôlo brabo foi entrar num avião, cortar o céu e descer naquela galáxia em vias de explosão (S. Paulo).
Virgilino! Ali com o apoio do Sr. Marcos Pereira, consegui contratar a prensagem na fábrica de discos Copacabana. Por 8 dias no S. Paulo andei naqueles subterrâneos, gargantas e desfiladeiros de paredes verticais. Um mundo perdido, carcumido por ventos maleitosos, mortiferas fumaças, “estrôncios letais”, milhões de seres pálidos macróbios, uma guerra telúrica. Geraldo, um amigo catingueiro que, ora sujegado naquele habitat e já portanto afeito ao elemento envenenado. Foi meu guia enquanto eu errava, me lembrando do Rei Davi, na imensidão daqueles vales onde por vezes eu vi passar de largo a sombra da morte. E parados na sala grande do museu, eu vi também os Retirantes de Portinari. No meio d’ua travessia, boquinha-de-noite, sinaleira fechada, uma aflição imensa com medo de não dar tempo; de salto armado e olhos semiserrados, a grande alcatéia de monstros prestes a desfechar o salto e esfarelar a gente. No meio da tribulação, me lembrei de Remundo, no esfregar dos olhos vi no fim do mundo, no êrmo as ruas desoladas, e dos casarões entravam e saiam ratos, cobras, morcegos e corujões… como disseram os profetas hebraicos.
Daí, veio o rôlo derradeiro, foi um tumba, a capa dos discos. Foi com menos sofrimento, já estava na Bahia. Com um grande lãin na pesada, a Planus Propaganda meou e finalizou a arte. Um bando de malungo realmente, mil vaquêro internado nos serrados de jurema campiano trem alevantado. Nunca pretendi fazer disco adereçado de altos requintes técnicos, tão somente a pura e simples documentação de meu trabalho, sem que turbe o espírito das coisas e do lugar donde ele saiu. Este disco foi feito a facão, no nordeste, com o dijitoro de muitos amigos, o sacrificio meu e de minha mulher, e sobre todas as coisas, com o consentimento de Deus. Estes cantares e estes falares são lembranças que a catinga agradecida manda para o amigo Henfil.