* Cleverton Silva
E lá se foi o 1º turno das eleições de 2026, no dia 4 de outubro. Em Sergipe, dentre os(as) 1.737.460 eleitores(as) aptos(as), 1.436.609 votaram, totalizando 82,68% de comparecimento. Em termos de abstenções, o nosso eleitorado ficou com 17,32%, ou 300.851 não votantes, muito abaixo da porcentagem nacional, que marcou 21,08%, quase 33,5 milhões em números absolutos. 2.675 sergipanos(as) solicitaram voto em trânsito ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para votar apenas para Presidente no 1º e 2º turno, fora do território sergipano, o que explica pequenas diferenças em relação aos números e percentagens acima.
Para o cargo de Governador do Estado, Fábio Mitidieri (PSD) se mostrou habilidoso na construção de uma poderosa candidatura, ao costurar alianças lendo uma conjuntura totalmente diferente e muito mais confortável que a campanha que venceu, a muito custo, em 2022, quando os rolos de Valmir de Francisquinho (naquele ano no PL) com a Justiça Eleitoral serviram de freio ao ímpeto avassalador dos sergipanos em eleger como Governador um ex-Prefeito interiorano da influente Itabaiana; e num disputado 2º turno superou Rogério Carvalho (PT).
Agora em 2026, o Governador reeleito com 727.291 (59,27%) votos gerenciou bem uma campanha de reeleição que teve como maiores críticas o relacionamento conturbado com categorias de servidores públicos com força no sindicalismo, a concessão dos serviços de abastecimento e esgotamento à Iguá, e uma campanha com 4 candidatos ao Senado, 2 oficializados (Rogério Carvalho e André Moura – UB) e 2 (Alessandro Vieira – MDB e Edvaldo Nogueira – PDT) que tiveram o consentimento de correrem por fora, com raras subidas aos palanques e peças de campanha quase nunca integradas a outras candidaturas.
Bastante subestimado nas pesquisas, Rogério Carvalho se consagrou na 1ª vaga ao se reeleger para o Senado, ao obter 511.142 (21,91%) votos; enquanto o superestimado André Moura, “o Senador de Fábio” e eterno campeão em pesquisas, amargou o 4º lugar com 377.669 (16,19%) votos. Quem se deu melhor na 2ª vaga para o Senado foi o também reeleito lavajatista e bolsonarista com recaída Alessandro Vieira (MDB), com 399,775 (17,13%) votos, desbancando o vaidoso Delegado André Davi (Republicanos), outro “campeão das pesquisas”; o ex-Senador Eduardo Amorim (Republicanos), o alucinado Rodrigo Valadares (PL), o pouco hábil ex-Prefeito Edvaldo Nogueira (PDT) e outros nomes. O Governador ainda conseguiu o feito de ter em sua aliança 7 dos 8 Deputados Federais e 18 dos 24 Deputados Estaduais eleitos.
Realmente, pode-se dizer que a habilidade do Governador reeleito se provou ao montar esta chapa majoritária que em alguma medida “agradou gregos e troianos” (parte da direita, dentre estes bolsonaristas, e outra parte da esquerda), derrotando Valmir de Francisquinho (Republicanos) e suas linhas auxiliares, Ricardo Marques (PL) e Emanuel Cacho (PSDB), representantes de partidos que crescem politicamente se instrumentalizando através do fanatismo religioso capitaneado por Edir Macedo, em seu plano de poder fantasiado de “neo-judaísmo” primitivo praticado na Igreja Universal, que em São Paulo conta com a conivência do Governador para forçar Policiais Militares a frequentarem reuniões e formações em seus templos, afrontando o dever de resguardar a laicidade do Estado e o direito individual de cada PM de não se ver obrigado a frequentar templos da IURD.
Para a eleição presidencial, o recado do povo sergipano foi o de que Lula merece a reeleição, ao lhe conferir no 1º turno 856.019 (62,75%) votos válidos, contra 417.839 (30,63%) de Flávio Bolsonaro, e menos de 8% dos votos válidos para os demais candidatos. Porém, a onda reacionária que se abateu sobre o Brasil em 2018, com a eleição e o desastroso governo de Jair Bolsonaro, seu refluxo em 2022, com a vitória do próprio Lula, e o novo influxo em 2026 com Flávio Bolsonaro liderando o 1º turno, que no cômputo geral dos votos válidos no Brasil conseguiu 56.104.503 (47,03%) votos, acompanhado de Lula com os 53.879.538 (45,16%) votos.
Na segunda-feira seguinte, 5/10, o filho do ex-presidente presidiário e golpista se assanhou ao retomar a conversa do “tesouraço” nas contas públicas, ameaçando desvincular aposentadorias, pensões e outros benefícios do salário mínimo; empurrar outra “reforma da previdência” no lugar da de 2019, imposta pelo próprio Bolsonaro; impor o “trabalho por hora”, negando aos trabalhadores brasileiros a sonhada conquista da jornada com 2 dias de folga; desvincular os valores constitucionais de investimento mínimo na saúde e na educação; privatizar e precarizar todo o serviço público; entregar a Petrobras aos EUA; fazer uma “reforma constitucional” que lhe garanta um mandato de 5 anos, dentre outras atrocidades. Enfim, a arrogância do candidato do PL foi despertada pela alta votação recebida no sprint do final do 1º turno, desidratando os demais candidatos de direita ao tentar vencer já em 4/10, sem sucesso.
Diante do quadro nacional, a sociedade sergipana se utilizou das urnas para dar alguns recados ao povo brasileiro como um todo, sendo eles: reeleger Lula é afastar os Bolsonaro e seus aloprados agregados do poder, e os bolsonaristas do União Brasil e PP que se contentem com os nacos do poder do Governo do Estado, pois Sergipe derrotou fragorosamente os representantes do mal maior, a exemplo de Rodrigo e Moana Valadares; Luizão Dona Trampi e seu protegido Flávio da Direita Sergipana, que falhou ao tentar se eleger Deputado Estadual e ganhar foro privilegiado. Flávio da Direita Sergipana é um dos réus envolvidos na tentativa de assassinato de Charles Belchior em outubro de 2024.
Essas pessoas, que receberam o “NÃO” das urnas querem ocupar os cargos federais em Sergipe, para destruir a rede federal de ensino, dificultar a permanência estudantil com cortes no Pé-de-Meia e bolsas de estudos; impor as inconstitucionais escolas cívico-militares; travar as filas dos benefícios do INSS, dificultar o acesso aos benefícios sociais como o BPC e o Bolsa Família; desmontarem o SUS, dentre outras atrocidades; além de deixarem crimes ambientais impunes, como o derramamento de petróleo nas praias sergipanas em 2019. Imaginem esta turma derrotada nas urnas sendo indicada para destruir as superintendências do Ministério da Saúde, Codevasf, IBAMA/ICMBio, IPHAN, dentre outras.
Assim como faziam no final dos anos 2010, neste 2º turno os bolsonaristas exibem suas armas de fogo nas redes sociais, e atiram para intimidar e ferir direta ou indiretamente, como ocorreu na última quinta-feira, 8/10, quando um PM à paisana fez disparos para interromper um ato a favor da reeleição do Presidente Lula em frente à Universidade Federal de Sergipe (UFS). Outro Flávio alucinado no PL é o Vereador de Aracaju, que foi ao Campus São Cristóvão da UFS criar caso no DCE, mas não dá um pio e é conivente com a UNIT cobrando tarifa de estacionamento do seu alunado, uma superexploração do solo aracajuano, juridicamente tolerada ou não.
A população sergipana está vigilante, preparando-se para votar bem no 2º turno. E o compromisso das esquerdas no Estado é que Sergipe amplie a diferença em favor de Lula, o candidato que representa um futuro de desenvolvimento socioeconômico e estabilidade política e institucional, além da própria sobrevivência das direitas que não querem se submeter ao bolsonarismo. Assim como se compromete a fazer sua parte, a comunidade política sergipana espera que Nordeste, Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul virem o jogo e convençam os que se abstiveram a salvar o país da barbárie do PL.
* Cleverton Silva, bacharel em Direito pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)

