Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Kurt Cobain completaria 46 anos no último dia 20. Escutei o Nevermind mais uma vez, depois de ler a notícia. Descobri que nunca tive infância.
Eu não sei onde estava enterrado quando o Nirvana aconteceu. O mais provável é que me encontrasse no quarto, com os ouvidos entupidos de jazz e rock progressivo. De certo, as lágrimas que não derramei quando o galego foi encontrado morto, com um tiro na cabeça.
Hoje, os ruídos de Seattle me cobram o tempo perdido, como fazem todas as experiências tardias. Assumo o ônus da arrogância adolescente, mas não abro mão dos pré-conceitos do adulto. Duvido pagar tributo semelhante à memória de Chorão, algum dia.
Se o mundo valer o peso de seus mortos, estamos lascados. Mesmo pra quem não viveu o momento, os três discos gravados pelo Nirvana, sua simplicidade cruel e inventiva, justificam o espanto e a consternação de quem não conseguia acreditar na notícia.
Não era apenas o personagem, nem o homem de carne osso com um rombo na testa que saía de cena. Mas também, os anos revelariam, o último berro sincero da música.
De lá pra cá, muito pouco de notável ocorreu. Nada que tivesse a mesma força. Perto das ruínas rasgadas na garganta de Mr Cobain, os riffs da Charlie Brown Jr, por exemplo, não assustam nem as menininhas.
Em minha defesa, um último argumento: Luciano Huck e Ana Hickman declararam luto. Não dá pra contemporizar com essa gente.


